Por Opinião
Em 18/04/2017

Pedagogia do Tombo - Ronaldo Mota*

Alguns ambientes educacionais pretendem se assemelhar às estradas bem pavimentadas, onde nelas professores e alunos dirigem com total visibilidade e com relativa certeza de onde querem chegar. Como já abordado antes, trata-se de ledo engano. A vida real é, naturalmente, cheia de buracos, às vezes sem acostamentos, e periodicamente carregada de densa neblina.

Ou seja, a maioria das metodologias educacionais, envolvendo os respectivos procedimentos e abordagens, tem tradicionalmente adotado como objetivo central evitar os tropeços dos alunos. Fundamentalmente, o ensino tradicional, ao informar, o faz para que o educando acerte e evite, a qualquer custo, os erros. De forma resumida, ter sucesso, normalmente, quer dizer não levar tombos, sabendo responder as questões corretamente e completando positivamente e no menor tempo possível os desafios apresentados.

O modelo padrão e suas práticas usuais de ensino têm sobrevivido porque níveis razoáveis de sucesso puderam ser observados no passado, gerando a expectativa de que, provendo informações com competência e evitando os tropeços, teríamos solução educacional também para o presente e, eventualmente, até mesmo para o futuro. Nada mais ingênuo. Os velhos tempos, onde razoáveis eficiências e eficácias educacionais foram observadas, se caracterizam, principalmente, pela previsibilidade do mundo do trabalho, por demandas profissionais bem estabelecidas e futuros próximos razoavelmente conhecidos.

Entre as rápidas mudanças em curso está aquela que torna progressivamente a informação o produto mais disponível e o mais barato da atualidade. O surgimento de uma sociedade em que a informação está totalmente acessível, instantaneamente disponibilizada e gratuitamente adquirível traz consequências educacionais ainda não assimiladas e, por vezes, sequer percebidas. As ênfases e os focos demandam imediatas mudanças, em especial deslocando o centro do processo de aprendizagem baseada no simples saber, enquanto ser informado, em direção ao complexo saber resolver, baseado na informação assumida como completamente disponível instantânea e gratuita.

Assim, os novos tempos impõem uma realidade em que é mais importante focar no processo de aprendizagem e nos procedimentos de superação, após o erro, do que a obsessão simples por, a partir das informações adquiridas, tentarem nunca tropeçar. Mas há fortes indicadores de que aqueles que aprenderam a aprender terão todas as condições de enfrentar os tombos. Muito mais importante que evitar tropeços, portanto, é aprender a levantar.

*Reitor da Universidade Estácio de Sá


De Drumond e João Coxó - Walber Aguiar*

“E dizem que a solidão até que me cai bem”
                                             Renato Russo

Eram dias de março. Eram dias secos e profundamente herméticos. Tempo de formar nuvens no céu e desanuviar mentes, de buscar qualquer gota d’água nessa geografia da secura, nesse espaço da escassez. Um pingo de companhia era o desejo daqueles que vagavam insones pela casa, daqueles que a vida esqueceu num canto.

Junto com o tempo seco, as mentes pareciam ausentes, distantes, perdidas num ponto fixo. O calor inclemente parecia não acabar nunca, junto com a situação que nos empurrava para o isolamento e a síndrome de Drummond.

O velho poeta mineiro de Itabira de Mato Dentro era de temperamento melancólico. Calado, ele se enfurnava no velho apartamento da Magalhães Barata e curtia longos momentos de solidão. Avesso aos chatos, Drummond detestava reuniões, convenções, congressos. Isso porque amava sua privacidade e solidão, e, não via nenhum motivo para estar em reuniões que nada reuniam, congressos que a ninguém congregava e convenções que não conseguiam convencer a quem quer que fosse.

Ora, aqueles dias de março eram de enorme expectativa. As águas não vinham, não vinham os amigos de outrora, pois o isolamento tomara conta da alma enauseada e os fantasmas da solidão ameaçavam tragar a todos que cultuavam a deusa dos raios azulados.

O nível das águas do rio identificava-se com a vontade de sair e procurar gente naqueles dias de intenso calor e solidão. A aridez de alma nunca fora tão intensa quanto naquele contexto do terceiro mês, tomado pelo banzo de qualquer coisa assim inusitada, de algo que se espremera entre a euforia do carnaval e o desejo de que abril trouxesse chuvas, flores, amigos e esperança. De que essa novidade vindoura também curasse e renovasse o grande amigo João Batista, o famoso João Coxó, o cara de cabelos curtos e sorriso largo, uma espécie de professor de vida pra cada um de nós.

Eram dias e março.  Dias de solidão e expectativa, de sequidão e fecundidade, de náusea e prazer, de coisas velhas, que em si mesmas trariam um inverno existencial, com aquela chuva renitente, que canta em nosso telhado, abre a flor e nos faz ninar...

*Poeta, professor de filosofia, historiador e membro da Academia Roraimense de Letras
wd.aguiar@gmail.com


Igreja não é caderneta de Poupança - Marlene de Andrade*

Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo... (Levítico 19:11)

Um dia desses fiquei tomando conta do meu netinho com menos de um mês de idade, enquanto assistia o Jornal Nacional, e que, logo em seguida resolvi assistir um culto televisivo dirigido por um pastor muito conhecido no Brasil.

