Por Opinião
Em 13/11/2017

Do veneno ao remédio - Francisco Habermann*

Conheci aquele jovem quando estudava em Ribeirão Preto-SP, em 1960. Depois, já como professor, ele ficou famoso pelos estudos que fazia com veneno da temida Bothrops jararaca. Só mais tarde fiquei sabendo de suas descobertas com aquelas amostras de veneno colhidas das serpentes que só são encontradas aqui na América do Sul e eram transportadas no fusquinha do professor. A história é interessante.

O laborioso professor de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP, Dr. Sérgio Henrique Ferreira (Franca-SP, 1934 – 2016, Rib.Preto-SP), estava interessado nos efeitos daquele veneno no corpo humano.

Levou amostras do material biológico para a Inglaterra onde faria estágio em laboratórios de pesquisa e, lá, conseguiu proceder à separação das frações proteicas daquele veneno. Uma das frações separadas mostrou-se efetiva na redução da pressão arterial de mamíferos, testada em camundongos e cobaias. Estava descoberto o princípio biológico (o inibidor do enzima conversor da angiotensina II) que facilitaria o desenvolvimento posterior do medicamento que iria revolucionar o tratamento da hipertensão arterial (captopril e outros vinte derivados).

Conto essa história justamente para enaltecer a persistência e capacidade de superação de cientistas que trabalham a vida inteira na busca incessante de contribuições científicas que ficam marcadas na história das ciências. O caso daquele professor foi um deles.

O Prof. Ferreira estudava uma serpente que só é encontrada aqui na América, descreveu toda a biologia e ação das frações proteicas descobertas a partir do seu veneno levado aos laboratórios estrangeiros; partilhou seu conhecimento com outros pesquisadores; publicou seus dados observados em revistas científicas prestigiadas e... verificou posteriormente que outros laboratórios de pesquisa produziram a molécula sintética que possibilitou transformar sua pesquisa básica em um medicamento de uso mundial. Conta-se que ele ficou feliz... e continuou trabalhando.

O desenvolvimento da nova droga constituiu um marco no tratamento moderno da síndrome hipertensivo e também na insuficiência cardíaca, felizmente, mas o nome do Prof. Ferreira só foi reconhecido décadas depois pelas sociedades científicas internacionais como o pioneiro descobridor do novo princípio biológico que possibilitou a revolucionária descoberta terapêutica moderna anti-hipertensiva.

Nunca recebeu ele compensação monetária nenhuma pelas descobertas científicas que resultaram em bilionárias vantagens comerciais com os produtos medicamentosos decorrentes.
Até recentemente o professor era visto com o mesmo fusquinha... E feliz!

*Professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu: Contato: fhaber@uol.com.br 


BR-174: há mais de 40 anos unindo o Brasil de norte a sul - Brasilmar do Nascimento Araújo*

Brasil, década de 60. Por meio do Dec. 64.111, de fevereiro de 1969, é transferido de Manaus (AM), para Boa Vista (RR), o 6º Batalhão de Engenharia e Construção. Tinha por objetivo implantar rodovias em Roraima. E entre a principal delas era o Exército Brasileiro construir a BR-174, em plena selva da Amazônia brasileira ligando os estados do Amazonas a Roraima até a fronteira com a Venezuela. Naquele período a ligação entre esses estados só era possível via aérea ou fluvial quando os níveis dos rios permitiam a navegação na época das cheias. E com a Venezuela não existia ligação na fronteira com Roraima, até 1973, quando terminou esse isolamento com a chegada das máquinas no alto dessa faixa de terra montanhosa entre o Brasil e aquele país. Foi um momento épico. Impossível definir aquela alegria. Os tratores estacionados no topo daquela montanha, mas continuavam funcionando de luzes acesas. Era a conquista. Era o Brasil!

O início das obras da BR-174 foi em 1969. E a inauguração oficial dessa rodovia totalmente pavimentada se deu em 1998. Compreendendo: de Manaus, para Boa Vista e até a fronteira com a Venezuela totalizando quase 1000 km de extensão. Essa importante rodovia teve três frentes de trabalhos: uma seguia de Manaus (AM) para Boa Vista (RR). A outra de Boa Vista (RR) sentido Manaus (AM). E a terceira rumo à fronteira da Venezuela.

A construção da BR-174 a cargo do 6° Batalhão de Engenharia e Construção foi, sem dúvidas, uma conquista histórica para o Brasil. No referido Batalhão faziam parte significativa o quadro de civis, em distintas funções. E entre os militares e civis eram formadas as equipes de habilidosos profissionais: na topografia, no desmatamento, os operadores de máquinas pesadas, os motoristas e na manutenção das máquinas pesadas. E na logística o corpo administrativo e a equipe da alimentação. E os militares das mais distintas patentes contribuíram decisivamente pela realização de cada etapa das obras.

A construção de uma rodovia, em esfera global, é uma obra de engenharia avançada e fascinante. Pelo conjunto da obra em si e pelos inúmeros níveis de desafios que as caracterizam, seja o fator do clima que influencia diretamente no cronograma dos trabalhos, seja pelo relevo da superfície de cada região que se determina as dificuldades para serem superadas. Ou seja, muito planejamento e trabalho!

