CRIME ORGANIZADO
Atuação de facções cresce e promotor critica atuação do Ministério da Justiça
Conforme promotor, foram seis meses de interceptações telefônicas que apontavam ordens de criminosos de outros estados para Roraima
Por Luan Guilherme Correia
Em 11/01/2017 às 01:14
Promotor Marco Antônio Azeredo: “Se o Ministério da Justiça quisesse ajudar, teria evitado que PCC tivesse contato com Roraima” (Foto: Arquivo/Folha)

A atuação do crime organizado em Roraima vem sendo investigada desde 2013, quando o Ministério Público do Estado de Roraima (MPRR) apontou a existência de 96 integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC), que comandou o massacre de 33 presos na Penitenciária Agrícola do Monte Cristo (Pamc) na semana passada, atuando dentro e fora do sistema prisional.

De lá para cá, o número de membros dessa e de outras organizações criminosas que dominam os presídios do Estado, como o Comando Vermelho (CV) e a Família do Norte (FDN), cresceu assustadores 1.400% e atingiu 90% dos presos, segundo o relatório do MP. Para o promotor do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Marco Antônio Azeredo, o desenvolvimento das facções refletem a omissão do Estado. “A facção só consegue se desenvolver por meio da omissão e da falha do Estado. Se cumprisse a sua função, jamais essas facções se desenvolveriam”, disse.

Em novembro do ano passado, após a morte de 11 integrantes do Comando Vermelho (CV) na mesma unidade prisional, o Ministério Público apontava o crescimento das facções no Estado. “A investigação vinha de 2013, quando protocolamos denúncia com o intuito de frear o ímpeto de novos filiados, mas isso acabou não ocorrendo porque a existência dessas facções era negada”, lembrou.

Conforme o MP, dos 1,7 mil detentos do sistema prisional de Roraima, ao menos 1,4 mil tem ligações com facções criminosas, sendo 1.000 do PCC e 400 do CV. Superlotada, com 700 vagas e mais de 1.400 presos, a Penitenciária Agrícola registrou 45 mortes em menos de dois meses. 

“Isso é um problema nacional. Me chamou a atenção o Ministério da Justiça dizer que vem a Roraima colaborar, sendo que a obrigação primeira é deles. Se quisesse ajudar, teria evitado que a cúpula do PCC tivesse contato com os presos de Roraima. As ordens [para as mortes] foram dadas de Campo Grande, no presídio federal de Mato Grosso”, criticou o promotor.

Azeredo classificou como “vergonhosa” a atitude do Ministério da Justiça em relação aos problemas no sistema prisional do Estado. “O crime organizado é nacional, não estadual. Foram seis meses de interceptações telefônicas e todos os dias havia ordem de fora do Estado para cá”, afirmou.

Para o promotor, a medida de transferir presos considerados líderes de facções criminosas é paliativa. “Se transferir um líder, no outro dia elegem um novo. Você isola e não permite que mantenham contato, mas a legislação é perniciosa, se têm contato com mulheres, advogados. A ideia das remoções é tentar enfraquecer e desmobilizar, mas não estamos conseguindo ter sucesso”, lamentou.

O promotor também lamenta a decisão de soltar 161 presos do regime semiaberto e informou que o MP deve recorrer. “Botaram a sociedade a mercê desse tipo de gente. Todos eles são de periculosidade razoável. Se ao menos se tivesse tido pudor de colocar tornozeleira, mas só abriu a porta e soltou todo mundo. A ideia é recorrer, não imediatamente porque a decisão estipula um prazo. Vamos aguardar até sexta-feira para ver o que será feito e se o juiz insistir em prorrogar vamos recorrer”, frisou. (L.G.C)

Foto: Rodrigo Sales
Massacre de 33 presos ocorreu no dia 06 na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo
PENSADOR disse: Em 11/01/2017 às 14:29:03

"o problema é muito grande. de fato um poder paralelo. só sei que muito se discute e pouco se faz. ás vezes faz sentido a expressão tolerância zero empregada em outros países "

Paulinho disse: Em 11/01/2017 às 10:43:46

"O apenado que desce para a PA fica naquela situação da cruz e a espada, ou adere a fação ou perde a cabeça literalmente, me admiro de ainda ser apenas 90% dos presos ligados ao PCC. E quando esse novo filiado vai para o semi aberto é obrigado a voltar a noite com drogas, celulares e armas. É um ciclo."