Por Francisco Cândido
Em 11/10/2017

PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA
 FAMÍLIA CORRÊA DE MELO 

Roraima... 1918.Nas primeiras luzes da manhã chegou à “Fazenda São Marcos”, o Tenente da Polícia Militar do Amazonas Cícero Corrêa de Melo (nasceu em Maranguape, no Ceará, em 31/05/1885), vinha em missão especial do Governo do Amazonas para administrar aquela Fazenda e gado de propriedades do Governo Federal. Em Manaus ficou sua primeira mulher a senhora Maria José, com a qual teve o filho Cícero Correa de Melo Filho (casado em Boa Vista com a senhora Maria Tereza Maciel – ambos já falecidos). A segunda esposa do Tenente Cícero foi a roraimense Cândida Menezes, com quem se casou em 1922. Desta união nasceram os filhos: Joaquim Corrêa de Meloe Maria do Perpétuo Socorro Melo. E, com a terceira esposa, a senhora Maria Mecena de Oliveira,ele não teve filhos.

A senhora Cândida Menezes, sua segunda esposa, já era viúva (de José Gelb de Lima) e proprietária da “Fazenda Casa Branca’, em Normandia, às margens do rio Maú, fronteira com a Guiana. Era uma propriedade enorme que abrangia o Lago Caracaranã.

A Fazenda Casa Branca tornou-se o lar definitivo do Tenente Cícero, onde ele criou gado, plantou, colheu, e produziu a subsistência de sua família. Ele era um homem de posses, muito respeitado, e que gostava de receber bem a todos que o visitava. Sua mesa era farta e ajudou muita gente. Mas, em 1971, um “misterioso” incêndio de altas labaredas deixou sua propriedade em cinzas e fez com que seu coração não suportasse tanta tristeza. Este foi o motivo de sua vinda para Boa Vista aonde faleceu no dia 14 de março de 1972. Deixou a propriedade com o Lago “Caracaranã”(na língua indígena significa: “Pássaro livres”)para O seu filho Joaquim Corrêa de Melo.

Joaquim Corrêa de Melo nasceu no dia 14/05/1923 na fazenda Casa Branca. Estudou em Manaus no Colégio Pedro II e depois na Escola Agrotécnica. E, quando voltou à Boa Vista, casou-se em 1950 com a senhora Odete Pereira, com a qual teve os filhos:Mário Jorge; Maria Inês, Maria de Nazaré; Maria Mercedes; Maria Claudete Correa, e o Luiz Otávio Correa de Melo (foi duas vezes Prefeito de Normandia, faleceuem 30/04/1992).

A irmã de Joaquim Melo, a senhora Perpétua, casou-se com o professor Aluízio Neves e tempos depois o casal foi morar no Rio de Janeiro, e Joaquim passou a morar na Fazenda Casa Branca. Homem de prestígio, Joaquim Corrêa foi o primeiro Juiz de Paz de Normandia no período de 1975 a 1978, onde realizou muitos casamentos e, em seguida, foi indicado pelo Prefeito de Boa Vista, à época Júlio Martins, no governo do coronel Fernando Ramos Pereira, para ser o subprefeito de Normandia, cargo que ocupou de 1978 a 1979.

O seu irmão, Cícero Corrêa de Melo Filho, foi nomeado Prefeito de Normandia em 1982 pelo governador Ottomar de Sousa Pinto.

Cícero já é falecido. Em sua homenagem há no Bairro Caranã a “Rua Cícero Corrêa de Melo Filho” (conforme Lei Municipal nº 585/2001, de 29/10/2001).

Quanto ao Joaquim Melo com o seu filho Luiz Otávio, transformaram o “Lago Caracaranã” em um recanto aprazível de lazer, onde era visitado por centenas de pessoas nas festas e festivais. Havia chalés, apartamentos, restaurante, campo de pouso e toda infraestrutura para usufruto do público. O Lago está a 20 km de Normandia (distando de Boa Vista 185 km, e de Bonfim 90 km).

Mas, a “demarcação de terras” naquela região, desmoronou o sonho de realização de Joaquim Corrêa de Melo. O Supremo Tribunal Federal determinou que até o dia 30 de abril de 2009, as pessoas não-índias que morassem naquela região da Raposa/Serra do Sol, teriam que deixar suas propriedades e sair de imediato, sob pena de crime de desobediência.

O coração de Joaquim Corrêa quase não resiste ao choque ao saber que teria deixar a terra que o viu nascer e a sua propriedade que cuidou por muitos anos com tanto zelo.

Ele ficou tão triste que nem esperou chegar o tal dia 30 de abril para sair. Joaquim Corrêa deixou o Caracaranãdois dias antes, no dia 28/03/2009, e veio para a capital Boa Vista, onde está a sua família (na Rua Alferes Paulo Saldanha, no Bairro São Francisco).

E, o que ele trouxe de sua propriedade? Duas garrafas com água do Lago Caracaranã e seis saquinho de areia retirada da margem, além de alguns galhos e folhas daquele cajueiro que está até hoje à margem do lago. Acrescente-se à esta angústia, a proibição de voltar ao local onde o corpo de sua falecida mãe (Cândida Menezes) repousa naquele lugar.

Mas, Roraima não se esquece dos seus filhos ilustres. Joaquim Corrêa de Melo foi homenageado pela Assembleia Legislativa como o Diploma de “Orgulho de Roraima”; assim como a Câmara Municipal de Boa Vista lhe outorgou o Diploma Mérito Rio Branco; e o Governo do Estado lhe concedeu a Comenda Forte São Joaquim, como Cavaleiro da Ordem e Mérito da Ordem. O ilustre personagem desta reportagem tem hoje 94 anos de idade.

Francisco Cândido
franciscocandido@ibest.com.br
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