ARTE REBORN
O negócio é sério. Vamos brincar?
A indústria de brinquedos sempre movimentou grandes volumes de dinheiro; a arte reborn segue o mesmo caminho
Por Folha Web
Em 14/05/2018 às 01:23
A menina Sarah Beatriz Rôa ganhou da mãe artista uma bebê reborn: horas de brincadeira e carinho (Foto: Divulgação)

A pergunta do título não deve ser respondida sem reflexão. Brincar parece coisa de criança ou de quem nada tem a fazer. E não é bem assim! Natural de Corumbá, a mato-grossense do sul Katiani Rôa usa a arte de fazer “bonecos realistas” para, brincando, ganhar dinheiro. 

Atualmente, a artista reside em Pacaraima. A vida cigana ainda não lhe permitiu a formalização empresarial, que sonha um dia fazer. Por enquanto, fabrica, ou cria os bonecos que chama de “meus bebês”, apenas por encomendas.

Se é que assim se pode chamar, os “brinquedos” têm características realistas. O nome reborn (do inglês renascido) é a reconstrução de imagens baseadas em fotografias. Ao contrário do que alguns podem pensar, em vez de “simples brinquedos”, às vezes são relíquias, lembranças de entes queridos.

O BRINQUEDO – Ter uma dessas peças significa investir R$ 2.000,00 na boneca recém-nascida e R$ 3.000,00 se for parecida com alguém; ou de R$ 3.500,00 a R$ 10.000,00 dependendo do tamanho. O tamanho das bonecas varia de 40 centímetros, a um metro e dez centímetros.

A artista diz que os “bebês” são feitos para brincar, ou guardar, como se fossem um quadro, conforme fazem os norte-americanos. No Brasil, existem colecionadores que além de brincar (trocar roupa, pintar, etc.), também os adquirem como arte.

Katiani se entusiasma com o destino nobre de seus “brinquedos”. As crianças são alvo porque com eles aprendem a brincar e também a cuidar. “Minha filha, por exemplo, cuida como se fosse um bebê de verdade e ao mesmo tempo, brinca”.

Nem só as crianças! Mulheres adultas podem viver ocasiões nostálgicas. A artista diz que há senhoras que voltam no tempo, relembrando os momentos que tinham com seus filhos ou quando brincavam de boneca. “Por isso, hoje essas bonecas são usadas também para o tratamento de pessoas com Alzheimer”, observou.

Outro aspecto que motiva a artista é saber que a continuidade da brincadeira conduz a uma espécie de magia. “Sim, porque a criança que tem dentro da gente nunca morre”, avaliou.


 

Como se faz um “bebê reborn”

Fazer um bebê reborn não é tão simples. Tudo é importado da Europa ou Estados Unidos. Se o artista não fizer compra direta, Katiani diz que no Brasil, só existe um site especializado que importa o material. 

Os bonecos são esculpidos por especialistas em “Polímero Clay” – uma massa especial transformada em “vinila” – uma borracha bem macia. A partir daí é feito um molde chamado “kit reborn”.

“A minha arte é transformar esse kit em um bebê que se pareça real. Nessa etapa trabalho com pintura (tintas importadas), implante dos fios. Na pintura faço veias, brotoejas, manchinhas, marca de vacina. O cabelo é implantado fio por fio, com uma agulha alemã”, detalhou.

EXPOSIÇÃO – Mesmo que aqui já tenha feito em volta de 30 bonecos, Katiani jamais expôs seus trabalhos. Atualmente, está concluindo três bebês. Ela argumenta que como trabalha por encomenda, é difícil tê-los em estoque.

PARECIDO – A artista diz que a partir de uma foto nítida é possível fazer um bebê muito parecido, quase idêntico ao modelo fotográfico. Neste tipo de trabalho ela passa até 30 dias para concluir um bebê. Não sendo com modelo fotográfico em volta de 15 dias.

Ela não se assusta ao produzir um bebê com as feições de alguém que já tenha morrido, por exemplo. Prefere vê-los como arte, sem se ater às características.

