Por Opinião
Em 22/04/2017

Empresa e trabalhador: o lado positivo da crise - Rubens Marchioni*

Hoje estamos mergulhados num cenário de falta generalizada de emprego. Ele reduz o potencial de crescimento do país, porque impede as pessoas de contribuir com atividades como o consumo e tudo o que ele implica. No entanto, vista por outro ângulo, pode-se enxergar oportunidades trazidas por essa crise, palavra que sugere momento difícil, decisões rápidas, mudança súbita, discernimento, nunca de desespero ou coisas do gênero.

O desemprego empobrece as famílias, esse é um dado inquestionável. Não bastasse esta carência, elas convivem também com o processo de envelhecimento das pessoas, em geral, aposentadas. Gente que não apenas deixa de produzir bens, serviços e recursos financeiros, mas passa a requerer cuidados e investimentos como só acontece nesta fase da vida. Afinal, esse é o momento em que suas necessidades são potencializadas e não perdoam o descuido.

Enquanto o fenômeno se verifica, surge um espaço que muitos veem como a chance de voltar ao trabalho, para a criação de empresas especializadas em cuidar dos idosos em seu período de descanso e urgência de mais atenção. O que é bom, porque, além de tudo, cria-se uma saída para quem busca novas alternativas de trabalho, em geral, como autônomo, visando também à reposição do salário de quem saiu de campo.

Como se sabe, ser dono do próprio nariz requer uma dedicação maior, distribuída numa carga horária idem e nada previsível. Mas eis a boa notícia: quem não dispõe de tempo integral para atuar como cuidador, sabe que enquanto trabalha seus dependentes estão sendo tratados por profissionais de fino trato. Ponto para quem precisa cuidar da atividade profissional, hoje tão desafiante. Afinal, toda tranquilidade é sempre bem-vinda e se justifica.

Sem grande euforia, que não é o caso em tempos de reconstrução quase embrionária, pode-se dizer que a conta fechou. Idosos vivendo dignamente, enquanto profissionais da ativa empenham-se com liberdade para entregar mais do que foi prometido. E isso vale para todas as áreas, incluindo a empresa, os relacionamentos, a escola, a igreja, a política etc.
 
*Palestrante, publicitário, jornalista e escritor. Autor de Criatividade e redação e A conquista


Democracia e Sociedade: O impasse do atual sistema político - Luiz Maito Jr.*

Por muito tempo acreditamos que democracia era estar livres de governos que deliberadamente se mostrassem antidemocráticos, que homens dispostos a embargar vontades alheias fossem nossos reais inimigos, acreditamos e delimitamos nossas vontades a uma democracia representativa, com eleições de pessoas que nos representariam, seriam nossos emissários na vida política do país.

Que qualquer discurso que incluísse o povo como pano de fundo de seus propósitos nos representaria, e acreditamos, iludidos admitimos que o discurso nos representava e definiria eticamente aquilo que pensávamos ser. Mas somos mesmo? Quem neste sistema nos representa, o teu voto é apenas um número que será computado no querer avançar na carreira política de alguém, mas você não banca essas campanhas. Quem as banca? O sistema falido apenas reproduz os métodos, mesmo que em novos rostos.

Podemos celebrar duas ou três décadas de eleições, do fim de uma ditadura deslavadamente truculenta e odiosa, mas podemos celebrar avanços nos princípios democráticos? Negros? Indígenas? LGBTs? Educação? Avançamos? Os modelos estão praticamente eternizados, atravancados por posturas que não avançam em relação ao futuro, é o micro, legislando sobre o macro. É preciso ir ao ponto, somos iguais ou não, há uma lei maior que nos rege?

As desconstruções estão a pleno vapor, os processos antidemocráticos encontraram abrigo no seio de nossa própria democracia. O que nos cerca incomoda, nos torna menores, ainda que não compactuemos, a vileza dos atos nos move para trás, desconstrói a possibilidade do avanço. E o avanço depende do conhecimento e da informação sem aprisionamentos, sem utilização personal.

*Estudante de Historia da UERR


Acesso à Universidade e Populismo - Fernando Rizzolo*

É interessante observar que, diante das dificuldades econômicas de um país, quanto maiores elas forem, maior será o sonho dos jovens em se preparar para ingressar no mercado de trabalho, ou seja, quanto menos emprego, mais sonho. E é exatamente ao nos depararmos com essa condição natural, como o é a ascensão social, que surgem ideias e programas eleitoreiros, para não dizer traiçoeiros. Um exemplo disso foi o famoso Financiamento Estudantil (FIES), que o petismo implementou e em cujas contas uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu um rombo estimado em R$ 20 bilhões entre os anos de 2009 e 2015, cifra que coloca em xeque um dos principais programas do Ministério da Educação.

