Por Jessé Souza
Em 23/09/2017

Cenas e figuras repetidas

Enquanto o crime organizado impõe sua força por terra, os grandes carregamentos de droga cruzam os céus de Roraima, transportados por aeronaves que partem daqui mesmo, das pistas aos arredores de Boa Vista. E não se trata de uma novidade, como também não é novidade que a polícia nunca chega aos verdadeiros donos da droga; ou, se chega, ninguém nunca soube de nada.

Aviões que caíram ou fizeram pouso forçado, com carregamentos ilegais milionários, já foram apreendidos em outras épocas, mas nunca chegaram-se aos nomes dos donos da droga. E provavelmente ocorrerá o mesmo com essa aeronave que caiu na Terra Indígena Yanomami, no sul do Estado, na semana passada.

Somente quando ocorrem situações como essa é que as pessoas lembram que não há fiscalização nas pistas de pousos nem na movimentação dessas pequenas aeronaves, não só em relação ao tráfico de drogas como também no apoio fundamental à garimpagem ilegal em terras indígenas. E isso porque o Governo Federal dispõe do milionário Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam).

Agricultores de Caracaraí, por exemplo, sempre relatam que pequenos aviões pousam em vicinais, como nas de Petrolina, para pegar gente para trabalhar no garimpo, que é um trabalho análogo a escravo em que o trabalhador fica devendo o transporte, a comida e a bebida, enquanto o ouro vai para o bolso dos donos do esquema.

Em 2003, um avião com US$ 570 mil e 364 mil libras esterlinas, num total de cerca de R$ 3,5 milhões, fez um pouso forçado numa pista da fazenda Bamerindus, na zona rural de Boa Vista, no trecho norte da BR-174. O dinheiro estava em uma mala com etiqueta da Cidade do México, que foi encontrada pela Polícia Militar.

Como se sabe, o bimotor com certeza estava sendo usado para transportar drogas e o dinheiro pode ter origem no tráfico, uma vez que a Força Tática da Polícia Militar levou um cão farejador, apontando indícios de cocaína no avião.

Onze anos depois, ninguém sabe a quem pertencia o avião, a droga e o dinheiro. E tudo terminou no esquecimento até que outra aeronave caiu no sul do Estado, desta vez com o corpo do piloto dentro e mais 100 Kg de cocaína. E especula-se que alguém fugiu levando 350 Kg de droga.

Como das outras vezes, o tempo vai passar, a opinião pública irá esquecer e tudo continuará na mesma, com o crime organizado agindo por aqui, a polícia correndo atrás dos pequenos traficantes, enquanto os verdadeiros barões do tráfico seguirão com suas aeronaves cruzando os céus de Roraima.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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