“Uma senhora perdeu um filho em acidente com arma de fogo. Ela me pediu para fazer um boneco com características adultas. Quando ela recebeu foi emocionante. Fico feliz em poder deixar alguém feliz. Tem mulheres que não podem ter filhos e encomendam bebês com características dela e do marido. Elas os tratam como filhos em razão da vontade de ter um e não poder. Isso me comove. Mas, o que mais me comove é ver uma criança receber um bebezinho feito por mim”, declarou Katiani Rôa.

INFÂNCIA – A artista lembra que em sua infância jamais teve uma boneca boa. Muitas vezes herdava as das primas. Atualmente ela se sente realizada em poder viabilizar sonhos de pais que muitas vezes se sacrificam para dar um “bebezinho” à filha.

DIFUNDINDO – Ela diz estar preparada para difundir entre outras pessoas a “arte reborn”. Tanto que ministra cursos na casa dela, ou na residência do interessado. Ao final do curso, o aluno faz o seu próprio “bebê reborn”.

Quem quiser saber detalhes da artista, fazer encomendas ou se inscrever em curso basta adicioná-la (Katiani Rôa) no Facebook, ou manter contato pelo telefone (067) 99981-5511, via WhatsApp.


 

A artista em Roraima

Nascida em Corumbá, Katiani Rôa mudou-se para Campo Grande (MS) dez anos atrás. Casada com militar, há um ano e quatro meses está em Boa Vista. O marido, Fábio Rôa foi destacado pela Força Nacional para trabalhar aqui na época do massacre na Penitenciária Agrícola.

Por conta da forte imigração na fronteira do Brasil com a Venezuela, mais uma vez Fábio foi deslocado e há quatro meses Katiani mora em Pacaraima. De mudança em mudança, em 2012, quando morava no Rio de Janeiro teve apoio e incentivo do marido, para fazer o curso de Reborn.

A ideia era que acompanhando o marido, onde quer que estivesse trabalharia naquilo que gosta. Como o material que utiliza é importado e ela pede por internet, conforme as encomendas. Caso o pedido seja de outro estado, entrega via Correios.

Ao longo dos seis anos que trabalha com a arte reborn, ela acredita que criou mais de 200 bonecos. Trinta deles, feitos em Roraima atendendo encomendas de outros estados. “Em Roraima poucos conhecem meu trabalho”, comentou.

INDÍGENA – Apesar de estar em região em que a cultura indígena é bastante forte, a artista disse que não havia pensado em criar um boneco com essas características. “É uma ótima ideia! É possível que saia um desses. Tenho até molde comigo”, comentou.


 

O que é a “arte reborn”

A arte reborn nasceu na Inglaterra, em plena II Guerra Mundial. Naquela época, mães recolhiam em meio aos escombros, bonecas velhas, ou quebradas, para recuperá-las e dar de presente às filhas.

As bonecas tinham os olhos substituídos, braços e pernas limpos e cabelos cuidadosamente trocados por lã de ovelha, ou outro material que produzisse melhor efeito.

Aos poucos, a arte se espalhou por toda a Europa e foi levada para os Estados Unidos. Com o aprimoramento das técnicas, cada vez mais as bonecas se pareciam com bebês verdadeiros.

A partir daí, detalhes foram incorporados. Veias, brotoejas, marcas de nascença, sobrancelhas, cílios pintados ou enraizados, cabelos implantados fio a fio, pele com cor e a textura aveludada, membros articulados e o peso total de um bebê de verdade.

Atualmente, o material utilizado é específico para essa arte. Os moldes de bebês e tintas continuam sendo fabricados na Europa e Estados Unidos.

RECENTE – O reborn só chegou ao Brasil por volta de 2012. Agora é “febre”, principalmente entre mulheres adultas. A técnica é vista com respeito e admiração por um público cada vez mais exigente.

Artistas que trabalham com o reborn dizem ter elevados níveis de concentração e paciência. Mais ainda, de amor por cada bebê que faz “renascer”. Para tanto, usam a frase do filósofo e matemático Arquimedes: “Brincar é condição fundamental para ser sério”.

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