Por Opinião
Em 04/08/2020

PALAVRAS DE DEUS

Walber Aguiar*

Que o poeta nos encaminhe e nos proteja (Drummond)

Era um dia como outro qualquer. Talvez nem fosse. Dia de entender por quem os sinos dobram. De tentar compreender por que um só Deus ao mesmo tempo é três. De dançar, conforme textos de Manuel Bandeira, com o Deus que está tanto na poesia quantos nos chinelos, tanto nas coisas loucas quanto nas disparatadas.

Assim, não dá pra encarar o divino no quadro estereotipado dos “artistas” do legalismo, dos “mestres” da religião farisaica, dos escritores da letra morta. Não dá pra conceber aquele Deus de queixo comprido, com cara de São Benedito, pois o rosto do Sagrado sempre tem que comportar o brilho das cores, a leveza do infinito, a efetividade da palavra poética.

Ora, ao elegermos um projeto de espiritualidade integral, ou holística, carregamos na bagagem cotidiana o louvor, o lazer, o trato com o dinheiro, a coisa pública, a indignação, a palavra profética contra os governantes corruptos e tudo aquilo que consiga comportar a vida.

Sem dúvida, a arte aparece como elementos redutivos do ser em conflito conseguem mesmo e com a complexidade existencial que o circunda.

Com isso, o Deus poeta se manifesta. Quando Paulo diz que somos feitura dele, quer dizer que somos poesia de Deus, verso do sagrado, estilização do autor de todas as palavras.

A arte de mexer com as letras e dar significado a tudo passa pela angústia de Drummond, quando o mesmo diz: Meu Deus / por que me abandonaste/se sabias que eu não era Deus/ se sabias que eu era fraco...

Também pela poética romântica de Vinicius de Moraes, pelo toque estilizado de Allinge Mafra Mcnight.

Deus se revela na face de Ferreira Gullar, com seu canto de protesto, sua rebeldia, seu desejo de entender a dualidade do universo no poema traduzir-se.

Também figura o divino na arte de Thiago de Mello, o poeta de Barreirinha, quando este traduz para vários idiomas sua declaração universal dos direitos do homem, onde menciona... Que a verdade será servida antes da sobremesa...

Ora, se Deus se reveste de simplicidade e calça as sandálias do pescador, isso pode ser revestido de poesia. No entanto, não dá pra ficar contando estrelinhas e rimando o universo sem a gravidade da palavra profética. Deus consegue vaticinar com gravidade, ainda que carregue consigo um carrinho de mão cheio de flores que enfeitam e dão cheiro à podridão pela qual somos abrigados a passar.

Uma das letras mais fascinantes de Renato Russo diz: venha/ meu coração está com pressa/ e vem chegando a primavera/ nosso futuro recomeça/ venha que o que vem é perfeição... Faz lembrar Salomão, quando diz que “a esperança que se adia faz adoecer o coração”. Embora as cabeças roxas da religião distorçam as palavras e hipertrofiem a graça do Deus poeta, este vai continuar redimindo através do belo e da sensibilidade das manifestações artísticas. Por isso, temos que captar cada detalhe que Deus deixa cair no caminho em forma de graça e ludicidade. O que passar disso pertence aos caretas, que não gostam de poesia nem tiram Deus pra dançar...

*Poeta, professor de filosofia, historiador e membro da Academia Roraimense de letras

wd.aguiar@gmail.com 

JESUS É A PEDRA FUNDAMENTAL DA IGREJA 

Marlene de Andrade*

“Este Jesus é ‘a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular’. Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos". (Atos 4:11,12

O apóstolo Pedro não residiu em Roma e nem se tornou o 1º papa da Igreja Católica Apostólica Romana. E tem mais: Pedro era casado, ao contrário dos papas que são celibatários. Ele não foi nomeado por Jesus para ser a pedra fundamental da Igreja, a qual surgiu 50 anos d.C. Não há um historiador que afirme que Pedro foi papa, até porque a Igreja Católica Apostólica Romana surgiu no século III d.C.   

Jesus disse a Pedro o seguinte: “... eu lhe digo que você é Pedro, (petrus) e sobre esta pedra (Jesus) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não poderão vencê-la..” (Mateus 16:18). Esta passagem pode dar margem para alguém entender que Pedro é a pedra fundamental da Igreja, mas tal fato, não é verdadeiro. A Pedra, a qual fundamenta a Igreja é o próprio Jesus Cristo. 

