MINHA RUA FALA - Folha de Boa Vista
Por Francisco Cândido
Em 18/06/2022

GUARDA TERRITORIAL FRANCISCO PAULINO DA SILVA
(Chico Paulino), nome da rua que passa no sentido Norte/Sul ao lado da Faculdade Cathedral.
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O Presidente da República Getúlio Dornelles Vargas, a pedido do Governador do Território Federal do Rio Branco (Roraima), o capitão Ene Garcez dos Reis, criou através do Decreto Federal nº. 002/44 de 26 de novembro de 1944, a Guarda Territorial, subordinada à Divisão de Segurança e Guarda (DSG). A DSG era a Polícia Civil, à época. O primeiro Chefe-de Polícia (espécie de Delegado) foi o senhor Pandiá Pires.

O primeiro comandante da Guarda Territorial foi o capitão Paulo Sóter da Silveira e, depois, no período de 1946-1947, foi comandada pelo Tenente Astério Bentes Pimentel e pelo subcomandante Raimundo Penafort; tendo como Diretor de Segurança o Tenente Estevam Guimarães.

O Guarda Territorial “Chico Paulino, nasceu no dia 24/06/1919, na cidade de Campos Sales/CE. Era filho de Joaquim Paulino e de Maria Joaquina. Ao ficar órfão de pai, Chico Paulino passou a cuidar da mãe e de todos os irmãos. Trabalhava como tropeiro de cargas, carregando e vendendo mercadorias em lombo de animais pelo interior do estado do Ceará. Casou-se com a senhora Raimunda Lima. O casal teve 15 filhos, 32 netos e 31 bisnetos). A senhora Raimunda foi servidora do Território Federal de Roraima pela Educação a qual exerceu a função de Inspetora de Alunos.

O sogro do Chico Paulino, o senhor Alcides Correia Lima, tinha vindo há alguns anos para o Território Federal do Rio Branco. E, Chico Paulino resolveu trazer a família para junto do sogro que estava aqui em Boa Vista. Saíram da localidade onde morava e foram até a cidade de Jeju, no Maranhão, e de lá até Pedreiras. Em seguida foram para a cidade de Coroatá, e chegaram à São Luís capital do Maranhão. Embarcaram em um navio e foram para Manaus, capital do Amazonas.

Com o Chico Paulino, vieram a esposa Raimunda, a sogra Laura Lima, o irmão dela Manuel Lima e seus quatro cunhados: Jonas, Noemi, Natan e Dalva. 
Em Manaus ainda esperaram 29 dias até aparecer alguém com um batelão que os transportassem até Boa Vista. 

De Manaus até Boa Vista gastaram mais 20 dias de viagem. Chico Paulino contava que muitas vezes tinha-se que descer do barco para empurrar, tirar a carga, carregar as malas nas costas, empurrar novamente o batelão, e depois apanha-lo mais a frente. Era o mês de abril de 1947, quando, finalmente, chegaram à Boa Vista, desembarcando no Porto do Cimento (onde hoje está a Orla Taumanan).

Da saída da família na localidade de Jeju no Maranhão até Boa Vista, foram três meses de viagem. Hoje, o mesmo percurso se faz em avião em 24 horas. 
O primeiro emprego de Chico Paulino foi como “Guarda da Legião Azul” – trabalhando na construção da estrada Boa Vista-Caracaraí. O grupo de trabalho, chamado de “Legião Azul” – devido a cor da roupa/farda que usavam-, foi criado à época pelo Governador Clóvis  Nova da Costa, no período de seu primeiro governo (28/05/1947 a 03/03/1949).

O serviço da construção da primeira estrada (Boa Vista – Caracaraí) foi realizado de forma manual, contando apenas com enxadas, pás, picaretas e terçados (facões) para cortar o mato e fazer os primeiros caminhos no lavrado em direção à Mucajaí e, de lá, até Caracaraí. 

Tempos depois, o governador mandou comprar um Trator em Manaus para ajudar na terraplanagem da estrada. Chico Paulino passou a trabalhar como Tratorista, tanto na estrada para Caracaraí, como na região do Surrão para a localidade de Bonfim, às margens do rio Tacutu, na fronteira leste com a Guiana.

