Por Jessé Souza
Em 14/03/2017

Diógenes e o FGTS inativo

Quando criança, eu gostava de colecionar coisas. Qualquer tipo de coisa, de pedras com formas diferentes a “santinhos” de candidatos em campanha eleitoral. Eu fazia meu pai me levar na garupa da bicicleta nos diversos comícios só para eu juntar panfletos. Já adolescente, recortava anúncios de revistas para colecionar os vários modelos de letras usadas nas publicidades impressas.

Até hoje colho alguma pedra diferente por aí. Mas não sou mais aquela criança que juntava tudo. Só pego agora se achar realmente interessante e que possa servir não apenas como lembrança, mas também como uma “obra de arte” na minha estante.

Parei de colecionar quando li um texto sobre Diógenes de Sinope, chamado de o Cínico, um filósofo da Grécia Antiga. Em Atenas, ele se tornou um mendigo que vivia em um grande barril (acho que o personagem mexicano Chaves foi inspirado nele). Pela pobreza em que vivia, o nome de Diógenes passou a denominar um distúrbio comportamental no qual a pessoa acometida não liga mais para higiene corporal nem do lugar onde se vive, acumulando objetos velhos achando que um dia eles servirão para algo. Desde lá achei que eu poderia, na velhice, desenvolver esse distúrbio.

No entanto, ainda carrego um pouco dessa mania de colecionar. Guardo documentos velhos, livros caindo aos pedaços e objetos que fizeram parte do meu passado já distante. E por incrível que pareça, foi essa minha mania que fez com que eu recebesse o FGTS inativo, no sábado passado, na Caixa Econômica Federal do Centro.

Fui atendido por uma bancária que parecia não estar satisfeita por trabalhar no sábado (e quem fica, né?). Ela tentava friamente me dizer que não existia nada para eu receber, que meus papéis surrados não valeriam mais nada, pois, em algum tempo no passado, eu já teria sacado esse dinheiro.

Porém, se não fossem aqueles velhos papéis amarelados pelo tempo, os quais me acompanham desde a década de 1980, o que me davam certeza do que eu estava falando, eu teria me levantado daquela cadeira e ido embora. Afinal, eu não teria argumento diante de uma mulher que dizia que o sistema da Caixa era “infalível” – como se ele não fosse feito por seres humanos, que podem errar inclusive na hora da consulta.

É por isso que saí de lá, da Caixa, lembrando de Diógenes. E preocupado também por muitos outros cidadãos que, não tendo acumulado documentos velhos, não teriam argumento para enfrentar uma atendente com cara de poucos amigos. Meus velhos papéis a fizeram pedir ajuda de outro servidor, que finalmente encontrou o que ela dizia não existir no sistema: o sagrado dinheiro do meu suor que ficou guardado por décadas... Diógenes, meu salvador!

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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