Por Jessé Souza
Em 10/11/2017

Efeito William Waack

Não foi de estranhar o episódio envolvendo o jornalista William Waack, da TV Globo, o apresentador festejado pelo pessoal da extrema direita que ajudou no impeachment sem crime, que terminou por colocar no poder este grupo que está promovendo o maior ataque às conquistas dos trabalhadores brasileiros assalariados. Afastado por racismo, o apresentador acabou por servir para reacender o debate nesse momento de conservadorismo e pós-modernismo. 

“Coisa de preto”, ironizou o jornalista para resmungar contra uma buzina ao fundo do estúdio durante a cobertura nas eleições nos Estados Unidos, no ano passado. O fato que ficou bem claro, mais uma vez, é que o racismo existe e parte de quem deveria dar exemplo. Significa também que a tal democracia racial festejada por quem quer negar esta realidade é apenas uma fachada. 

Não dá para entender o motivo pelo qual muitos não querem admitir a existência do racismo, do preconceito e da discriminação, comportamento este externado por outro jornalista âncora de TV, Boris Casoy (aquele do bordão “Isto é uma vergonha”), que tripudiou dois garis em situação semelhante à de Waack, em 2009, quanto estava na Band. "Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho", ironizou Casoy. 

Esse é o Brasil da vergonha, do falso moralismo, da falsa democracia racial, da falsa tolerância aos pobres, aos diferentes e às demais minorias. Aqui, em Roraima, os indígenas sofreram os piores ataques racistas quando eles lutavam pela demarcação de suas terras, incentivados por uma campanha ostensiva feita por políticos e reproduzida pela mídia.

O que William Waack e Boris Casoy fizeram foi apenas explicitar o que restou dos tempos dos coronéis do engenho e da Casa Grande, quando os pobres de todas as cores eram pisoteados e os negros mantidos como escravos. Embora os negros tenham carregado esse país no lombo, com suor e lágrima, eles costumam a aparecer na História apenas como colaboradores secundários no folclore, na música e na dança.

Nas redes sociais, os apoiadores da desconstrução agem rápido para tentar anular o debate, alegando logo que as pessoas estão com “mimimi”, termo usado para desmerecer e tripudiar com quem não se entrega à hipocrisia, à transformação da realidade em “memes” e o totalitarismo crescente disfarçado do moral e bons costumes. O “efeito William Waack” está aí para reacender o debate. É preciso estar em constante vigília para que os calhordas não vençam.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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