Como estamos diante de uma condição assombrosa de corrupção no Brasil, descobrindo que não há mais nenhum partido político sério, uma vez que a maioria dos políticos brasileiros está sob suspeição, já não temos a certeza de que determinados setores, por “pretextos sociais”, estejam sendo poupados, como ocorreu com a indústria automobilística, entre outras. A grande verdade é que, em vez de o governo, já desprestigiado, desacreditado, se preocupar, por exemplo, com a reforma da previdência, que poupa servidores públicos e forma casta sociais no país, poupa também essa farra da gastança chamada FIES, visando a agradar o poderoso lobby das Universidades, pois o maior beneficiário desse programa – por meio do qual as mensalidades se tornam “lucro certo” vindo do Tesouro Nacional, cujo custo global só em 2016 chegou a R$32,2 bilhões – são os grandes grupos universitários internacionais e nacionais, que transformaram o sonho do pobre em ser “doutor” num rombo de 20 bilhões, como apurado pelo TCU.

A saída para estancar tal sangria seria acabar de vez com o Programa, que parece estar fora de controle contábil, e repensar um novo projeto de viabilização do acesso dos jovens carentes à Universidade, aumentando o número de vagas nas Universidades Federais e Estaduais, construindo novas Universidades Públicas e evitando o comprometimento do erário público, pois, diante da forte inadimplência desse programa ilusório e mercantilista, quem perde é o país e quem ganha são os comerciantes da educação.

É mister salientar que nem sempre a presença do Estado em alguns setores é ruim, pois pior, ao meu ver, são as manobras educacionais políticas que punem os mais carentes, aproveitando-se do sonho de uma vida melhor, num país com altas taxas de desemprego. Infelizmente, no Brasil, vender sonhos impossíveis ainda é a melhor forma de negócio... Aliás, diga-se de passagem, um ótimo negócio.

*Advogado, Jornalista, mestre em Direitos Fundamentais - www.blogdorizzolo.com.br


Lembra-se do Naná? - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Se o Naná Vasconcelos fosse americano o Brasil estaria de luto”. (Antônio Prata)

O Naná faleceu no início do ano passado. Eu estava no Rio de Janeiro. E como de costume, lia a Folha de São Paulo todos os dias. Além da Folha de Boa Vista, claro. Eu, hem? Naquele dia a Folha de São Paulo falava sobre a morte do percussionista Naná Vasconcelos. Um dos maiores percussionistas brasileiros, conhecido e reconhecido no mundo todo, menos no Brasil. Mesmo, talvez porque ele, o Naná, era negro.

Não vou ficar aqui citando nomes de grandes negros do passado, que foram figuras ilustres na música brasileira, e que foram abordados pela segurança dos aeroportos, quando viajavam para o exterior, onde realmente faziam sucesso. Já reparou que os grandes astros da nossa música brasileira só são reconhecidos depois de reconhecidos no exterior? Naquele dia, no Rio de Janeiro, fiquei bem aborrecido. Prestei atenção e nunca mais, desde aqueles dias, ouvi qualquer comentário ou referência ao Naná.

Sabe o que me trouxe a esse papo, hoje? Foi o pensamento que me abordou pela manhã. Estamos negligenciando com nosso idioma, com nossa cultura, e tudo o mais que nos é e está deixando de ser uma referência brasileira. Desculpem-me os profissionais da televisão, mas ela está colaborando para esse desastre. Barão de Itararé, renomado profissional da comunicação brasileira, disse o seguinte: “A televisão é a maior maravilha da ciência, a serviço da imbecilidade humana”. Não simpatizo com o pensamento do “Barão”, mas franzo a testa quando ouço o âncora da Globo dizer, durante o noticiário: “O encontro é amanhã”. E isso está tão banalizado que nem percebemos mais. E não é à toa que o número de reprovações nas redações, nos exames superiores está nos alertando.

O que vemos de propagandas nos alertando para que estudemos bem o inglês, não está no gibi. Mas ninguém fala na preocupação que devemos ter com a língua portuguesa. Não sei se os intelectuais estão prestando atenção a isso, mas se não estiverem, tomemos cuidado. Já na década dos sessentas, um “gênio” da comunicação fez uma campanha, pela televisão, para que se mudasse a letra do hino nacional brasileiro. E a justificativa era que a letra do hino era clássica e os jovens não conseguiam entender. Dá pra entender isso? E me desculpem se estou dando uma de careta. Mas que é preocupante, é. E o resultado está exposto aí na nossa política. Ou você pensa que uma coisa não tem nada a ver com a outra? Inclua aí, o voto facultativo. Porque ele só virá quando formos realmente competentes para usá-lo. E ainda não somos. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

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