Jessé Souza

JESSE SOUZA 12481

Do boi ao jacaré, um século de regressão no emburrecimento da população

Jessé Souza*

A mentira como instrumento de manipulação de massa é um dos principais problemas da atualidade, potencializada a partir da popularização da internet.   Não que seja uma novidade. Absolutamente não. É que agora a realidade passou a ser manipulada perigosamente, podendo desestabilizar governos e até mesmo colocar em risco os regimes democráticos mundo afora.

São as chamadas fake news (notícias falsas) que passaram a fazer parte do repertório de quem transita pelo mundo das redes sociais ou daqueles que se informam exclusivamente por meio de compartilhamentos em grupos de WhatsApp, fontes principais da disseminação não só das mentiras, mas do ódio e dos ataques estrategicamente pensados para desestabilizar a sociedade.

A mentira chegou a um nível de comprometer inclusive a garantia de vida das pessoas, como é o caso da vacina contra o coronavírus, uma vez que a imunização passou a ser a única forma de frear a pandemia, salvando vidas e reduzindo riscos de transmissão e de mortes pela Covid-19.

O reflexo da mentira é a resistência de pessoas em se imunizarem, as quais passaram a acreditar que a vacina pode mesmo levá-las para os braços do demônio, como pregam religiosos inescrupulosos que afirmam que seria instalado um microchipe no braço das pessoas; ou servir de experiências macabras, como virar jacaré, ou mesmo que a vacina seria um instrumento de eliminação em massa da população.

Toda essa geração que beira os 50 anos de idade ou mais foi vacinada compulsoriamente na escola, quando criança ou adolescente, enfileiradas para receber doses com uma agulha que parecia atingir os ossos ou  uma pistola de ar comprimido que dava a impressão de sacudir a alma, deixando uma marca no braço para a vida toda. Naquele tempo, a ciência sequer tinha os recursos atuais, e a pistola de vacinação se tornou o símbolo do avanço tecnológico.

E não adiantava chorar e espernear naqueles bons tempos. A criança era segurada por funcionários da escola para receger a dose contra a varíola.  Até a chegada do Zé Gotinha, nas campanhas de vacinação para erradicar a poliomelite, vacinar passou até a ser considerado um ato cívico para o brasileiro na luta contra a doença, espírito este que foi destruído severamente pelo negacionismo da atualidade.

Hoje, graças aos 40 anos de pesquisas dos cientistas do mundo todo para que se chegue a uma vacina contra o HIV, que é o vírus da terrível Aids, foi possível se chegar em curto espaço de tempo a essas vacinas contra a Covid-19 da atualidade. E poucos sabem disso, pois as informações são omitidas ou são engolidas pelas fake news produzidas por essa realidade que tenta implantar o negacionismo como “nova realidade”.

Chegamos a um ponto, para se ter um pâramento, que regredimos mais de um século  em relação à questão da vacina, mais precisamente 117 anos. Em 1904,  houve a Revolta da Vacina no Rio de Janeiro, que era a Capital do país, quando a população era alimentada por mentiras  contra as reformas impostas que ocorriam à época, consideradas como uma opressão dos governantes contra os mais pobres.

A grande diferença para a atualidade é que naquela época havia um presidente pró-vacina, enquanto hoje temos um governante explicitamente negacionista, que retardou o quanto pode a imunização em massa. Com relação às mentiras, as teorias conspiratórias são semelhantes, a exemplo de pessoas achavam que naquele tempo a vacina seria um instrumento de controle do governo e servia para matar os mais pobres.

A obrigatoriedade da vacina foi o estopim da revolta, uma vez que a comprovação da vacinação passou a ser condição para tirar documentos, conseguir emprego e até mesmo para casar. Como instrumento de combate pelos que se opunham ao governo, as faka news da época diziam que os vacinadores iriam invadir a casa das famílias e aplicar a vacina no órgão sexual das mulheres.

Outra semelhança com as mentiras da época, tem o fato de que a vacina contra a varíola consistia no líquido de pústula de vaca doente, dando motivo para o surgimento do boato de que as pessoas que tomassem a vacina contra varíola iriam ficar com feições bovinas. Hoje, o próprio presidente espalhou a mentira de que as pessoas que se vacinassem contra o coronavírus poderiam virar jacaré.

A vitória da ciência naqueles anos em que vacinação foi motivo de um levante popular contra o governo foi consolidada quatro anos depois, quando a varíola começou a matar muitas pessoas, fazendo com que a população passasse a correr para a fila da vacinação. O que se espera é que a história não se repita de forma trágica, quando a morte foi o preço do negacionismo para quem se recusou a vacinar.

Apesar de todos os avanços da Humanidade, com a possibilidade do conhecimento se expandir a uma velocidade impressionante diante da tecnologia que dispomos hoje, a regressão tem acometido uma grande parcela da sociedade, assim como ocorreu na Idade Média, quando a ficou entregue à ignorância, quando até mesmo os sábios ligados à Igreja a cultura era algo inútil e, portanto, ignoravam tudo o que foi produzido pelos filósofos antigos.

Esse é o grande perigo, em que as fake news parecem ganhar força diante da ignorância das pessoas e de um sistema político que usa o negacionismo como forma de alienação para um propósito maior e perigoso. A campanha contra a vacina é apenas uma parte desse grande instrumento em favor do emburrecimento da população para esse propósito.  

*Colunista