Por Jessé Souza
Em 15/05/2018

O que precisamos aprender

No mês passado, estive em um órgão público aonde venezuelanos também vão em busca de documentos, e percebi o tratamento que eles recebiam. Um brasileiro entrou na sala resmungando: “Vou dizer que sou venezuelano para ser atendido logo”. Isso em tom de ironia em um ambiente em que os estrangeiros eram maioria na fila de espera.

No local, uma servidora na bancada sequer deu-se ao trabalho de levantar a cabeça para dar uma informação a uma venezuelana que chegou desorientada. Embora esse tipo de comportamento em órgãos públicos tenha se tornado comum até para brasileiros, o aumento do fluxo de estrangeiros só fez complicar o tratamento prestado no atendimento ao público.

Os brasileiros, como cidadãos conscientes, precisam a aprender a assimilar essa nova realidade para que ela não se torne mais traumática diante dos problemas sociais que surgiram com o êxodo em massa dos venezuelanos. Ninguém vai conseguir mudar esse quadro se as pessoas agirem como se o outro, o estranho, o estrangeiro, fosse um inimigo em potencial.

Muitos têm criticado o governo brasileiro por investir nos abrigos com fornecimento de comida sob responsabilidade do Exército. Mas retirar os estrangeiros das ruas e praças é importante para que os problemas sociais não se ampliem, pois venezuelanos ao relento representam um problema muito maior do que muitos possam pensar.

A primeira questão é dar o mínimo de dignidade a quem perdeu tudo em seu país. Depois, proporcionar um abrigo com alimentação e assistência de saúde significa prevenir que estrangeiros no desespero da fome possam ser cooptados para o tráfico de drogas, por exemplo, ou mesmo partam para o furto a fim de conseguir comida.

Outra situação é que ter um abrigo organizado se torna uma garantia de que esses imigrantes não adoeçam e evitem aumentar a demanda de atendimento nos postos de saúde e hospitais. E também se torna uma maneira de as autoridades de saúde terem um controle sobre a proliferação de doenças, a exemplo do sarampo, que estava erradicado no país e voltou a ameaçar a população.

Além de tudo isso, o respeito pelo ser humano precisa ser uma busca constante de uma sociedade formada por várias culturas. Moramos numa área de tríplice fronteira, o que significa que deveríamos ser um povo no mínimo tolerante com as diferenças. Não vamos construir um Estado melhor achando que os venezuelanos são nossos inimigos.

O Estado brasileiro está garantindo o mínimo para os estrangeiros: abrigo, saúde e alimentação. E nós, como povo formado por migrantes de várias culturas, precisamos aprender a assimilar os imigrantes, que a agora fazem parte de nossa nova realidade, quer queiramos ou não.

* Colaborador
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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