Por Jessé Souza
Em 05/01/2017

Produto do crime

A cada massacre em penitenciárias brasileiras, os mesmos discursos se repetem por parte de autoridades judiciárias, governantes e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB): que o sistema está falido, que os bandidos estão mandando nas prisões, que o crime organizado tomou conta do país, que não se investiu no setor...

Embora tudo isso seja verdade, o que não se diz claramente é que essa falência e o fortalecimento do crime organizado não surgiram do nada e são resultados de décadas de desleixo por parte de todos os governos e produto da corrupção que tomou conta do país.

Na mesma medida em que as facções políticas e partidárias montaram seu poder absoluto, até tomarem o Brasil por meio do golpe do impeachment, os criminosos sem terno e gravata também vinham se organizando e montando seus escritórios do crime nos presídios brasileiros.

Em Roraima, a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc), onde recentemente ocorreu um massacre e aonde vem ocorrendo constantes fugas, foi construído na década de 70. Desde lá, nenhum investimento foi feito, a não ser remendos que possibilitaram que surgisse uma favela dentro do presídio para abrigar presos.

Os políticos, mais preocupados em fazer corrupção, nunca deram a atenção devida ao sistema prisional brasileiro e aos setores básicos em favor do cidadão para diminuir as desigualdades sociais. Agora estamos sentindo de forma mais dura o reflexo dessa bandalheira oficial.

No Amazonas, de onde os governantes locais “importam” soluções, a exemplo do falido “Ronda no Bairro” da Polícia Militar, o sistema foi privatizado com a promessa de revolução nos presídios. Porém, o massacre com 60 mortos comprovou que por lá o sistema também está sob o comando de facções criminosas. E a empresa que administra o sistema fez doação de campanha eleitoral do governador.

O fato é que mais uma vez o povo é obrigado a pagar a conta do que foi destruído pela corrupção, pois a violência é produto também da falta de investimento na base, no povo. E não há esperança de que isso possa ser revertido, pois todo investimento foi congelado por 20 anos na saúde, educação e segurança.

As autoridades outra vez vão em busca de remendos. E não se vê ninguém preocupado com a desigualdade social, a pobreza avançando e a falta de investimento em políticas sociais. Além do mais, se a corrupção lá em cima não for vencida, o crime organizado aqui embaixo continuará mandando. As facções criminosas são produto do crime organizado na política.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
Acesse: www.roraimadefato.com

Jessé Souza
jesse@folhabv.com.br
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