Por Jessé Souza
Em 10/01/2017

Sem bola de cristal

Se a realidade brasileira tem servido para estrangeiro ironizar, então em Roraima estabeleceu-se o provérbio inglês no sistema prisional: “Não há nada tão ruim que não possa piorar” (Nothing só bad but it might be worse). Ninguém precisa de bola de cristal ou de babalorixá para prever que as prisões roraimenses são bombas prontas para explodir a qualquer momento.

Todos alertaram para as tragédias há muito tempo - agentes carcerários, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), imprensa, políticos, leitores, internautas, pais de santos e cartomantes -, porém, não se viu mobilização das autoridades constituídas para atacar o problema de frente e de forma conjunta. Afinal, penitenciária é lugar apenas para bandidos de chinelos e os que não usam terno e gravata.

A desmobilização pode ser vista a partir dos discursos que vêm de Brasília: quem vem mostrando poder nos seguidos governos sempre se esquivou de usar suas influências para solucionar a crise do sistema prisional roraimense; além disso, durante as barbáreis em nível nacional, se esconde como se o problema não lhe dissesse respeito também.

Aliás, os grandes problemas de Roraima nunca foram solucionados porque não há interesse político para isso, uma vez que os personagens antigos que comandam a política querem um Estado atrasado e dependente de suas práticas velhacas. Além do mais, ações emergenciais a cada tragédia ou catástrofe significam recursos rápidos e fáceis para caírem no ralo da corrupção.

Para complicar ainda mais, há fortes indícios de que, por divergência política e partidária, o Governo de Roraima não foi ouvido em seu pedido de ajuda, feito ao Governo Federal, para que se evitasse a última tragédia ocorrida no sistema prisional. E o que já era ruim acabou fincando pior.

Hoje, restam cenas de barbáries para serem lembradas e trabalho para médicos legistas montarem corpos dilacerados na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc). E, novamente, medidas paliativas (leia-se: remendos) serão tomadas emergencialmente, como das demais vezes, principalmente nesse momento em que os governos local e federal alegam crise.

O fato é que o momento exige o fim das repetições dos mesmos discursos e das seguidas enganações. Mas, para que isso ocorra, a única saída é o fim desse comportamento odioso que sempre foi colocado em prática, em Roraima, o  de grupos rivais praticando a política do “quanto pior, melhor”, fato que permitiu com que o Estado nunca saísse do buraco.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
Acesse: www.roraimadefato.com

Jessé Souza
jesse@folhabv.com.br
Comentários
Não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!