Por Opinião
Em 08/08/2017

Meninos para viver - Walber Aguiar*

E há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos...
Renato Russo

Era inverno. Tempo de reflexão e muita água acumulada acima de nossas cabeças. Também era o momento de correr na chuva, de observar o voo camicase dos insetos na direção da vida e da morte. Meninos e meninas se lambuzavam na rua encharcada, na tentativa de extrair qualquer coisa nova dos dias apressados.

Ironicamente, naqueles dias rolavam comentários acerca do céu e da terra, da liberdade e da prisão, do pântano e das flores no lavrado. Falava-se muito de uma tal de redução da maioridade penal. Seria isso uma forma de absolver os homens e condenar os meninos? Ou uma espécie de inveja dos mais jovens?

Ora, onde está a educação de meninos e meninas? Falo de uma educação de qualidade, não de escolas com professores mal remunerados, desanimados e sem a estrutura mínima para desemprenhar suas funções. Falo de exemplos a serem dados, conduta ilibada, profundidade ética de homens públicos que querem devorar sem dar preparo, que querem vigiar sem amar, que querem punir sem usar a consciência e julgamento próprios.

Assim, a grade maioria dos jovens de dezesseis a dezoito anos, sem falar nos mais novos, carrega sobre si mesmos o devido castigo. A dor de pais desestruturados, a pobreza hereditária, o esfacelamento da conjugalidade, a falta de geração de emprego e renda. Ainda pesa sobre eles o fato de ter nascido num país que foi colonizado pela exploração, pelo saque, pelas propinas, por um jogo político sujo e venal, que, no entender de Rui Barbosa, faria com que o homem sentisse vergonha de ser honesto.

Ora, esse é uma dos argumentos contrários à redução da maioridade penal. Muitos outros ainda serão desfraldados nos textos que se seguirem a este.

Os “homens” públicos que defendem a redução da maioridade penal pensariam diferente, se seus filhos e netos fossem os punidos, os infratores, os dejetos que a sociedade empurra para debaixo do  tapete.

Numa sociedade composta por uma elite burra e vazia, os frutos ruins precisam ser curados. É muito fácil espremer e transformar em suco o subproduto de um pomar cheio de fungos morais e bactérias aéticas.

Era inverno. Meninos e meninas queriam apenas florescer e dar bons frutos...

*Advogado, poeta, professor de filosofia, historiador e membro da Academia Roraimense de Letras
 wd.aguiar@gmail.com


Corrupção não pode virar palavra de ordem - Marlene de Andrade*

Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina:

Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal... (Provérbios 6:16-18).

Sei que a miséria do Brasil tem levado muita gente ao desespero, mas fingir que está tomando conta de carro sem sequer saber quem é o dono do veículo é demasiadamente insolente. É como se as pessoas dissessem: “Eu mereço ser feliz e pronto”. Sendo assim, elas se baseiam apenas nas suas emoções e o resto que se dane. Chega de corrupção neste nosso país. Que isso é um monte de gente usurpando, sem nenhum escrúpulo?!

Sábado passado, estacionei meu carro na Sebastião Diniz e fui fazer compras. Assim que saí do carro, um rapaz me perguntou se eu queria que ele tomasse conta do meu veículo, aí eu disse sim, mas tive uma ideia quando estava indo embora para casa: combinei com um funcionário que trabalha numa daquelas lojas dessa rua se ele podia fazer de contas que era o dono do meu carro e fingisse que estava manobrando para sair. Ele aceitou o desafio. Aí eu me escondi dentro da loja e fiquei de longe olhando o que iria acontecer. Não deu outra, tão logo o rapaz abriu meu carro e sentou no banco para começar a retirá-lo do lugar, o tal “guardador de carros” veio mais que depressa para receber “seu dinheiro”. Que imoralidade!

