Por Jessé Souza
Em 07/10/2017

Legislativo não é púlpito

A aprovação de uma “nota de repúdio”, pela Câmara Municipal de Boa Vista, contra uma performance em um museu de São Paulo, é mais um exemplo de que o contribuinte está pagando para que os vereadores fiquem agindo somente em benefício próprio e de suas igrejas. Não é esse o papel que o cidadão espera de nossos fiscais e legisladores.

Enquanto a maioria dos vereadores está preocupada com a fé que eles professam, com a moral e os bons costumes que eles defendem, nossa cidade enfrenta vários problemas que precisam da intervenção urgente por parte daqueles que são pagos para trabalhar em favor da coletividade.

Como não há resquício de oposição naquela Casa legislativa, o Executivo municipal passeia como quer, enquanto os vereadores dizem “amém” e se esforçam para se colocarem como agentes religiosos, desvirtuando o papel de legislador que a população almeja e cargo para o qual eles são muito bem pagos.

Que fique bem claro que as pessoas cristãs não querem que nossos parlamentares neguem Deus ou deixem de professar sua religião. De forma alguma. Em um país que passa por um momento complicado, o que as pessoas esperam é que os políticos cumpram com seus papéis em favor de todos, fiscalizando, atuando em projetos que beneficiem a população e que estejam atentos aos problemas que surgem e se antecipando a eles.

Precisamos deixar a religião para as igrejas, e não transformar os legislativos em extensão do púlpito, atuando em favor de todos, independente de religião. O Município enfrenta um de seus piores momentos, com a imigração desafiando as autoridades, o trânsito necessitando de estudos sérios e a educação necessitando de investimento pesado para a infância.

Porém, não se vê a maioria de nossos parlamentares se empenhando nisso, passando ao largo das decisões importantes, inclusive do papel fiscalizador. Sem oposição, a Prefeitura de Boa Vista tem agido de acordo com seus propósitos, deixando o papel de contestador e de fiscal aos cidadãos nas redes sociais, enquanto a maioria dos legisladores fica preocupada com a fé, a moral e os bons costumes.

Queremos proteger nossas famílias, professar nossa fé e fortalecer nossas igrejas. Mas queremos um Legislativo que cumpra com o seu papel, pois a ele compete cuidar do bem-estar de todos, independente de religião ou de fé. O momento exige empenho para que Boa Vista consiga superar esses graves problemas, pois, senão, iremos pagar um preço muito caro em um futuro bem próximo.

*Jornalista
jesse@folhabv.com.br
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Jessé Souza
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