A palavra petrus, em grego, significa: fragmento de pedra, porém pedra é a rocha, ou seja, é o próprio Cristo Jesus. Pedro sabia que Jesus era Pedra de Esquina e não ele. Portanto, Pedro não foi a pedra fundamental da Igreja, e sim Jesus Cristo.   

Na Igreja Cristã Primitiva, a qual se iniciou 50 d.C não tinha papa, não rezavam missas, não pregavam a existência do purgatório e nem exigiam celibato. A Igreja Cristã Primitiva também não acreditava na transubstanciação do pão e do vinho, ou seja, não acreditava que a hóstia se transformava no Corpo de Jesus e que o vinho se transformava no seu Sangue. 

Ninguém àquela altura cria que existiam pessoas e infalíveis ao contrário da Igreja Católica Apostólica Romana, a qual crê que os papas são infalíveis. A Igreja Cristã primitiva também não fazia culto à Maria, veneração a imagens, uso de ramos e água benta, não usava velas, tampouco benzia a água e rezava terço, práticas essas oriundas do misticismo e não do cristianismo. A Igreja Primitiva Cristã também não canonizava pessoas, ou seja, não declarava que alguém tinha ido para o céu e se tornara santo e intercessor, pois não sabemos de nada que ocorre depois da morte. Além do mais: a Igreja Católica Apostólica Romana teve início 300 anos depois que Cristo ascendeu aos céus.  Então como explicar que o apóstolo Pedro foi o 1º papa?  

*Médica especialista em Medicina do Trabalho/ANAMT-AMB-CFM 

CRM-RR339 RQE-431 

DERRAMAMENTO BENÉFICO

Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorrega pelos olhos. (Bob Marley)

Você é sentimentalista? Eu estou ficando. Será que é problema da idade? E como será quando eu envelhecer? Mas vamos ficar tranquilo, porque ainda falta muito tempo. Mas estou com um comportamento esquisito. Os olhos começam a lacrimejar com facilidade. É só ter uma mulher na cena. Mas vou mais pela beleza e não pelos ocorridos. E é por isso que acho que a coisa está deferente. Lacrimejo sempre com uma notícia boa, e nunca com uma má. Se você é assim procure me analisar. Se não é, fique na sua e deixe-me chorar sozinho.

Estouem confinamento. E o espaço que posso ocupar com mais folga é a varanda, ali em frente, de onde observo movimentos que parecem banais, mas que não são. Várias vezes as observações me levam distante. E sabe onde vou parar sempre? Isso... aí mesmo.Em Boa Vista. E as observações, me trazem e as jogam no meu coração, lembranças, com desenho de saudade. E sempre caio nessa. Mas é gostoso pra dedéu.

Olho para aquelas crianças brincando nos escorregadores da Praça, acompanhadas por pais e parentes, em idades diferentes. Aí me lembrei das netinhas e bisnetinhas aniversariantes, aí na cidade que adoro: Boa Vista. Não é todo mundo que tem essa felicidade. São quatro que aniversariam no mesmo dia do mesmo mês: Márcia, Divina, Melinda, e Milena. Foi um festão e não tive a felicidade de estar presente. Mas já passou, embora não tenha saído da tarefa de encher meu coração de saudade. E foi por isso que ela começou a querer escorrega pelos meus olhos.

Sorri para as crianças da Praça, que não me viam. E daí? Que importa se elas viam, ou não. O que importa é que elas estavam levando-me ao encontro de uma família que adoro, venero e sinto ficar distante dela.Continuei abrindo caminho para o pensamento que nessas horas caminham mais rápido do que a luz. Há horas em que eles me levam aonde nunca eu imaginara estar. Continuei voando por um céu que nem é céu nem é azul. Novamente sorri pensando o que teria levado o Antônio Vieira a dizer isso.

Mas como isso não interessava, parei na viagem. E foi exatamente quando a dona Salete chegou e falou em tom de admirada:

- Oi, bem... Que é que você tá fazendo aí? Não se lembra não? Você se esqueceu de lavar a louça do café. Mas se não vai lavar, eu lavo. Tem nada não.

- Tudo bem... Tudo bem... Tô indo, tô indo...

Sem que percebessem, mandei um tchauzinho para as crianças da Praça e para minhas netinhas e bisnetinhas, de Boa Vista. Lavei a louça e vim bater esse papo com você. Coisa que eu adoro fazer. Pense nisso.

*Articulista

Email: afonso_rr@hotmail.com

95-99121-1460

Opinião
fale@folhabv.com.br
Cadastrar-me Enviar Comentário
Não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!