Por Francisco Cândido
Em 08/04/2020

ANJOS BRANCOS

MÉDICOS QUE SALVAM VIDAS __________________________________________________________________

O anjo alivia o sofrimento da alma e o médico o sofrimento do corpo. Ambos têm muito em comum. Quem já sofreu um acidente ou passou por uma cirurgia, sabe do que estou falando.

Aos médicos que hoje prestam serviços (e salvam vidas) nos hospitais de Roraima – e a todos os profissionais de saúde -, às nossas homenagens e o reconhecimento pelo muito que fazem pela saúde das famílias deste Estado. Abordamos hoje o perfil do primeiro médico sanitarista e leprologista que veio para o Território Federal do Rio Branco, a convite do Governador Ene Garcez dos Reis, em 1944, o Doutor Durval de Araújo Gonçalves Filho. Fazia-se acompanhar pelo Dr. Silvio Lofego Botelho.

O Dr. Durval nasceu em Canavieiros, na Bahia, em 23/06/1909. “A medicina é sedimentada no sanitarismo, como base da prevenção das doenças endêmicas e até como profilaxia”, ensinou-me quando o entrevistei no dia 23 de junho de 1999 em sua residência à Avenida Major Williams.

Durval de Araújo foi nomeado pelo governador Ene Garcez para comandar a Campanha de Erradicação da Malária. Durval formou uma equipe com 20 guardas sanitaristas, os chamados “mata-mosquitos”, borrifando com DDT as casas, as fazendas e comunidades indígenas. Eram tempos difíceis pela falta de recursos técnicos e de medicamentos.

O trabalho era feito a pé, casa-a-casa. Acrescente-se ao fato de que a população, inicialmente, não compreendeu a importância do saneamento e da necessidade de ter aparelhos sanitários (novidade) nas dependências da casa e da distância que eles deveriam ficar em relação aos poços de água para o consumo.

Este cenário tornara-se um ambiente propício à presença das verminoses e da proliferação da malária. Em Boa Vista ainda não havia água encanada, tirava-se diretamente do rio Branco. Depois o governo dispôs carro-pipa.

Tempos depois o Dr. Durval Araújo foi convidado para fazer parte da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites que iria implantar os marcos divisórios nas fronteiras do Brasil com a Venezuela e Guiana.

O convite deveu-se ao fato de que a Comissão havia sofrido um ataque de índios selvagens e o médico que o antecedeu na equipe tinha levada uma flechada na altura dos rins e se fez necessário enviá-lo urgente para Manaus.

Nesta viagem a equipe subiu o Monte Roraima e a Serra do Parima. E, para fincar os marcos a cada 30 quilômetros, os membros da Comissão andavam o dia todo com um jamaxim (cesto de palhas de buriti) e equipamentos nas costas. Foram 31 dias de caminhada.

O Dr. Durval aproveitou a oportunidade para capturar e estudar os mosquitos Aedes aegypt e anofeles transmissores da dengue e da malária. Depois desta missão ele retornou à Boa Vista onde continuou o seu trabalho pioneiro no combate a endemias.

Em 1964 o Dr. Durval Araújo foi nomeado, por indicação do deputado federal Valério Caldas de Magalhães, para o cargo de Governador do Território Federal de Roraima. Nos dois meses que passou como governador o Dr. Durval se empenhou na execução de obras de saneamento; determinou a abertura de inúmeras valas para dar vazão aos igarapés e lagoas que inundavam a cidade. Aliás, para quem não lembra, a cidade de Boa Vista tinha mais lagoas do que propriamente ruas, inclusive no local onde hoje está o Hospital Coronel Mota, na Avenida Júlio Bezerra, ali era uma grande lagoa.

As poucas casas, algumas em adobe (barro), não eram suficientes para abrigar tanta gente. Os primeiros médicos que vieram para Boa Vista tiveram que se acomodar em uma pequena casa existente ao lado do IBGE, na Avenida Getúlio Vargas. E, um detalhe: o salário de um médico era baixíssimo. A população ajudava com gratidão (galinha, pato, almoço). Acredite. Depois eu conto esta história.

O Dr. Durval casou-se em maio de 1935 com a senhora Myrtes dos Anjos, tendo um casal de filhos: Wellington Gonçalves e Marlene Gonçalves. Após separação casou-se com a senhora Dyrse, com a qual teve uma filha: Denise Gonçalves. Nos últimos dias o Dr. Durval estava sendo cuidado por uma de suas filhas adotivas, Eulália Wapixana de Montenegro.

O Dr. Durval havia se aposentado aos 70 anos de idade, mas continuou por algum tempo prestando serviços à Fundação Nacional de Saúde, sempre no combate à malária.

Pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que o Dr. Durval Araújo está para Roraima como o sanitarista Osvaldo Cruz foi para o Rio de Janeiro. Aqui só não houve a “Revolta da Vacina”. Mas, ele enfrentou obstáculos para implementar a saúde pública (saneamento).

Ele tinha 99 anos de idade quando faleceu em Boa Vista no dia 12/07/2008.

Seria justo que o seu nome fosse dado à uma unidade de saúde em Boa Vista.

Francisco Cândido
franciscocandido992@gmail.com
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