Por Jessé Souza
Em 17/05/2017

Do campo à desaceleração

Terminei a corrida na areia da Praça Ayrton Senna, na noite de segunda-feira, e estava apenas caminhando para desacelerar o corpo antes de ir embora quando apareceu um antigo conhecido de futebol da década de 1980, quando éramos jovens e flutuávamos no gramado do velho Canarinho, rebatizado com o nome do amigo radialista Flamarion Vasconcelos - que Deus o tenha!

O colega dos tempos de campo de futebol me reconheceu e abriu um sorriso no cumprimento. Perguntei se ele iria jogar bola com a moçada que já estava chegando para a partida de segunda-feira, no campo de areia em frente ao Ginásio Totozão (largado pelo poder público há anos, hoje nas mãos de um governo relapso, e alvo de vandalismo).

Ele disse que sim, que iria ficar para bater uma “pelada” e relembrar os bons tempos. Decidi ficar também e comentei que, na idade em que estamos a cabeça ainda pensa, mas as pernas não respondem mais. Então, o amigo me falou algo muito interessante que me pôs imediatamente a refletir: “Já estou com 49 anos e, nessa idade, não dá mais para jogar pensando em competir. Temos apenas que brincar”.
Verdade. Já peguei contusões sérias por achar que ainda tenho aqueles vinte e poucos anos da juventude, com explosão, força e habilidade. Quando passamos dos 40, não dá mais para ficar acelerado. É preciso saber os limites do corpo e praticar esporte não mais por competição, mas por lazer e simplesmente por prazer.

É realmente uma pena o ser humano envelhecer, como diria Rubem Alves, mestre que repudiava a expressão “melhor idade” para quem já está na reta final da vida. Como é inevitável o peso da idade, a única saída é começar a desacelerar e a ver as coisas de forma diferente. No futebol, competir não é mais recomendado, ainda que seja uma partida oficial de qualquer campeonato.

Mas eu diria muito mais. O ser humano de uma forma geral precisa aprender a desacelerar. O mundo chegou a um limite em que tudo precisa ser na velocidade de um átimo. A internet discada, por exemplo, nem parece mais que foi um dia desses, pois a vida exige uma resposta a um clique, quase na velocidade do pensamento.

Acho que o remédio para muitas angústias da alma e da mente é desacelerar, uma vez que essa parafernália do mundo moderno nos coloca reféns da velocidade, como se agora fosse proibido ter seu tempo certo. Até nos frutos estão dando um jeito de fazer amadurecer mais cedo. E assim estamos adoecendo cada vez mais. Essa foi a lição do dia que aprendi de um antigo conhecido na beira do campo de futebol... 

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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