Por Jessé Souza
Em 12/05/2018

Por que só agora?

É no mínimo estranha a posição de algumas lideranças indígenas da Terra Indígena São Marcos, no Município de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, que anunciaram a defesa do Governo de Roraima no recurso judicial para fechar a fronteira a fim de impedir a entrada de mais venezuelanos para Roraima. Embora o pleito seja legítimo, isso é muito estranho.

Em primeiro plano, os povos indígenas daquelas comunidades fronteiriças têm não só parentes, mas familiares com dupla nacionalidade", ou seja, atravessam a fronteira quando bem entendem, sem ter documentos legais. E isso, desde muito tempo, facilita o movimento incessante dos dois lados da fronteira, principalmente quando o câmbio favorecia o dinheiro brasileiro.

Além disso, o descaminho de combustíveis sempre foi uma "moeda corrente" naquela região, com algumas comunidades indígenas ao longo da BR-174 dando cobertura a essa atividade ilegal. Essa atividade não só gerou renda aos indígenas como levou crimes, doenças e outros problemas. Mas por que só agora reclamam da fronteira aberta?

Foram essas mesmas entidades indígenas, que apoiam o pleito do governo de fechar a fronteira, que também apoiavam os arrozeiros liderados pelo então vice-governador Paulo César Quartiero. E qual foi a primeira e única decisão de Quartiero quando ele assumiu o Governo de Roraima? Isso: ele demitiu o secretário do Índio, mostrando que odeia os indígenas.

Mais uma vez, essas mesmas lideranças evocam o poder em nome de todos os seus parentes por uma causa do governo, desvirtuando as reais aspirações dos povos indígenas e se rendendo aos pleitos partidários. Isso ficou muito claro, pois as comunidades indígenas daquela região sempre foram usadas para dar eco aos anseios do governo de plantão desde a disputa pela Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

É fato que o êxodo dos venezuelanos levou mais problemas para essas comunidades ao longo da rodovia federal ao Norte de Roraima. Mas não é um problema maior do que já rolava por lá, a exemplo do descaminho do combustível e de todo o tipo de tráfico que ocorre em uma área de fronteira.

Afinal, da mesma forma que antes transitavam pessoas de bem e turista naquela região, atualmente as mesmas pessoas de bem continuam transitando, só que desta vez existem famílias venezuelanas passando por lá, fugindo da fome e pedindo socorro. Antes, os criminosos de qualquer nacionalidade já estavam agindo, inclusive com apoio de indígenas. O crime e as doenças nunca deixaram de rondar por lá. E só agora, quando o dinheiro ilegal em fartura parou de circular, querem fechar a fronteira?

* Colaborador
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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