Aproximei-me do carro e falei com educação umas verdades para aquele rapaz que fica fingindo que está tomando conta de carro, mas que não está nem aí para quem quer que seja. Ficou claro que ele nem sabe quem são os donos dos veículos que por ali estacionam. E se o rapaz que foi até o meu carro para fingir que iria retirá-lo daquele local não fosse uma pessoa de minha confiança e tivesse achado a chave do meu veículo e sumisse com ele? Claro que eu iria ficar desesperada.

Evidentemente, que existem pessoas que tomam conta de carro de forma honesta. No Rio de Janeiro, onde nasci e fui criada, vi muitas pessoas trabalhando honestamente nesse ramo a ponto do proprietário do carro deixar até a chave do veículo com o guardador de carro para ele lavar, ou só limpá-lo, conforme o combinado.

Sei que aqui em Roraima também existem pessoas de bem trabalhando nesse ramo corretamente, mas, infelizmente, existem os malandros em todas as áreas mundo afora. Esse problema vem de casa, pois com toda certeza, essas pessoas não receberam educação dos pais de forma correta e desde pequenos aprenderam a mentir e furtar os outros como se isso fosse o normal. Que calamidade estamos vivendo, haja vista a compra de votos que rolou dentro do Parlamento Federal, uma verdadeira imoralidade.

*Médica Especialista em Medicina do Trabalho/ANAMT


Nem é céu nem é azul - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Nossos conhecimentos aumentam sempre, através dos nossos atos, em qualquer hora e lugar em que nos manifestamos.” (Waldo Vieira)

Se você estiver realmente compenetrado nas mudanças na vida, deve estar se lembrando de momentos simples do passado. As coisas boas que aprendemos no dia a dia, na infância, por exemplo. Coisas que nem mesmos sabíamos que nos ensinavam. Numa conversa simples com minha neta de dez anos de idade, tentei alertá-la, sem dirigi-la, para as coisas simples que ocorrem na vida dela, e ela nem lhes dá atenção. Mas é preciso que tenhamos cuidados nesses momentos para não tentar dirigir.

Foi assistindo a um programa televisivo, ontem, que me lembrei de tudo isso. A preocupação que tenho, quando vejo a atenção que o público dá aos papéis desempenhados nas novelas. As pessoas se sentem como se estivessem assistindo a uma cena verídica. É incrível. Aí me lembrei das coisas que aprendi na minha infância e que me fazem muito bem atualmente. E foram coisas simples em momentos simples.

Eu já era pai, quando assistia a um seriado na tevê, nos anos sessentas, cujo título era: “O tenente”. O seriado era sobre a II Guerra Mundial. O general andava pelo mundo em inspeção. Ele era assistido por um tenente. Certo dia ele chamou o tenente e lhe falou:

- Tenente... Vamos descer na cidade tal...

O tenente respondeu:

- Sim, senhor. Vou falar com piloto para...

Mas o general interrompeu:

- Não me interessa o que o senhor vai fazer, tenente! Só quero descer na cidade tal...

Desde aquele dia fiquei atento para o erro de questionar, justificar ou explicar sem necessidade. Mas o mais importante no seriado, foi no dia em que o General aterrissou numa cidade norte-americana e foi até ao banheiro. O tenente o acompanhou até a porta do banheiro. Antes de entrar no banheiro, o general parou e falou pro tenente:

- Tenente... Esse é o único lugar onde os políticos sabem realmente o que estão fazendo.

Mas voltemos às lições que aprendi na infância: a nunca jogar nada no chão, pelas ruas. Aprendi isso com o exemplo daquela mulher norte-americana. Lembro-se sempre do comportamento dos policiais da MP norte-americana, quando eles me “prenderam” três vezes, na Base Aérea. Foi divertido pra dedéu. (MP era a polícia militar norte-americana). Acho que já falei pra você de como era interessante as “prisões.” A travessura que eu, ainda garoto, fazia para atravessar a pista de pouso dos aviões de guerra.

Você, garotão, não se deixe levar pela ilusão do modernismo. As coisas simples estão aí. Dê-lhes mais atenção; elas lhe trarão boas lembranças no futuro. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

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