Por Opinião
Em 16/05/2017

 

O bom ladrão - Walber Aguiar*

Fazia frio quando ele acordou de madrugada. Angustiado pelos pesadelos que tivera, resolveu entregar a moto furtada. Não mais podia conviver com aquela situação de agonia e desespero. Melhor era ter a consciência tranquila e dormir em paz que viver sobressaltado.

Num de seus pesadelos ele era perseguido por um bando de ratos. Eram tipos dos mais variados. Grandes e pequenos, de gravata e colarinho branco, ratos do TRE, da Assembleia Legislativa, do Congresso Nacional, do judiciário, do executivo, da favela, e até por ratos de escritórios de advocacia e da construção civil.

Suando frio, o bom ladrão foi alcançado. Os ratos conseguiram aumentar seus próprios salários. Agora consumiriam não apenas queijo, mas caviar e moet chandon; usariam canetas Mont Blanc e viveriam à sombra dos palácios de Brasília, comendo as gordas migalhas que caíam da mesa farta do orçamento.

O ladrão sonhou que vendia seu voto e nunca recebia o dinheiro nem a promessa feita. Os ladrões do erário público, liderados pelos “Ali Babás” da corrupção eram muito piores que ele. Com a consciência devidamente cauterizada, jamais devolveriam o dinheiro que desviaram do erário público, mesmo que a cadeia e o desprezo público fizessem parte de sua cínica trajetória.

De repente, o ladrão pensou em Deus. Evocou a divindade como último recurso. Viu Jesus na cruz e dois homens, um do lado direito e outro à esquerda. Um apelava para o perdão, outro para a arrogância. A partir daí assumiu o papel daquele que reflete sobre o mal e se arrepende. Diferente daqueles que vivem de nariz empinado, ostentando dinheiro e poder que não são seus.

Também pensou na igreja, no ouro do Vaticano e na esperteza vulpina de pastores que apascentam a si mesmos, vestindo pele de cordeiro e agindo como lobos roubadores. Gente que faz da igreja um trampolim político e financeiro, que exorta o povo a viver de forma correta e se cobre com os velhos panos da hipocrisia. São os megalomaníacos da fé, com seus projetos nababescos e faraônicos, em busca de se locupletar com a ingenuidade e a ignorância do povo.

Lembrou-se de Durkheim e das regras do método sociológico. Percebeu que a sociedade comandada pelo “Leviatã”, de Hobbes, se tornara um monstro de mil cabeças, e que o capitalismo entrara num processo autofágico, em que devoraria a si mesmo.

Depois de tantos sonhos, pesadelos e reflexões, o ladrão entregou a moto. Ainda deu conselhos à dona do veículo. Já os ladrões do erário...

*Poeta, professor de filosofia, historiador e membro da Academia Roraimense de Letras. wd.aguiar@gmail.com


Será que o fim está próximo? - Marlene de Andrade*

“Ajuntai para vós tesouros no céu.” (Mateus 6:19).

O professor do curso de História da Universidade Federal Fluminense, Daniel Aarão Reis, foi presidente do PT do Rio de Janeiro nos anos 90, porém se desfilou antes que ocorresse o escândalo do mensalão, pois ele discordava dos rumos que esse partido estava tomando. Esse professor deu uma entrevista no www.bbc.com em 2016 afirmando que as denúncias de corrupção começaram aparecer nos anos 90, principalmente em prefeituras que o PT conquistou no interior de São Paulo, abafada pela corrente majoritária do partido, liderada por Lula.

E o mais preocupante é ele ter declarado que o PT e Lula são atores de primeira grandeza no jogo político nacional, pois segundo esse historiador há um conjunto de interesses que se estruturou em torno desse partido sem indicações, de que, esses referidos interesses estejam migrando para alternativas políticas. Quero crer, no entanto, que estando os brasileiros mais amadurecidos e politizados ocorra uma mudança radical no Brasil e os colarinhos brancos e seus asseclas venham ser desmoralizados no cenário nacional e o nosso país se torne uma referência internacional dentro dos campos das políticas públicas.

