Por Opinião
Em 02/10/2020

ARTESANATO TEM VALOR

Amanda Latosinski*

Todos os dias, artesãos e artesãs de todas as regiões do nosso país estão criando e produzindo. São pessoas que, além de habilidosas e criativas, trazem para suas peças a identidade e história de suas regiões e cultura de origem. A variedade e qualidade da produção de artesanato brasileiro é enorme e reconhecida no mercado nacional e internacional.

Em Roraima, há uma significativa produção de artesanato, com destaque para a arte indígena. Por séculos o povo Yanomami vem aprimorando a arte do trançar. O cotidiano nas comunidades é permeado por objetos fabricados por mulheres e homens com esmero estético e habilidades únicas. Aqui na cidade são mais conhecidos os cestos cargueiro wii a (na língua Yanomami) e o cesto raso xotehe ou xotó. Ambos são confeccionados por mulheres e feitos de cipó titica com pinturas naturais de jenipapo, urucum ou carvão, e detalhes em fios pretos. O fio resistente e brilhante, que muitos pensam ser plástico, é na verdade um fungo. A espécie foi descoberta pelas mulheres Yanomami e nomeada pela ciência no ano de 2019 de Marasmius yanomami em sua homenagem. Isso é apenas um dos motivos que torna a cestaria Yanomami especial.

Acompanhei as Yanomami na mata, nas regiões do Demini e de Maturacá, na busca por cipó. Junto da cantoria e da alegria das mulheres, pude notar como é árduo e minucioso o processo de coleta. Em Maturacá, elas ficam 3 dias acampadas na floresta para encontrar o fungo preto. A coleta inclui a rotatividade dos locais de extração, o que mostra o cuidado e conhecimento dos yanomami no manejo da floresta. É preciso dias para fazer um único cesto. As mais novas observam as mais velhas e aprendem a técnica.

As peças de artesanato são produzidas respeitando os modos de vida na floresta, fortalecendo o conhecimento tradicional do povo e usando recursos sustentáveis. É notável como os cestos yanomami são de alta qualidade e beleza. Cada cesto tem identidade, diferente de uma peça produzida por molde padronizado. Por essas razões, o trabalho artesanal indígena, tem sido tendência de moda e design nos centros urbanos do país. A Hutukara Associação Yanomami tem apoiado as artesãs na organização e venda de suas peças para esse mercado crescente. Os cestos que chegam da floresta para Boa Vista são comercializados através da associação para lojas de artesanato, arte e decoração.

Mas nem sempre a arte indígena tem seu valor reconhecido. Infelizmente ainda vemos preconceito contra o artesanato – muitas vezes visto como algo sem valor, rústico – e as peças acabam vendidas por preços baixíssimos. A Hutukara tem conseguido reverter essa situação encontrando parceiros comerciais que valorizam as peças das Yanomami, que pagam preços justos e dão os devidos créditos ao conhecimento do povo.

Com isso, a Associação tem levado o nome dos Yanomami e de Roraima para espaços de referência de design brasileiro, como a Bemglô, loja conceito da atriz Glória Pires em São Paulo e a Feira na Rosenbaum. As peças também têm chegado em lojas de decoração como a Kamoo e já estiveram por duas vezes em campanhas da West Wing. O trabalho yanomami tem presença confirmada nas lojas especializadas em arte indígena como a Tucum, a CANOA em Paraty/RJ e a Galeria Amazônica em Manaus. Aqui em Boa Vista a Hutukara está em busca de um parceiro comercial que possa oferecer um valor melhor para o trabalho indígena.

Só em 2019, a Hutukara articulou a venda de mais de 1.500 peças de artesanato de 260 artesãs de 35 comunidades diferentes. Mesmo com a pandemia, lojistas seguem encomendando peças. A associação, com apoio de parceiros, trabalha para estruturar a cadeia de produção do artesanato, da logística à gestão das vendas. O artesanato se tornou uma importante forma de acesso a bens básicos pelos Yanomami, viabilizando a aquisição de utensílios agrícolas e outros produtos que são necessários em seu cotidiano.

A Hutukara realiza encontros para que as artesãs e coletores de outros produtos da floresta discutam como querem fazer relações comerciais com não-indígenas e tomar decisões sobre manejo dos recursos naturais. O trabalho do artesanato fortalece a cultura, gera renda, mantém a floresta exuberante e dá autonomia para as comunidades. O artesanato valoriza o que é daqui, respeitando a vida das populações tradicionais. O artesanato indígena faz parte da identidade cultural do nosso estado e já é reconhecido no Brasil e no mundo.

