DESNUTRIÇÃO INFANTIL
Crianças venezuelanas desnutridas vivem na Praça Simón Bolívar
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A partir de um levantamento realizado pela Pastoral da Migração, quatro crianças foram identificadas em estado de desnutrição
Por Ana Gabriela Gomes
Em 14/03/2018 às 00:25
Das 70 crianças registradas no censo, quatro foram identificadas em estado de desnutrição (Foto: Diane Sampaio)

Há mais de dois meses, centenas de imigrantes venezuelanos estão vivendo na Praça Simón Bolívar, situada na divisa dos bairros Pricumã, Treze de Setembro e São Vicente. Entre homens, mulheres e crianças, o número de pessoas que dormem no local já ultrapassa 1.000. Para entidades da capital, além das dificuldades para se proteger durante o período chuvoso, a principal preocupação tem sido a alimentação das crianças.

Por meio de um levantamento realizado na semana passada, a coordenadora da Pastoral dos Migrantes, Irmã Valdiza Carvalho, apurou que aproximadamente 1.140 venezuelanos estão dormindo na praça. Do total, cerca de 150 necessitam de uma atenção especial, entre idosos, grávidas, Pessoas com Necessidades Especiais (PNE) e crianças. Das 70 crianças registradas no censo, quatro foram identificadas em estado de desnutrição.

Foi a partir da constatação que a Pastoral, em parceria com a Paróquia Nossa Senhora da Consolata e o Instituto de Migração e Direitos Humanos (IMDH), começou a planejar ações de prevenção à desnutrição infantil. Na última sexta-feira, 9, uma equipe se deslocou à praça para distribuir kits contendo leite Ninho, mucilon, fralda e produtos de higiene. No entanto, ao chegar no local, o número de crianças já era superior ao apontado pelo levantamento.

Para melhor atender a demanda, as entidades vão iniciar na próxima segunda-feira, 19, um projeto voltado ao atendimento de mulheres e crianças venezuelanas. Entre outros pontos, o objetivo principal é garantir que o público infantil passe a ter um acompanhamento regular em relação à alimentação. Segundo a coordenadora, a maioria das crianças tem dificuldade em se alimentar em razão da disputa na hora da entrega das marmitas.

O projeto prevê ainda o cadastramento de todas as mulheres e crianças, a fim de agilizar a emissão dos documentos de identificação e o Cartão do Sistema Único de Saúde (SUS), além de uma entrevista social. O intuito é que a campanha seja permanente. “É uma demanda que a gente percebeu que é necessária. Vimos uma criança de seis meses pesando 3,900 quilos na praça. Agora ela está tranquila, mas é uma situação delicada”, frisou.

As ações serão desenvolvidas no terreno da Paróquia Consolata, onde será inaugurada a filial do IMDH. Atualmente, cerca de 500 refeições já são distribuídas quase que diariamente no local. Também estão sendo construídos oito banheiros, sendo quatro masculinos e quatro femininos, para que os imigrantes tenham um local apropriado para se higienizar. Além disso, está prevista a construção de uma área de lavagem de roupa. “Não é um local para morar, mas eles podem vir, ser atendidos, tomar banho, lavar as roupas e depois ir”, pontuou a Irmã. (A.G.G)

Parcerias são necessárias para a permanência das ações

A coordenadora da Pastoral dos Migrantes, Irmã Valdiza Carvalho, esclareceu que o projeto a ser desenvolvido com mulheres venezuelanas requer parcerias em diversas áreas, mas principalmente no âmbito da saúde, tendo em vista o acompanhamento da alimentação das crianças.

Conforme Valdiza, já houve casos em que mães não levaram os filhos ao Hospital da Criança Santo Antônio (HCSA) porque não sabiam que não era necessária a apresentação do Cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). A equipe também vai procurar parcerias para atuar junto às mulheres.

A Pastoral, a exemplo, vai oferecer aulas de Língua Portuguesa. Além disso, também está prevista a criação de grupos para a cozinha, a fim de que mais refeições sejam preparadas diariamente. Os interessados podem se dirigir à Paróquia Consolata, localizada na avenida Ville Roy, bairro São Vicente, zona sul do Estado. (A.G.G)

Crianças venezuelanas devem ser incluídas em programa de Puericultura

A Puericultura é a área da saúde que se dedica ao estudo dos cuidados com o ser humano em desenvolvimento e, mais especificamente, com o acompanhamento do desenvolvimento infantil. Diante dos casos de desnutrição em crianças venezuelanas registrados, a ideia da Prefeitura de Boa Vista é inserir o público infantil, que está vivendo na Praça Simón Bolívar, na zona oeste, nas ações de estratégias dos bairros próximos.

Atualmente, a administração municipal atende 14 crianças no acompanhamento semi-interno no Centro de Recuperação Nutricional Infantil (Cernutri). Dessas, seis são venezuelanas. Todas recebem acompanhamento para desnutrição, que segue até que o peso ideal seja recuperado. Em relação ao atendimento ambulatorial, nos últimos dois meses, o Cernutri recebeu seis crianças para consulta médica, que foram examinadas e tratadas, sem necessidade de acompanhamento semi-interno.

A médica Maria Vauliam Ferreira explicou que atualmente a Prefeitura já está tentando incluir as crianças localizadas nos bairros próximos da praça no programa de Puericultura. O objetivo é acompanhar as crianças, identificar qualquer possível quadro precoce de desnutrição e realizar o encaminhamento ao Centro de Recuperação Nutricional Infantil (Cernutri).

Para Maria, o principal problema em relação ao público infantil venezuelano não é a desnutrição, e sim as consequências da mesma. Conforme explicou, uma criança identificada nessa situação corre o risco de ficar gripada com mais facilidade, podendo assim contrair outras complicações. “Isso tende a aumentar o número de atendimentos e internações, já que a imunidade dela vai estar comprometida”, relatou.

ESTADO – A Folha entrou em contato com o Governo do Estado para saber se algum planejamento de prevenção está previsto junto ao público infantil venezuelano, no entanto, o Estado informou que a responsabilidade pelo público infantil é da Prefeitura de Boa Vista. (A.G.G)

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