E com a BR-174 não foi diferente. Além das chuvas torrenciais que fazem parte daquela região Amazônica teve dois obstáculos bastante significativos: um foi no trecho no sentido de Boa Vista (RR) para Manaus (AM), onde, em plena selva tem uma grande área de vegetação com árvores de pequeno porte e de terreno extremamente arenoso. Resultado: não era possível alcançar uma compactação desejável do solo e nem o nível adequado da rodovia. Foi tão complicado esse trecho que foi abandonado e se traçou nova diretriz pela BR-210 (Perimetral Norte), que ligaria o Estado do Amapá até a fronteira colombiana com o Amazonas. A outra parte bastante complicada foi no sentido de Boa Vista (RR) para a Venezuela, os últimos 70 km até a fronteira. Uma área rochosa de difícil acesso só ultrapassada pelas explosões de potentes dinamites. E mais à frente a parte montanhosa próximo da divisa venezuelana. Um trecho de extrema dificuldade em razão da geografia dessa região: fosse para realizar o valioso trabalho da topografia que sinalizava rumos e determinava o nível da pista. Ou os pesados tratores, sempre com os motores trabalhando em alto giro faziam o desmatamento, sobre os despenhadeiros preparando o terreno, onde a terraplenagem deixaria a pista com o nível ideal. As operações foram complexas em inúmeros trechos da BR-174, mas a nossa determinação de ultrapassar todos os obstáculos era imensurável!

Na construção da BR-174 existiu algo muito importante: uma aura de patriotismo contagiava os militares e civis. Tínhamos uma força extraordinária que impulsionava as lâminas das máquinas, que levava o material, que ergueria cada centímetro do nível da rodovia. Os caminhões entre idas e vindas em ritmo frenético conduziam o cascalho que finalizava o acabamento de cada trecho. Rompemos a imensidão verde, intacta e densa da Floresta Amazônica e encontramos muitas espécies de animais e vegetais que compõem a fauna e a flora daquela exuberante região. E atravessamos rios que pareciam intransponíveis. Trabalhávamos pelo Brasil!

A BR-174 construída pelo Exército Brasileiro, além de um grande feito de engenharia unindo Roraima ao restante do território brasileiro, proporciona a liberdade de novos horizontes. A partir da fronteira venezuelana/roraimense é possível percorrer a rodovia Pan-Americana e seus incríveis 25.000mil Km de extensão, que se estendem do Alasca até o Sul do continente sul-americano. Um leque de cenários arrebatadores!

* Articulista e Poeta
brasilmar.serradadalua@gmail.com


Na trilha da vida - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Essa que passa por aí, senhores,
De olhos castanhos e fidalgo porte,
É a princesa ideal dos meus amores.
É mais franzina pérola do norte.” (Hermeto Lima)

Foi assim que a vi, quando a vi naquela festa junina, em Natal, no Rio Grande do Norte. Era uma garotinha, deusa na beleza, na postura, no encanto. Conhecemo-nos e nunca mais nos separamos. Ela ainda era uma pré-adolescente. Eu um pouco mais. Mas não nos impressionamos com isso e iniciamos, sem nem mesmo percebermos, uma convivência longa, amorosa, respeitosa, e formadora de uma família que nos honra e orgulha. Não foi fácil iniciarmos uma caminhada longa, e que nem mesmo imaginávamos o quanto seria tão longa quanto agradável e saudável.

Ainda sem uma decisão do que faríamos no futuro, começamos a caminhar por vias aparentemente ínvias. Sem separação, afastamo-nos, abrindo um leque que mesmo aberto não nos separou. Voamos em direções adversas: eu para São Miguel Paulista, em São Paulo; ela para Copacabana, no Rio de Janeiro. E foi aí que se iniciou a construção. Encontros quinzenais, com passeios pela praia de Copacabana, cinemas e conversas. Tudo, além disso, foi gradativamente solidificando uma vivência que se tornaria um universo de felicidade.

Casamo-nos em São Paulo. Mas, ainda garota, ela não resistia à saudade da família. Foi aí que começamos o mais agradável na família que se formou com dois paulistanos, três cariocas e um boa-vistense. O que me enche de orgulho, tanto nas nacionalidades quanto na maneira como ela, a Mãe de todos eles, os criou, educou e os tornou cidadãos e cidadã de respeito e muita personalidade.

A Dona Salete está aniversariando hoje. E toda a família está se babando de felicidade. Uns riem, outros até choram pela distância em que se encontram. Mas todos felizes porque a adoram, com o carinho e o amor que ela realmente merece. Todos nós sabemos das dificuldades que ela enfrentou na criação e formação dessa família, cujo amor se espraia na felicidade de um lar que sempre me honrou me fez e faz muito feliz.

Meus parabéns, querida. Parabéns de toda a família que é tão grande quanto querida. Que a vida continue sendo nosso maior prazer. Que cada momento, no futuro seja tão agradável, e construtivo, quanto os do passado.

Porque na nossa felicidade não há passado, mas presente nas lembranças que nos trazem felicidade. Todos nós sabemos e usufruímos o saber que “saudade é um sentimento que quando não cabe no coração escorrega pelos olhos”. Que é o que acontece comigo quando viajo pelos momentos que vivemos nesses longos anos de vivência em que nos amamos. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

Opinião
jesse@folhabv.com.br
Não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!
Últimas de
Opiniao
+ Ler mais artigos de Opiniao