*Engenheira de Produção e assessora no fortalecimento das cadeias de valor de produtos da floresta do Instituto Socioambiental (ISA)

COMO A APPLE SE TORNOU A EMPRESA DE TECNOLOGIA MAIS SUSTENTÁVEL DO MUNDO?

Gustavo Loiola*

 Pelo menos uma vez por ano a gigante Apple gera um grande buzz em todo o planeta ao anunciar o lançamento de novos produtos e funcionalidades. A tradição, criada por Steve Jobs, sempre foi uma forma da empresa celebrar a inovação e criar no consumidor novos interesses de compra. No entanto, em um momento onde se discute diariamente as reais necessidades de consumo, todos precisam se reinventar.

Em julho de 2020, reforçada por uma declaração do CEO Tim Cook, a Apple assumiu o compromisso de se tornar 100% carbono neutra até 2030. A marca reforçou o papel da inovação como um impulsionador da jornada ambiental, ao tornar os produtos mais eficientes energeticamente, estimular a economia circular e trazer fontes de energia limpa para o planeta.

O que se apresenta no lançamento desses novos produtos é justamente isso: a inovação a favor da sustentabilidade. Essa estratégia da Apple irá abranger todos as etapas dos seus negócios, incluindo cadeia de suprimentos e o ciclo de vida dos produtos que, no ponto de vista de pesquisadores e especialistas, é o grande desafio da década. Os cinco principais pilares de mudança da empresa são:

Design

A empresa faz uma análise contínua do design dos seus produtos, em busca de oportunidades de melhoria. Ao fazer essa revisão, procura oportunidades de reduzir o carbono, seja na utilização de componentes mais sustentáveis ou no processo de aprimoramento da engenharia, materiais e energia consumida pelos produtos. Comparado com 2008, o consumo médio de energia dos produtos Apple caiu em 73%. 

Apesar das discussões sobre obsolescência programada, a empresa tem investido na durabilidade dos produtos, ampliando o seu tempo de vida e durabilidade da bateria, assim como na atualização mais assertiva do sistema operacional.

Materiais e embalagem

A presença de elementos químicos nos produtos de tecnologia também é algo bastante preocupante. A empresa incentiva a pesquisa para mapear, testar e substituir alguns materiais nocivos por substâncias mais seguras. Foi criada uma ordem de importância para definir o perfil de impacto destes materiais, que incluem dados sobre efeitos sociais, globais e ambientais. Segundo seu Relatório Ambiental, foram determinamos 14 materiais que devem ser priorizados na transição para fontes recicláveis ou renováveis: alumínio, cobalto, cobre, vidro, ouro, lítio, papel, plásticos, metais de terras raras, aço, tântalo, estanho, tungstênio e zinco.

Além da reciclagem em embalagens, é interessante conhecer essa aplicação também nos metais dos equipamentos. Por exemplo, os smartphones da linha iPhone 11 são os primeiros feitos com metais raros 100% reciclados no Taptic Engine. O uso de alumínio reciclado e com baixa emissão de carbono reduziu a pegada de carbono em 4,3 milhões de toneladas em 2019.

Economia circular

Há alguns anos a Apple trabalha para estimular a devolução e circularidade dos aparelhos, com programas de reciclagem e o AppleCare. O chamado Laboratório de Recuperação de Materiais procura otimizar as práticas de reciclagem, aprimorar a desmontagem e avançar em pesquisa e desenvolvimento. Nesse contexto, recentemente foram "lançados" dois rôbos para colaborar com esse processo: a Daisy e o Dave. A Daisy, por exemplo, consegue recuperar materiais de 15 modelos diferentes de iPhone em uma velocidade de 200 aparelhos por hora, impedindo que, apenas em 2019, mais de 47 mil toneladas de resíduos de aparelhos eletrônicos fossem enviadas para aterros.

Eficiência energética e energias renováveis

Quase metade das emissões de carbono mensuradas vem da energia elétrica usada no processo produtivo. Por isso, a Apple vem se comprometendo a identificar novas formas de reduzir o uso de energia em suas instalações corporativas, assim como ajudar a sua cadeia de suprimentos a fazer o mesmo. Hoje, todas as lojas, escritórios, data center, operações e viagens são neutras em carbono.

