Por Jessé Souza
Em 11/09/2017

Negar, eis a força

Uma das grandes forças da internet, com o alcance que as redes sociais conquistaram na sociedade, não é necessariamente a possibilidade de se poder publicar tudo, sem censura, ou a liberdade de qualquer pessoa poder opinar sem estar submetida a filtros. Facetear e negar a realidade é um dos grandes novos poderes em curso, fazendo com que as pessoas passem a acreditar em fatos irreais ou mesmo se posicionarem contra seus próprios direitos ou interesses, ou mesmo contra os mais injustiçados.

Não se trata da chamada “Fake News”, usada nas últimas eleições no Brasil e definitivamente consagrada nos Estados Unidos na eleição de Donald Trump.

A negação da verdade é muito mais ampla e feroz, pois não se resume a inventar uma mentira para enganar as pessoas, mas fazê-las negarem sua própria realidade e não enxergarem o que pode parecer óbvio diante dos fatos.

Exemplo disso vem ocorrendo diante das reformas que atingem em cheio os trabalhadores assalariados, mas o discurso pregado nas redes sociais é de que se trata de algo a favor do Brasil, a ponto de o cidadão acreditar que esse é um "sacrifício" que ele tem de fazer para o seu próprio bem e para o futuro do país. É quase como um sofrer cristão para conquistar o paraíso.  

Enquanto as reformas previdenciária e trabalhista estão em curso, retirando direitos de assalariados, as grandes riquezas ficam intactas, com os ricos não dando sua parcela de "sofrimento". E muitos ficam submetidos à negação da realidade, impedindo que eles enxerguem as reformas como mais um golpe contra os pobres, enquanto os ricos (incluindo aí os políticos) não são atingidos por qualquer reforma nem as grandes fortunas são taxadas.

Para confundir, há um movimento forte que tenta fazer da realidade uma ficção, da verdade uma mentira, do fato um boato. E o argumento para sustentar essa “pós-verdade” é que tudo é relativo, que depende do ponto de vista, que é preciso respeitar o posicionamento dos outros, como se não fosse mais permitido contestar, contra-argumentar ou confrontar.

Para confundir ainda mais a realidade, essa corrente da negação confunde debate com xingamento, contraponto com ataques, opinião com ofensas. Não há mais debate: ou a pessoa acredita ou não acredita, escolhendo um lado como se fosse uma trincheira. Sendo assim, ficou mais fácil e cômodo acreditar naquilo que é senso comum, que não precisa refletir ou ter visão crítica. É a negação de tudo aquilo que construímos, inclusive o caráter, porque mentir se tornou apenas mais uma forma de encarar essa guerrilha que enfrentamos na internet, como algo inevitável.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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