Por Jessé Souza
Em 04/01/2017

Perguntas

A situação de penúria em que se encontram várias prefeituras do interior, as quais foram assumidas por novos prefeitos no dia 1º, não significa somente incompetência administrativa e falta de recursos diante da crise política e financeira que se abateu sobre o Brasil. Ela é endêmica e se arrasta de longos anos provocada principalmente pela corrupção nas cidades loteadas pelos coronéis da política.

Há dois exemplos que podem ser lembrados simbolicamente: o Município do Cantá, que passou por uma operação da Polícia Federal no fim do ano passado, e o Município de Iracema, assumido por um prefeito delegado da Polícia Civil, que encontrou a prefeitura jogada às traças e os bens saqueados sabe-se lá por quem.

Desde quando surgiram, os municípios vêm sendo saqueados de todas as formas, seja de maneira direta, por prefeitos espertalhões, vereadores irresponsáveis e servidores idem; e também por parlamentares que constroem seus redutos eleitorais nessas regiões longe do centro do poder, Boa Vista.

A destinação de emendas parlamentares para as cidades do interior sempre foi uma das formas de se praticar corrupção pelos caciques políticos, que direcionam recursos por meio de suas emendas, mas já com recursos “carimbados”, com os autores pegando sua porcentagem e ainda indicando quais empresas iriam realizar as obras sabidamente por valores superfaturados ou que nunca serão concluídas.

Os ataques aos cofres públicos dos municípios pobres ocorrem por todos os lados. Basta chegar um recurso qualquer, de convênios a transferências federais, para que prefeitos mal intencionados e seus comparsas tirem seus nacos. Que ninguém pense que seja uma realidade local. A corrupção nas cidades pobres é sistemática.

Os números parciais da Controladoria-Geral da União (CGU) apontam que, no passado, foram roubados R$941 milhões das administrações municipais. E isso apenas de casos investigados oficialmente. E os setores mais rapinados são o da saúde e o da educação. De 2003 a 2016, as operações realizadas nos municípios apontam que foram desviados R$4,2 bilhões.

É muita grana que vai parar no bolso dos corruptos, a exemplo do que vem ocorrendo no Cantá, onde a Polícia Federal investiga o desvio de mais de R$20 milhões pela então prefeita que foi afastada do cargo por decisão judicial, no mês passado.

Contabiliza-se também, nesse bolo, a incompetência administrativa e a falta de zelo com o bem público, fazendo engrossar os rombos financeiros que são empurrados para debaixo do tapete, sem que ninguém seja investigado e punido. E o que se espera é que os novos prefeitos façam auditorias e responsabilizem os corruptos. Mas, quem disse? Haverá interesse dos novos em passar isso a limpo? Ou a corrupção endêmica continuará seu ciclo?

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
jesse@folhabv.com.br
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