Por Jessé Souza
Em 29/11/2017

Racismo, mimimi, meme e trollagem

“Ficam elogiando essa macaca, menina do cabelo horrível, de pico de palha, nariz de preto”. Foi assim que uma brasileira radicada no Canadá, que se autointitula socialite, com 700 mil seguidores na internet, se referiu a uma criança negra de 4 anos, filha adotiva de um casal de artistas no Brasil. E isso a menos de uma semana depois de o país celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra.

É mais um absurdo a comprovar a falsa democracia racial que muitos pregam, reforçando a onda de desconstrução dos direitos da minoria e uma forte campanha na internet para que a sociedade brasileira não admita a existência do racismo, como se os casos não passassem de “mimimi”, que é a “mimização” dos sofrimentos alheios, e com tudo sendo transformado em “memes”, que é a “memezação” da realidade.

Embora o racismo abertamente declarado tenha provocado uma avalanche de protesto, na outra ponta sugiram admiradores que passaram a criar fã-clubes para enaltecer a postura da socialite. Significa que o racismo encontra eco necessário para dar voz a quem ataca as pessoas pelo simples fato de elas serem negras, indígenas, pobres ou diferentes do que a sociedade julga como “aceitável”.

Foi este o único motivo do ataque racista, pois a socialite afirmou, em vídeos que circula no Youtube, que a menina recebe atenção “apenas por ter sido adotada por famosos” e chegou ao absurdo de afirmar que “uma criança negra não poderia ser filha de brancos”. A criança em questão veio do Malawi, do sul da África e foi adotada em 2016 pelo casal de atores Giovanna Ewbank e Gagliasso.

Infelizmente, o país passa por um processo perigoso de um ultraconservadorismo que tenta descontextualizar os fatos e incutir na cabeça das pessoas uma igualdade que nunca existiu desde a colonização do Brasil, como se buscar direitos dos negros, por exemplo, seria oprimir os “brancos”. Ou que lutar por direitos das minorias seria retirar direitos da maioria.

É preciso que a sociedade esteja sempre vigilante para não permitir que as pessoas passem a acreditar que a luta por direitos e igualdades seja considerada apenas um “mimimi” e a interpretar a realidade como se todas as questões fossem um “meme” pronto para ser ironizado, relativizado e motivo de sátira.

É por isso que um certo político de ultra direita tem conquistado mentes e corações, porque ele é considerado um “meme”, ou seja, um indivíduo cultuado por “trollar” (gíria da internet que significa zoar, chatear, tirar o sarro) os outros. É nisso que querem transformar o país, em uma imensa trollagem.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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