Por Jessé Souza
Em 09/07/2018

Boa Vista e o seu maior desafio

No estacionamento do Complexo Ayrton Senna, no Centro, que foi transformado em extensão de Praça de Alimentação, na Avenida Capitão Ene Garcez, em um das barracas que vende crepe e churros, um venezuelano é quem atendia os clientes. Pela sua fala, percebe-se que ele é um recém-chegado ao Brasil, pois ainda tenta se familiarizar com o português.

O dono do negócio é um guianense que chegou ao local de moto, momentos depois. Logo após dar algumas ordens ao seu funcionário venezuelano para terminar de arrumar as coisas, ainda com aspecto de quem procura se ambientar, o guianense atende ao telefone falando na sua língua nativa, o inglês, repassando o número de telefone ao seu interlocutor.

Essa foi uma cena real presenciada na tarde de sábado, em Boa Vista, que hoje comemora 128 anos de criação. Infelizmente, a realidade de um guianense e um venezuelano ganhando a vida por meio do emprego informal, no estacionamento do Portal do Milênio, não é regra. Mas trata-se de algo que poderá se tornar comum no futuro, natural de um Estado em uma tríplice fronteira, se não houver ações governamentais conjuntas para superar o que estamos vivendo agora.

Neste momento, Boa Vista passa por um grande desafio, talvez o maior de todos: a imigração desordenada principalmente de venezuelanos, devido à crise do país de Nicolás Maduro, que fez a população boa-vistense inchar sem que a cidade estivesse preparada para receber novas demandas nos serviços essenciais do setor público.

Não foi apenas o êxodo dos venezuelanos, mas de haitianos e cubanos também, porém em menor quantidade. Os guianenses já faziam esse êxodo há tempos, numa ida e vinda pela fronteira historicamente. Os venezuelanos não; eles não eram habituados a saírem de seu país, principalmente porque o governo bolivariano usa suas reservas petrolíferas para ações paternalistas que fez acomodar grande parte daquela população, que hoje se vê desesperada, no Brasil, tentando recomeçar suas vidas do nada, em abrigos ou morando na rua.

O futuro não só de Boa Vista, mas do Estado de Roraima, depende de ações políticas que tornem uma realidade o que hoje é uma exceção naquele estacionamento do Ayrton Senna: estrangeiros empreendendo junto com os boa-vistenses, gerando emprego e renda, em igualdade de condições.

Não iremos construir um futuro digno para todos, os que aqui estão e os que ainda virão para ficar, se a política se amesquinhar, mantendo suas históricas brigas de grupo, e se a população não entender que a integração é irreversível, assim como ocorreu com os nordestinos, no passado. Esse é o nosso desafio daqui para frente. Não há como fugir dele.

*Colaborador
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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