Achei incrível como a igreja estava lotada para ouvir tanta baboseira. Esse pastor, o tempo todo, pregava textos fora de contexto para mostrar que Jesus veio ao mundo para nos trazer prosperidade e muita paz, o que se caracteriza numa tremenda mentira e insensatez, pois Jesus deixou muito claro que no mundo passaríamos por aflições.

Quando as câmeras focalizavam os rostos dos fiéis ficava claro que os mesmos estavam ali atrás de bênçãos e não do Deus abençoador. Quanto mais o pastor prometia bênçãos de Deus, ou seja, prosperidade, mais aquelas pessoas abriam largos sorrisos.

Em certo momento o pastor começou a pedir dinheiro. Não que isso seja errado, mas o estranho é o jeito como ele pedia. Os seus auxiliares já estavam com os envelopes preparados para distribuí-los e de repente surge uma a máquina de passar cartão e até promissórias que estipulavam o valor das mesmas. Abismada e revoltada de assistir a tanta afronta ao nosso Deus Santo e Perfeito, acabei desligando a televisão.

É verdade que por trás da opressão existem demônios, mas esses pastores precisam também denunciar que o povo sofre devido às injustiças sociais, corrupção, ganância, desonestidade dos poderes terrenos que arrombam os cofres públicos deixando de investir na saúde, educação e entre outros, no bem-estar da população. E o interessante é que eles não denunciam a farra com o dinheiro público e põe o tempo toda a culpa somente no diabo.

Não sei como as autoridades competentes não prendem um cafajeste desses em flagrante. Será que é, porque ninguém liga para a polícia no exato momento em que esse tipo de pastor está ali ludibriando as pessoas afirmando por outras palavras, que Deus não passa de um barganhador e oportunista que só envia bênçãos àqueles que por elas pagam?

Deus não tem obrigação de nos favorecer em nada e só Ele sabe o que é melhor para nós. Claro que Deus tem prazer em abençoar a todas as pessoas da Terra, mas é errado não explicar que qualquer bênção vinda de Deus é Graça que significa presente não merecido e não um direito adquirido por nós pecadores.

*Médica Especialista em Medicina do Trabalho/ANAMT


Brasil - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Brasil esse colosso imenso, gigante de coração de ouro e músculos de aço, que apoia os pés nas regiões Antárticas, e que aquece a cabeleira flamejante na fogueira dos Trópicos. Colosso, que se estendesse um pouco mais os braços iria buscar a neve dos Andes para com ela brincar nas praias do Atlântico”.

Temos um País que tem tudo para ser a maior potência do continente. Ele tem tudo que seus vizinhos não têm. Só na política ele tem tudo que os vizinhos têm. Mas somos brasileiros. E temos tudo para sermos felizes. Então vamos ser. E a felicidade está onde a pomos. E só a pomos quando a temos. Se você é dos que encontram dificuldade em ser feliz, mude de atitude e seja você mesmo. Por que ser igual a ele se ele não é igual a você? Sabia que você está dando uma de João-das-couves?

Recentemente lhe falei da frase do Rui Barbosa. Li-a pela primeira vez numa aula de português, quando eu ainda era garoto: “Há os que plantam a alface para o prato de hoje e os que plantam o carvalho para a sombra de amanhã”. E plantar carvalho é a coisa mais simples da paróquia. Basta você sair por aí, pelas ruas de Boa Vista, observando os trancos e barrancos que fazem parte do cotidiano. Você vai se divertir pra dedéu.

Mas pra ser feliz encarando os trancos, é necessário que tenha a consciência de que você tem a felicidade dentro de você. E quando fazemos isso, nada nos faz infeliz. Eu tenho um zilhão de coisas engraçadas, interessantes e exóticas, que observo pelas ruas todos os dias. E elas me fazem muito bem. Até mesmo os carros parados e bloqueando as calçadas que deviam ser dos pedestres. E melhor ainda quando é numa manhã, depois de uma noite chuvosa. Aí você tem que sair da calçada e pisar na poça d’água. E se você se aborrecer com isso não vai ser capaz de chamar a atenção do poder público responsável pela calçada e pelos carros estacionados sobre ela.

Semana passada eu ia pela calçada e tive que descer porque ela estava tomada pelos carros estacionados. Aí me lembrei que sou um cara feliz, porque não dependo de cadeira-de-rodas. Mas não pude deixar de rir, lembrando-me que a cadeira evitaria que eu molhasse meus tênis na poça d’água. Molhei os tênis e saí rindo da incompetência dos responsáveis irresponsáveis pelo trânsito e pelas caladas. Não é legal ser feliz? Então por que ser infeliz? “Ninguém, além de você mesmo, tem o poder de fazer você se sentir feliz ou infeliz, se você não estiver a fim”. Aproveite esse momento e plante seu carvalho. Plante-o no jardim do seu coração. Porque é aí que ele vai lhe garantir a sombra para sua felicidade amanhã. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

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