FRONTEIRA
Frente cresce contra proposta de Constituinte na Venezuela
'É a união de forças frente à ditadura, uma ampla frente antiditatorial', destacou o analista Rafael López
Por Folha Web
Em 14/05/2017 às 17:00
(Foto: Pesquisa por imagem)

O rechaço cada vez maior de figuras políticas e organizações à Constituinte proposta pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, foi definido pela Mesa de Unidade Democrática (MUD), principal coalizão opositora do país, como uma frente comum aberta a todos os setores.

Além da MUD, a Igreja Católica, partidos como o marxista Bandeira Vermelha, juristas, organizações de defesa dos direitos humanos, acadêmicos e intelectuais formam a principal resistência ao governo, juntamente com chavistas críticos como o famoso maestro Gustavo Dudamel, o Maré Socialista — dissidência do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), legenda de Maduro — e o deputado Eustoquio Contreras, único da coalizão governamental a se desvencilhar das ordens do Palácio de Miraflores.

— As circunstâncias estão forçando a convergência de diversos atores — afirma o analista José Rafael López Padrino. — É a união de forças frente à ditadura, uma ampla frente antiditatorial.

Essa frente ampla também é vista com bons olhos no exterior, especialmente na América do Sul, onde vários países, encabeçados por Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), levantaram suas vozes contra “o golpe definitivo de usurpação dos direitos do povo”.

— O madurismo se configura como algo diferente do chavismo original, que tem a procuradora-geral Luisa Ortega como grande defensora — afirma Luis

Salamanca, ex-reitor do Conselho Nacional Eleitoral. — Há a impressão de que ela está montando seu próprio projeto político.

Ainda assim, o cientista político acredita que um triunfo da frente comum é inviável:

— Maduro não vai parar. Ele está sozinho com sua camarilha, mas segue a toda, como um trem sem freios a toda velocidade — afirma. — Somente a força poderá repelir a força.

Mais uma vez, todos os olhares se voltam para o Exército e o general Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, que, inicialmente apoiou sem pestanejar o plano do “filho de Chávez”. Porém, posteriormente, enfatizou seu apoio ao sufrágio universal, o que abre espaço para diferentes interpretações.

— Pode ser que surjam os mesmos militares que se levantaram após as eleições parlamentares de 2015 para defender o resultado eleitoral — afirma Salamanca. — Não acredito num pronunciamento (militar), mas em pressão interna.

Paralelamente, nomes do chavismo têm saído em defesa da proposta de Maduro. Na sexta-feira, num comício, o número dois do PSUV, Diosdado Cabello, afirmou que a Constituinte tem o objetivo de blindar a revolução bolivariana, e garantiu que a formação da nova Assembleia Nacional será levada adiante.
— Não há como voltar atrás — afirmou Cabello.

O ministro da Educação, Elías Jaua, que preside a comissão responsável pela Constituinte, informou que o governo venezuelano solicitou uma reunião com o núncio apostólico, Aldo Giordano, para mediar o diálogo e tentar frear os protestos que se intensificaram desde o anúncio da Constituinte, no dia 1º de maio.

A chamada “marcha dos avós” reuniu idosos que driblaram os cordões de isolamento formados por policiais, e chegaram à sede da Defensoria do Povo, em Mérida, para protestar contra o governo.

Liderada pelo governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, a manifestação enfrentou dificuldades e foi temporariamente dispersada pelas forças de segurança com gás lacrimogêneo. Reprimidos, os idosos foram obrigados a buscar rotas alternativas. Ao menos cinco manifestantes foram levados a hospitais.

Por sua vez, 11 jogadores da seleção nacional de futebol divulgaram um vídeo intitulado “Basta” pedindo o fim da repressão.

“A Venezuela inteira exige sua liberdade. Já basta de tanta repressão e de tantos mortos”, diz Nicolás “Miku” Fedor, que joga no Rayo Vallecano, da Segunda Divisão espanhola.

Na quinta-feira, o governo demitiu a ministra da Saúde, Antonieta Caporale, no cargo há quatro meses. A demissão aconteceu três dias após a publicação de um relatório que apontou crescimentos na mortalidade materna e infantil no país, além de aumentos nos casos de malária, difteria, tuberculose e coqueluche.

O país vive uma série crise de escassez de remédios, com desabastecimento de até 80%.

Com informações do Extra

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