Por Opinião
Em 10/09/2020

APRENDENDO A APRENDER

Lucia Moyses*

De uns tempos para cá, um novo conceito, aliado à tecnologia, foi inserido na vida dos que desejavam cursar o ensino superior: o EAD, ou ensino a distância. A maioria das faculdades, hoje em dia, apresentam a opção de se estudar em casa, online, ou de ter aulas presenciais. No entanto, mesmo cursos presencias inserem um ou dois dias de EAD durante a semana. É bom? É ruim? Cada um tem uma opinião diferente. O fato é que a tecnologia veio para ficar e precisamos nos adaptar a ela.

Hoje, com a ameaça do Covid-19 e a quarentena, a tecnologia provou que o futuro talvez esteja mais próximo do que se imagina. Trabalhar em home office, estudar em casa, fazer compras pela internet, enfim, a tendência é que as pessoas se isolem cada vez mais no conforto e segurança do seu lar.

Mas e as crianças? Como está sendo para elas essa nova realidade? E para os pais que agora se veem cada vez mais inseridos nos estudos dos filhos? Simplesmente largar a criança ou adolescente em frente ao computador e esperar que eles aprendam é producente?

Desde março deste ano, as escolas fecharam e não há previsão para que abram. Essa nova rotina impõe dificuldades e desafios maiores do que o imaginado. O isolamento social criou um conceito de ensino como solução temporária para dar continuidade às atividades pedagógicas e minimizar os impactos da aprendizagem: o ensino remoto. A estrutura do ensino remoto não é a mesma do EaD como tecnologia, recursos utilizados, interação com o professor, videoconferência, material de ensino e outros, uma vez que seu objetivo é contingente. Será? 

Para os professores, essa nova experiência requer muita criatividade, muito mais empenho e maior dedicação. São verdadeiros heróis e, embora sempre tenham sido, agora, mais do que nunca, demonstram o seu talento e comprometimento.  Alguns precisam utilizar laboratórios virtuais, simulações, videoaulas. Precisam criar interesses e estratégias de forma que as aulas sejam mais eficientes e o aluno se sinta motivado a estudar e aprender, mesmo a distância. A carga horária desses profissionais aumentou muito e seus esforços dobraram. Alguns professores chegam a ficar tensos, sabendo que os pais estão acompanhando as aulas e se preocupam não só em ensinar os alunos como em satisfazer aos pais que poderão julgá-los.

Para os pais, a tarefa não é menos árdua. As mães que antes já tinham uma carga de trabalho triplo, revezando entre o cuidado com filhos, casas e emprego, agora ainda enfrentam uma nova missão: estudar com os filhos. As crianças, principalmente, precisam que os pais desempenhem diversas funções que eram exclusivas dos professores. Quanto mais nova a criança, maior a participação dos pais, que passam a ser os braços e pernas dos docentes.

E quanto aos jovens alunos?  Como está sendo esta experiência para eles? Certamente o aprendizado é muito diferente. As crianças e os adolescentes ficam mais livres, desligam a câmera, assistem às aulas, mas, ao mesmo tempo, conversam com os colegas, assistem ao Netflix, dispersam-se facilmente e precisam de mais disciplina para aprender.

As opiniões variam entre os pais. Alguns afirmam que o ensino piorou, que não há aulas suficientes e que o aprendizado está bem inferior. Outros dizem que as escolas estão passando mais atividades, estão sobrecarregando os alunos para compensar a possível deficiência de uma aula virtual. Existe, também, uma preocupação com o tempo excessivo que os filhos passam em frente ao computador.

Alguns alunos, segundo pais e professores, se deram muito bem com essa nova forma de estudar. Outros, no entanto, não conseguiram se adaptar. Não fazem o que é necessário, não conseguem se organizar, deixam as tarefas se acumularem e acabam ficando sobrecarregados e perdidos.   

E quanto às crianças e adolescentes com problemas de aprendizagem? Alunos com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) já apresentam dificuldades em se concentrar em uma aula presencial, o que dizer de uma aula virtual onde há muito mais distrações e formas de se perder o foco? Em um ambiente presencial o professor tem mais condições de acompanhar seus alunos, o que não ocorre no ensino remoto. Assim, cabe aos pais suprir a dificuldade que seu filho apresenta na hora de aprender.