A meta é transformar toda a cadeia até 2030. Por isso, após ter fechado uma parceria com o US-China Green Fund, investirá US $ 100 milhões em projetos de eficiência energética acelerada para fornecedores. Atualmente, mais de 70 fornecedores assumiram o compromisso de usar energia 100% renovável para a produção da Apple.

Remoção de carbono

Juntamente com a ONG Conservation International, foi criado o Fundo de Soluções para Carbono, para proteger e recuperar florestas, zonas úmidas e pastagens ao redor do mundo. Algumas iniciativas já acontecem em áreas de mangue na Colômbia e savana no Quênia. A ideia é reunir outras empresas e instituições para iniciativas especialmente em regiões onde a empresa tem operações, incluindo florestas e soluções climáticas para China e Estados Unidos.

O interessante em conhecer mais sobre essa estratégia é entender como o mercado vem se comportando. Seja por iniciativa do mercado investidor ou por influencia dos consumidores, as organizações precisam se tornar protagonistas em situações como a urgência climática que estamos vivendo. A receita - apesar de parecer complexa - é bastante simples: analisar a sua supply chain e modelo de negócio, enxergar quais são os pontos de maior impacto socioambiental, refletir e criar ações de mitigação e redução desses impactos, inovar em produtos e serviços.

*Mestre em Governança e Sustentabilidade e supervisor de Sustentabilidade e Relações Internacionais no ISAE Escola de Negócios, responsável por ações alinhadas com a Organização das Nações Unidas (ONU).

 

CONTINUAMOS OS MESMOS

Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Continuamos a ser colônia, um país não de cidadãos, mas de súditos, passivamente submetidos às ‘autoridades’ – a grande diferença, no fundo, é que antigamente a ‘autoridade’ era Lisboa. Hoje é Brasília.” (Roberto Campos)

Não me lembro se já citei, aqui, a malcriação do jornalista Barão de Itararé. Mas a verdade é que estou me sentindo no mundo que ele mencionou, na imprensa. Mas, nenhuma culpa da imprensa. Ela está apenas nos mostrando o mundo em que ainda vivemos. Os escândalos políticos a que assistimos diariamente realmente imbeciliza. Mas o mais preocupante é que ainda não acordamos para o desastre.

Que mundo estamos preparando para o futuro. Quando iremos acordar para os absurdos que vivemos dentro da política? Não imagino quando iremos amadurecer. Porque se continuarmos nessa marcha de tartaruga nunca chegaremos ao nosso horizonte. Tudo indica que continuarem os marionetes e títeres da nossa ignorância política. O que continuamos vendo e assistindo, nos desempenhos dos nossos mandatários, envergonha-nos.

Mas não vamos esperar que os outros façam por nós, o que nós mesmos deveríamos fazer. Então vamos amadurecer e fazer. E nosso amadurecimento está na nossa educação. Sei que estou ficando massacrante nesse assunto. Mas não tenho como fugir da responsabilidade na luta em busca da nossa democracia. Porque nunca seremos cidadãos enquanto não tivermos uma democracia de fato e de direito. E esta nunca existirá sem uma educação à altura dos nossos deveres cidadãos.

Não torça o nariz. Todos nós, eleitores ou não, já vivemos decepções vindas de políticos que elegemos confiando na sua integridade. O que indica que devemos amadurecer para sabermos escolher os que realmente são dignos do nosso voto. Mas precisamos primeiro aprendermos a valorizar a nossa condição de eleitores. Ou votamos como cidadãos, ou como súditos.

Mas não se deixe levar. Faça sua caminhada cidadã. E nunca se esqueça de que não há cidadania com obrigatoriedade no voto. O cidadão vota por dever e não por obrigação. Mas para conhecer e reconhecer seus direitos de cidadão ele precisa estar inteirado dos seus direitos como cidadão. E para isso precisa ser educado politicamente. Converse com seu candidato para as próximas eleições, e veja se ele está interessado no desenvolvimento da educação.

Vamos sair desse círculo de elefante de circo. Porque, politicamente, é nesse ambiente que vivemos. Continuamos presos à corda da ignorância, da qual nunca conseguiremos nos libertar, porque tudo vai depender de cada sum de nós. Faça sua parte, fazendo o melhor que puder fazer. Você pode. Pense nisso.

*Articulista

Email: afonso_rr@hotmail.com

95-99121-1460

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