AUMENTO NA DEMANDA
Maternidade já realizou mais de 150 partos de venezuelanas só em 2017
Por Folha Web
Em 17/04/2017 às 01:33
Diretora de apoio técnico da maternidade, Márcia Monteiro: “Percebemos que as mulheres estão vindo aqui para ter o bebê e depois voltam para a Venezuela”(Foto: Fernando Oliveira)

Grávida de 32 semanas, a venezuelana Getsemany Villegas, de 19 anos, está internada há um mês e meio no Hospital Materno-Infantil Nossa Senhora de Nazareth, em Boa Vista. A mãe da gestante, Sol Carrillo, trouxe a filha da Comunidade Indígena Las Claritas, no estado Bolívar, após o encaminhamento de um médico do município de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Getsemany sofre de uma anemia crônica, e tem recebido tratamento para a reposição de hemoglobinas, já tendo passado por 14 transfusões de sangue desde que deu entrada na maternidade.

A mãe explicou que buscou Roraima por ser a única chance de a filha ter um parto adequado. “Ela tem essa doença, que é hereditária, e por isso viemos para cá em busca de tratamento. Na Venezuela as coisas estão cada dia piores e não tivemos como ficar lá. Ela vai ficar aqui em tratamento até completar 36 semanas, quando será feito o parto cesáreo”, explicou.

A história de Sol é uma entre centenas de outras mulheres venezuelanas que têm buscado a única maternidade pública do Estado para atendimento. Essa demanda tem acarretado um gasto a mais para os cofres do estado, que a cada dia tem sentido o efeito do fluxo migratório com o aumento significativo na prestação dos serviços públicos, em especial a saúde.

O número de internações de venezuelanas na maternidade nos primeiros três meses de 2016 foi de 95. No mesmo período deste ano, os números de internações já chegam a 160.

Muitas dessas mulheres chegam à maternidade nos últimos dias da gravidez, como foi o caso de Yariteia de La Luz, moradora de uma comunidade indígena de Santa Elena de Uairén, que chegou a Roraima em trabalho de parto e, no mesmo dia, foi submetida a uma cesariana, onde nasceu a pequena Esmeralda. Ela, como a maioria, não fez pré-natal, o que aumenta os riscos de complicações na hora de dar à luz.

QUEM PAGA A CONTA – O custo de um parto normal na saúde pública é de R$ 443,40. O parto normal em gestações de alto risco custa R$ 617,19. Já um parto cesariano sai a R$ 545,73, mas se a gestação é de alto risco esse valor passa para R$ 890,94.

Mas a conta é maior. Somam-se os custos da internação, dos medicamentos, o gasto com acompanhantes, além de agravar a superlotação, resultado de décadas de descaso com a saúde pública, que há anos não aumenta leitos de maternidade no Estado.

A diretora de apoio técnico da maternidade, Márcia Monteiro, explicou que esse aumento na demanda tem afetado até mesmo na quantidade de medicamentos da unidade. “Fazemos todos os anos uma previsão da quantidade de material hospitalar e medicamentos, mas com essa demanda excessiva está sendo difícil ter esse controle. Já tivemos que repor alguns medicamentos por conta do aumento nos atendimentos a estrangeiras”, lamentou.

Apesar disso, ela explica que a unidade não pode fechar as portas para as venezuelanas. “Estamos aqui para receber qualquer pessoa. Temos a determinação do governo do estado de acolher todas as mulheres. O que percebemos é que as mulheres estão vindo aqui para Roraima para ter o bebê e depois voltam para a Venezuela. Muitas nem fazem o pré-natal, o que dificulta o procedimento de acolhimento das grávidas”.

GOVERNO – Desde o agravamento da crise migratória de venezuelanos para Roraima, segundo a assessoria do governo do estado, a governadora Suely Campos tem buscado apoio do governo federal principalmente para dividir a conta da saúde, que aumentou não só na maternidade, como no Hospital de Pacaraima e no Hospital Geral de Roraima.

Muitas reuniões já foram realizadas, mas nenhuma ajuda chegou, exceto 500 quilos de medicamentos para o Hospital de Pacaraima.

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