Há uma passagem em Romanos que tem muito a ver com essa situação que o Brasil atravessa e que afirma que a ira (juízo) de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça... De forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus não lhe renderam graças e que seus pensamentos se tornaram fúteis e que os seus corações insensatos se obscureceram, pois mesmo afirmando serem sábios, tornaram-se loucos.

Essa passagem ainda afirma que essas pessoas tornaram-se cheias de toda sorte de injustiça, maldade, ganância, depravação e que estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano, malícia e que são caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes, presunçosos e inventam maneiras de praticar o mal.

Outra passagem em 2 Timóteo 3 declara que nos últimos dias haverão tempos difíceis. As pessoas serão egoístas, avarentas, orgulhosas, arrogantes e que não terão amor pelos outros, domínio próprio e que serão cruéis, inimigas do bem e traidoras.

Que declarações assustadoras! Será que já estamos à beira do abismo, ou ainda falta mais algumas situações calamitosas para ocorrerem neste planeta? Será também que essas pessoas não sentem remorso pelo mal que praticam contra o próximo e não temem colher frutos amargos pelas suas maldades?

*Especialista em Medicina do Trabalho/ANAMT
(95) 36243445


A 12 de maio lá na França - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Quem cai na luta com glória, tomba nos braços da história” (Castro Alves)

Você se lembra de Augusto Severo? O Brasil já o esqueceu. No final da década de quarenta, a Base Aérea de Natal festejava-o. Comemorava, com os estudantes da escola de base, em Natal, uma homenagem ao Augusto Severo. O desfile era sempre no dia 12 de maio. Que foi o dia em que Augusto Severo faleceu na França, quando sobrevoava Paris, a bordo do dirigível PAZ. Naquelas comemorações era distribuído um panfleto com os dizeres: “O Brasil saúda a França a bordo do dirigível PAZ”. Que foi o panfleto que o Augusto Severo lançou, do seu dirigível, sobre a cidade de Paris.

Mas não estamos aqui para fazer a biografia do Augusto Severo. Lembrei-me dele porque me lembrei de acontecimentos e pessoas que deveriam ser lembrados na mesma data que ele, e que já caíram dos braços da história. Estamos mais ligados à euforia. Sabemos, por exemplo, que o Mário Quintana faleceu em data bem próxima à da morte do Airton Senna. Mas ninguém falou do Mário Quintana. E estou apostando que a maioria dos jovens estudantes não tem a menor ideia de quem foi Mário Quintana.

É bem verdade que não devemos ficar presos ao passado, mas não devemos tirar da memória os do passado que construíram nosso presente. Porque, queiramos ou não, nosso futuro vai depender do que aprendemos com o passado deles. As comemorações comerciais estão encortinando as lembranças do nosso passado histórico. E estamos correndo um risco muito grande, de nos esquecermos do que realmente somos como brasileiros. Estou preocupado. Vamos conhecer mais a nossa história, sem a dramaticidade que nos apresentam através da fantasia televisiva. Nossa história não deve ser banida da nossa cultura.

Augusto Severo nasceu na cidade de Macaíba (uma cidade que sempre adorei) no Rio Grande do Norte em 11/01/1864 e faleceu na França em 12/05/1902; na explosão do seu dirigível PAZ, do qual ele lançou o panfleto, sobre a cidade de Paris. Não vamos esquecer isso. Assim como não devemos esquecer grandes acontecimentos e grandes vultos da nossa historia, que semearam o nosso futuro que não estamos sabendo colher. Façamos das nossas vidas um palco, mas saibamos desempenhar nosso papel com sabedoria e respeito.

Estou certo de que estamos acordando para o mundo em que viverão nossos descendentes. Mas é preciso que façamos mais e melhor, para que eles não venham a viver no mundo da euforia vazia em que estamos vivendo. Vamos cuidar da nossa Educação para cuidarmos da nossa política para que ela, a política, cuide mais e melhor, de nós. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460       

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