Jessé Souza

JESSE SOUZA 11545

O que é preciso lembrar na hora do arrocho provocado pela pandemia

Jessé Souza*

A cada operação da Polícia Federal e a cada endurecimento das restrições no Estado, com o “toque de recolher” na Capital, como irá ocorrer no próximo fim de semana, significa que os políticos deixaram de fazer suas obrigações com a saúde pública em todos os níveis. Todos!

Inclusive é necessário lembrar que o governo Bolsonaro se elegeu com um tom de discurso que levava muitos a defenderem o fim do Sistema Único de Saúde (SUS). Não fosse esse serviço público, a tragédia estaria sendo muito pior para os pobres que não têm condições de pagar um plano de saúde.

Em Roraima, a saúde pública sempre foi tratada como moeda eleitoral, assim como a Educação e outros diversos setores, em que o governador ou governadora da vez entrega determinada pasta para um grupo ou partido político em troca de apoio político para sua reeleição ou para manter a governabilidade de sua gestão.

Na esfera municipal, em Boa Vista, posto de saúde havia se tornado símbolo de atendimento apenas para curativo, preventivo e pré-natal, em que a população era forçada a procurar a emergência do Hospital Geral de Roraima (HGR) a qualquer dor de cabeça e febre mais forte.

O atendimento básico foi negligenciado por décadas, com unidades de saúde transformadas em peso administrativo para as gestões públicas, sem estrutura adequada, sem o número de profissionais de saúde necessários e sem garantir um atendimento primário com mínimo de qualidade.

Isso seguiu até os primeiros meses do surgimento da pandemia no Estado, quando a Prefeitura não só fingia que o problema não era com ela, como a população foi induzida a acreditar que posto médico não era local para buscar os primeiros atendimentos contra a Covid-19.

Portanto, toda vez em que a população é submetida a uma nova decisão, dentro desse grande quadro de confusão e conflitos, quando ninguém sabe mais o que é verdade e o que é mentira, saiba que isso vai além do “novo normal” e dos desafios frente a uma nova doença.

Acima disso, quando a ordem é ficar em casa sob qualquer consequência, significa que os políticos deixaram de fazer sua parte, enquanto alguns metiam a mão no dinheiro destinado à saúde ou fazia campanha eleitoral dentro da estrutura que era para salvar vidas e garantir o bem-estar da população.

Não se trata apenas de cada um fazer sua parte dentro da grande arena da saúde pública. O papel da Polícia Federal, com as operações que investigam máfias com os recursos de combate à Covi-19, é imprescindível para que se punam os responsáveis por crimes e inibam novas práticas corruptas que acabam refletindo na saúde pública.

Tudo que estamos passando agora podia ter sido aliviado se a saúde pública não tivesse sido tratada como um grande negócio. É preciso sempre levar isso em conta na hora de cumprir medidas restritivas, do desemprego, da fila nos hospitais, bem como no momento em que familiares, amigos e conhecidos saem da Unidade de Terapia de Intensiva (UTI) enrolados num saco preto direto para o cemitério.

A pandemia só revelou o que estava oculto – ou nem tão oculto assim.

*Colunista