Por Marcelo Tito
Em 06/11/2019

“Brincadeira”. Só que não!

  A Terceira Lei de Newton diz que para toda ação, existe uma reação de mesmo valor, mesma direção e sentido oposto. Para a Física, essa é uma verdade incontestável. Contudo, para o comportamento humano, nem tanto.

Todo mundo conhece alguém que é famoso por suas “brincadeiras de mau gosto”, que quase sempre têm o objetivo de ofender ou ridicularizar o outro, e que seguem basicamente o mesmo modus operandi.

Ela realiza a ofensa publicamente, ou faz uma proposta indecorosa, ou emite opiniões inadequadas, e ao perceber que o tempo fechou para seu lado, se utiliza das frases “brincadeira!”, “nem sabe brincar!” (com um sorriso falso estampado na cara) para escapar da Terceira Lei de Newton (a reação em sentido oposto).

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“Brincadeira”. Só que não! (Crédito: Divulgação)

Você sabia que a psicologia tem explicações para isso?

O famoso psicanalista Freud publicou a obra “O chiste e sua relação com o inconsciente” em 1905. O chiste, que é justamente esse tipo de comentário engraçado, para Freud é muito mais do que um modo engenhoso ou simpático de pensar a realidade: ele achava que o chiste revelava mais do que poderíamos ver em sua superfície.

O psicanalista classifica dois tipos de chiste: o inocente, sem outra motivação do que mostrar a ingenuidade de quem fala, e o tendencioso, ou aquele motivado por um impulso hostil ou obsceno.

Para viver em sociedade, deve-se respeitar regras intrínsecas seguidas pelo grupo ou se poderá sofrer as reprimendas desse grupo pelos seus desvios de comportamento.

Então alguns indivíduos fazem uso do chiste tendencioso para dizer em tom de brincadeira o que não seria aceito socialmente, obtendo o prazer que viria da ruptura de uma repressão.

O indivíduo adota o comportamento inadequado ou impróprio, mesmo sabendo que é ofensivo para alguém ou para o grupo, e faz isso na expectativa de obter uma vantagem, que pode ser social, emocional, financeira, sexual, etc. ao receber o feedback positivo da plateia ou da única pessoa que está tentando impressionar.

É o famoso “toda brincadeira tem um fundo de verdade”: Freud vê no chiste, principalmente o tendencioso, um meio de entender o que se passa no inconsciente daquele indivíduo.

Porém, se a pessoa que falou o chiste perceber que seu plano não deu certo, imediatamente adota um comportamento defensivo com o objetivo de evitar sofrer uma penalidade correspondente à sua conduta, podendo em alguns casos ainda se colocar no papel de vítima.

Conhece alguém que age assim e que de alguma forma lhe incomoda?

Se sua resposta é “sim”, você não está sozinho (a)!

Não existe receita de bolo, cada caso deve ser analisado de forma individual. Contudo, vou deixar duas dicas que acredito que podem lhe ajudar nessas situações:

1- Quando o fato ocorrer e lhe causar incômodo ou desconforto, procure controlar a emoção. Com o tom de voz adequado, pontue-o imediatamente com um “eu não gostei”, “espero que isso não se repita”, de preferência na presença de uma terceira pessoa.

2- Caso a conduta seja agressiva, ofensiva ou discriminatória, conforme o caso, denuncie ou alerte a pessoa que você a denunciará em caso de reincidência.

Esse tipo de comportamento tende a persistir por causa do silêncio da vítima. Por esse motivo, sua insatisfação deve ficar clara com o fato, o que deve ser transparecido de forma tranquila, porém firme.

Um forte abraço,

Marcelo Tito
marcelotitopsi@gmail.com
Psicólogo, especialista em Dor CRP-20 / 9545
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