IML
Jovem dado como desaparecido pela família foi enterrado como indigente
Por Folha Web
Em 11/01/2017 às 00:38
Perito odontolegista e diretor em exercício do Instituto de Medicina Legal (IML), Rodrigo Matoso (Foto: Arquivo/Folha)

Natural de Tailândia (PA), Aldones da Silva Souza, 22, era um jovem tranquilo e calado, avesso a bebidas e badalações, gostando apenas de tocar violão. Não tinha filhos, nem mulher e estava desempregado. Aflito com a falta de dinheiro, ele ouviu que um grupo de pessoas viajaria para Roraima em busca de oportunidades. Ao chegar ao Estado, ele não ficou muito tempo trabalhando como serviços gerais, chegando a morar em uma zona rural à procura de emprego em carvoarias.

Frustrado, ligou para a família em outubro de 2015, avisando que iria para o Pará no Natal. Como não tinha celular e só falava através de telefones públicos, só restou à família esperar um novo contato. Um ano depois, a irmã de Aldones Souza reconheceu o nome dele em uma matéria publicada pela Folha, em dezembro de 2015, sobre corpos no Instituto Médico Legal de Roraima (IML) que não foram reclamados.

Izamara Souza entrou em contato com a Folha na segunda-feira em busca da confirmação do paradeiro do irmão. No IML, a equipe de reportagem encontrou o registro, no dia 7 de novembro de 2015, do corpo de Aldones Souza, após ter sido encontrado em uma casa abandonada no Município de Rorainópolis, Sul do Estado, apresentando sinais de enforcamento e já em avançado estágio de decomposição.

Junto ao corpo, estava o documento de identidade, que tornou possível saber o seu nome, confirmado através de exame das digitais dos seus dedos. No dia 6 de fevereiro de 2016, após esperar pela procura da família, o IML entregou o corpo para ser sepultado pela Funerária Boa Vista, que realiza o enterro de indigentes em Roraima.

A prima de Izamara, Luciane de Souza, foi quem recebeu a confirmação da morte. “De alguns meses para cá, sua mãe começou a ficar muito inquieta por notícias, então resolvemos procurá-lo em redes sociais e pesquisas. Foi quando encontramos a matéria no site da Folha e entramos em contato. A família está muito triste. A mãe dele passou mal antes mesmo de ter a confirmação. Eu mesma não sei como vou falar para ela”, lamentou.

PROCEDIMENTO - Histórias como a de Aldones Souza não são raras no IML. Atualmente, dez corpos estão na câmara frigorífica aguardando que suas famílias os procurem. Três deles vieram do Hospital Geral de Roraima (HGR), um dos lugares que mais encaminha pessoas sem identificação. Pelo menos quatro mortos já foram procurados, mas constam na lista porque ainda não tiveram a documentação concluída.

O perito odontolegista e diretor em exercício do Instituto de Medicina Legal (IML), Rodrigo Matoso, explicou que há duas situações em que mortos são considerados indigentes: quando estão sem o documento de identificação (caso chamado de “identidade ignorada”), e quando estão identificados, mas a família não os reclama. No primeiro caso, o Instituto faz a coleta das impressões digitais, a chamada coleta papiloscópica, para ver se a pessoa tem registro, para só então se descobrir o seu nome.

Em ambas as situações, o IML guarda o corpo na câmara frigorífica, também chamada de conservação mortuária, onde ele é refrigerado abaixo de zero para que não sofra decomposição. Rodrigo Matoso disse que não há limite de tempo para o armazenamento, somente para o registro do óbito pelo IML: 90 dias. “Às vezes, os parentes ouvem falar da morte muitos anos depois e procuram a gente”, relatou.

Porém, se acontecerem muitas mortes seguidas, o Instituto precisa fazer desocupação. “Não foi o caso do massacre do último dia 6, mas quando é necessário utilizar as câmaras, o IML busca a imprensa para divulgar os nomes das pessoas e aguardar os seus conhecidos”, frisou.

Caso ninguém apareça, a Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes) é acionada para providenciar o sepultamento. A Funerária Boa Vista é a que tem convênio com o Governo do Estado para fazer o enterro dos considerados indigentes, que acontece após uma determinação judicial.

O corpo, caso tenha nome conhecido, é enterrado com lápide. Caso não, Rodrigo Matoso assegura que ao menos um número de identificação é colocado tanto no túmulo quanto no registro do cemitério. “É por meio deste número que o cemitério vai rastrear a pessoa, em caso de aparecimento da família, para fazer a exumação e o sepultamento já como conhecido”, informou. (NW)

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