Por Francisco Cândido
Em 19/12/2018

IMPRENSA E PODER

A imprensa parece destinada a conviver com a ambigüidade em vários setores, e isso não por acaso, mas em função de seu papel mediador, dividida entre dois ou mais domínios distintos, duas ou mais solicitações, por vezes, contraditórias. Sempre que a mediação não obedece a normas rígidas, ela cai na ambigüidade. Não que a imprensa não se imponha certas normas e não procure respeitá-las, mas não são normas rígidas e imperiosas como as que sujeitam o juiz à decisão de uma causa, por exemplo. A imprensa, que é a arte da comunicação exercida por meio dos veículos de massa, encontra seu patrono em Hermes (Mercúrio), o deus mensageiro, velocíssimo, com asas nos pés, que podia viajar por toda a parte num piscar de olhos (Mircea Eliade). Hermes era o menos olímpico dos deuses; gostava de misturar-se com todos, sabia indicar aos viajantes o caminho certo, mas também se divertia em enganar os outros. Um deus meio sem-vergonha. Certa vez, advertido por Zeus, seu pai, de que não deveria mentir nunca, respondeu-lhe, atrevidamente, que tudo bem, mas mesmo assim ele não estava obrigado a dizer a verdade por inteiro...

A primeira grande ambigüidade da imprensa, do jornalismo, diz respeito à História. Geralmente, pensa-se que o jornal é o registro diário da História, e o próprio jornal é o primeiro a fazer acreditar nisso, mas não é bem assim. O que o jornal registra é a atualidade, o flagrante do que está ocorrendo, e em seus arquivos armazena a memória dos séculos. Agora mesmo, por ocasião deste final de século e de milênio, os jornais, as revistas, as televisões editam retrospectivas completas dos últimos 100 ou 2000 anos. Mas será a História uma questão só de memória? Parece que não. História é, sobretudo, a compreensão dos fatos em sua trama, em seu tempo-espaço, em seus personagens, o que exige seleção, análise, reflexão. Será a História questão de flagrante? Existem fenômenos históricos substantivos, de consequências ilimitadas, que jamais afloram como flagrante na atualidade e, por isso, escapam ao registro jornalístico. Se na Renascença existissem tantos jornais como hoje, nenhum deles noticiaria que "foi descoberta a beleza da paisagem" ou que "a natureza tem estrutura matemática" (Marías). Muita coisa de suma importância estará acontecendo agora que não chega às manchetes, e muitas coisas que os jornais anunciam com tanto alarde amanhã estarão tão esquecidas como as nuvens do ano passado. O jornal reflete o que passa, a História guarda o que fica.

Finalmente, a ambigüidade da imprensa com o poder é inevitável. Mas, de nada vale à imprensa ganhar o mundo e perder a alma. A alma da imprensa está em sua vocação de contrapoder. O horizonte do contrapoder não se limita de maneira alguma ao poder constituído no governo, na situação, mas inclui, igualmente, o projeto de poder sustentado pela oposição, o poder real e o poder virtual. E não alcança somente o poder político, ampliando-se ao poder econômico, com seus abusos constantes, e ainda ao poder da indústria do sucesso, consagrando falsos valores e fraudes de todo o tipo no campo da cultura e do entretenimento.

A necessidade de notícias – um “sentido social”, deve-se  ao fato  de que o homem sempre sentiu a necessidade de produzir e captar notícias, de informar-se sobre o mundo que o cerca e de tentar marcá-lo com sua presença. E nesse contexto podemos afirmar, pelos estudos e observações feitas, que as sociedades contemporâneas não são as primeiras a se obcecarem  com a notícia, mas as que têm poder de manipular a notícia, de dar ênfase ao que lhes interessa no sentido da desconversa, prestígio ou lucro, em detrimento do que lhes possam de alguma forma prejudicar.

Analisando a história da Imprensa Oficial de Roraima, cremos haver encontrado sinais visíveis das necessidades de demonstração de autoridade dos governantes que por aqui passaram, haja vista que o “Órgão Oficial” (depois chamado de “Boletim Oficial”) em seus primeiros números, tratava até de atritos pessoais entre o governo e a Prelazia - representada pelo bispo local-, além, evidentemente, de exoneração de pessoal. Exoneração essas que eram lidas, através do sistema de som da “Caixa D’água”, e posteriormente o mesmo teor do ato governamental também era divulgado na Rádio Difusora Roraima em seus primórdios de atividades, até como meio intimidativo contra possíveis adversários políticos dos governantes.

No contexto global, pode-se dizer, que a Imprensa de Roraima (desde os primeiros jornais até os atuais) traz em seu bojo a vida administrativa, social e econômica deste estado..

Murilo Bezerra de Menezes, na Imprensa Oficial (Foto: Arquivo)

Analisar, por exemplo, a história da Imprensa Oficial de Roraima (1944-2018), sua linguagem, de ontem e de hoje; principais fatos históricos registrados, as mudanças, quase constantes de governadores que  passaram por esse ex-Território e suas atitudes administrativas, são como panoramas visionários do passado desta terra, importantes eventos e fatos que devam ser do conhecimento da atual e das futuras gerações de Roraima, que um dia buscarão respostas para eventuais indagações sobre suas origens.

Toda iniciativa ou ação de um governo, reflete sobre a população governada. Assim, nada mais justo, que contarmos, através da Imprensa, os fatos em fotos e textos que compõe o panorama histórico de Roraima. Tudo isso, claro, sob o prisma do sentido social da notícia.

Francisco Cândido
franciscocandido992@gmail.com
Não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!
Últimas de
Minha Rua Fala
+ Ler mais artigos de Minha Rua Fala