Por Jessé Souza
Em 16/05/2018

Maracanãs representam um símbolo

Quem mora ao longo do finado igarapé Mirandinha, em locais onde ainda resta um pouco de mata ciliar ou nas redondezas onde existem árvores de grande porte, tem percebido a presença de pássaros chamados de maracanãs, os quais são menores que o papagaio e maiores que os periquitos. Quem não é familiarizado com a identificação de aves costuma chamar todo pássaro da mesma família menor que os papagaios de maritaca ou maitaca.

Abro um parêntese: refiro-me a finado Mirandinha porque esse manancial foi sepultado pela Prefeitura de Boa Vista em caixões de concretos, sepultamento este chamado tecnicamente de canalização. Essa é a forma rápida, preguiçosa, criminosa e mais barata de sanear igarapés feridos de morte pela poluição urbana.

Enquanto nos países mais desenvolvidos os mananciais são recuperados em nome do meio ambiente e do bem-estar coletivo, por aqui, na Amazônia, eles são sepultados em nome do saneamento. E outro igarapé urbano está prestes a ser sepultado também, o Caxangá, depois de anos agredido pela ação humana e pelo despejo de esgoto pela própria Companhia de Água e Esgotos de Roraima (Caerr), assim como ocorreu com o Mirandinha.

Antes de serem mortos, esses dois igarapés que cortam áreas centrais de Boa Vista e que deságuam no Rio Branco eram o habitat natural de maracanãs, papagaios, periquitos e uma infinidade de outros pássaros. Hoje eles retornam para os locais onde um dia já foi sua moradia. E a presença dos maracanãs deve servir não apenas como aves a serem admiradas, mas um alerta sobre a necessidade de se preservar o que ainda temos, no que pese o avanço da cidade.

Podemos ter, sim, uma cidade bem planejada e desenvolvida, mas também bem arborizada, com o que restou de lagos e igarapés preservados, além de mantido aquilo que restou de mata ciliar dos mananciais que foram canalizados. Os maracanãs são esse símbolo de resistência ao que já foi devorado pelo "desenvolvimento" e eles devem servir para chamar a nossa atenção.

Outro igarapé que agoniza, sob a omissão do poder público, é o Caranã, habitat de várias espécies que resistem ao avanço da cidade. Quem sabe os órgãos ambientais ainda pudessem ajudar a salvá-lo como símbolo de nossa boa vontade de não querer mais sepultar mananciais e de respeito ao meio ambiente. Outros igarapés urbanos também estão em processo de morte, como o Grande, o Ai Grande, o Paca e outros. Basta que haja vontade e coragem por parte de nossas autoridades para agir.

* Colaborador
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Jessé Souza
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