De volta à Boa Vista, o Chico Paulino procurou o Tenente Astério Bentes Pimentel, à época Comandante da Guarda Territorial, e pediu-lhe uma oportunidade de trabalho. O subcomandante da Guarda, o tenente Raimundo Penafort (este era o pai do senhor Pedro José – que foi dono do hoje Hotel Aypana), apoiou o Chico Paulino e garantiu-lhe o emprego de Guarda Territorial. A instituição tinha como missão à segurança das fronteiras terrestres, marítimas e aérea. Além do policiamento urbano, a segurança das autoridades e a proteção dos bens públicos.

Mas, os Guardas Territoriais faziam de quase tudo. Eles, além da segurança dos bens públicos e ordem cidade, também limpavam as ruas, cavavam poços, abriam estradas e ainda descarregavam as mercadorias dos barcos no Porto do Cimento. Como se vê, eles praticamente carregavam o Território Federal nas “costas”.

Resulta que no dia 26/11/1975, o então governador Fernando Ramos Pereira, por meio do Decreto-Lei nº 6.270/75, extinguiu a Guarda Territorial e criou a Polícia Civil e a Polícia Militar do Território Federal de Roraima.

Quanto aos Guardas Territoriais, alguns tiveram a oportunidade de ingressar nas novas Polícias. Já outros, até pela idade, foram para casa e, com o apoio dos filhos, tentaram uma Aposentadoria. O que ocorreu depois é que os Guardas Territoriais, enquanto agentes de segurança e benfeitores de Roraima, não receberam um tratamento justo e digno do Governo Federal e muitos deles ficaram ainda mais velhos, outros doentes e a maioria já partiu para o Céu, deixando exemplos de trabalho, coragem e honradez, virtudes estas que foram transmitidas aos seus descendentes.

Em 1980, o Guarda Territorial Chico Paulino havia pedido a sua merecida aposentadoria e passou a cuidar mais da família e fazer o que mais gostava: pescar. Na beira das praias dos rios, ele ficava horas a pescar enquanto passava na memória o filme de sua trajetória de vida, as doces lembranças dos filhos crescidos, as amizades constituídas e a evolução da cidade que nela trabalhou, a viu crescer e desenvolver-se. 

A Polícia Militar de Roraima, por iniciativa à época do comandante o coronel PM Márcio Santiago de Morais (hoje já falecido), prestou uma homenagem aos Guardas Territoriais (vivos), que foram convidados com seus familiares para uma solenidade no quartel da Polícia Militar. Na ocasião, receberam comendas e diplomas de Agradecimento por tudo que fizeram em prol da Segurança Pública de Roraima. 

O mesmo fez a Assembleia Legislativa do Estado de Roraima. Por iniciativa dos deputados estaduais, foram criados através do Decreto Legislativo nº 009/99, de 23/11/1999, o “Diploma de Honra ao Mérito” e a Medalha “História Viva de Roraima”. Um dos homenageados, na Sessão especial realizada no Plenário da Assembleia, no dia 25/11/1999, foi o Guarda Territorial Francisco Paulino da Silva (Chico Paulino), pelos relevantes serviços prestados por ele ao povo roraimense. 

Pode-se dizer que os Guardas Territoriais foram “Sentinelas do Brasil no extremo Norte da Pátria” (1944-1975).

Chico Paulino, o galante Guarda Territorial Francisco Paulino da Silva, faleceu no dia 02/03/2005. E, a senhora Raimunda Lima da Silva, servidora pública aposentada, nascida no dia 17/09/1925, faleceu no dia 22/06/2018.

São filhos (vivos) do casal: Itamar, Elias, Franciléia, Lauriléia, Lenir e Daniel.

Filhos (In memoriam): Leia, Eli, Abraão, Ozéas e Moisés.

Todos com o sobrenome: “Lima da Silva”.

A Câmara Municipal de Boa Vista aprovou a Lei de nº 827/05, de 23/11/2005, publicada no Diário Oficial do Município, sob nº 1615, datado de 02/12/2005, redenominando a antiga Rua L-C, no Bairro Caçari, com novo nome: “Rua Francisco Paulino da Silva (Guarda Territorial Chico Paulino)”.

Esta rua é a que passa no sentido Norte/Sul ao lado da Faculdade Cathedral.

Francisco Cândido
franciscocandido992@gmail.com
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