Hoje diversos neurocientistas defendem mais aulas com menos duração e intervalos entre elas, para que o cérebro consiga aprender mais efetivamente. No caso de crianças e adolescentes com TDAH, principalmente, a curva de aprendizagem poderia melhorar. Como essa não é uma realidade em nossas escolas, uma vez que vários outros fatores precisam ser considerados, a solução temporária, especialmente no isolamento, seria incentivar o filho a focar sua atenção em pelo menos 15 minutos de uma vez e recompensá-lo pelo esforço nos intervalos, que podem ser de cinco minutos.

Enfim, estamos todos vivendo uma nova experiência e quanto antes nos adaptarmos a ela, melhores resultados teremos.

No entanto, nem tudo é negativo.

Os adolescentes aumentaram o grau de independência e aprendizado dentro de casa, inclusive nas tarefas domésticas. A autonomia aumentou. Precisaram ficar mais familiarizados com o mundo digital. Até mesmo com o contato digital entre os amigos. Aprenderam sobre flexibilidade e adaptação. Sobre disciplina e autonomia.

Pais que passavam muito pouco tempo com as crianças, agora precisam interagir mais com os pequenos, entrar em seu mundo infantil como era antigamente, participar mais das brincadeiras e auxiliar na criatividade e curiosidade da criança, não apenas nos fins de semana, mas todos os dias.

Bom ou ruim, melhor ou pior, o fato é que a realidade de hoje é essa. É preciso se adaptar e tirar o melhor da situação. É preciso reaprender a aprender. Afinal, quem garante que esse não será o nosso futuro? Só o tempo dirá.

*Psicóloga, neuropsicóloga e escritora (www.luciamoyses.com.br)

O ESTRESSE NO TRABALHO E O RISCO DA SÍNDROME DE BURNOUT

Empresa é um sistema vivo feito de corpos singulares e não de corpos padronizados

Simone Bambini*

A maioria das empresas lida com suas equipes de trabalho como se elas fossem parte de um corpo único. Todas, obrigatoriamente, devem estar alinhadas ao discurso e às práticas da cultura organizacional - missão, visão e valores. Os empregados que formam estas equipes compartilham desse discurso e prática e, de certa forma, firmam um "pacto" (por meio dos diversos treinamentos e os processos da comunicação) para cumprir a missão organizacional da empresa para a qual trabalham. Nesse ambiente voltado apenas para o objetivo organizacional, não se percebe que o corpo que "veste a camisa única da empresa" é constituído de corpos singulares repletos de histórias, medos e fantasias. Afinal, uma empresa é um sistema vivo feito de corpos singulares e não padronizados pela cultura organizacional no seu modelo de gestão idealizado.

Muitos dos sofrimentos e doenças que hoje se revelam presentes nas relações do trabalho e nos diversos conflitos gerados entre chefia e subordinados poderiam ser amenizados pelo aprendizado de percepção sensória do corpo.

Toda emoção e sentimentos são provocados pelo metabolismo químico e físico de cada corpo. É no nosso sistema nervoso que estão reunidas as informações sobre os ambientes interno e externo do nosso corpo. É ele que comunica e controla nossos movimentos e sensações corporais.

Quando estamos diante de uma ameaça (mostrar nosso desempenho diante das metas estabelecidas, por exemplo), nosso corpo reage, nos prepara para isso, há um estresse. A função do estresse, vale frisar, não é causar doenças; pelo contrário, é nos ajudar a reagir e lutar diante dessa situação para garantir nossa sobrevivência. O corpo providencia o combustível e as ferramentas necessárias: energia, oxigênio, força muscular, resistência à dor para garantir a boa performance na conquista dos objetivos. E não só isso: nos prepara também para o segundo desafio, a divulgação dessas conquistas na reunião de diretoria, diante dos "parceiros competitivos" para garantir sua reputação, credibilidade e deixar sua marca nesse legado.

A reação ao estresse é um sistema poderoso que acentua nossa atenção e mobiliza nosso corpo para lidar com as situações ameaçadoras. Esse sistema começa a causar doenças quando ele é desequilibrado e fica ativado de maneira permanente. Não é normal que esse sistema, planejado para nos proteger, torne-se ele mesmo uma ameaça. Situações ameaçadoras não podem ser permanentes, não fomos preparados para isso. É quando corremos o risco de adquirir a já ligeiramente famosa Síndrome de Burnout. E quando acontece, nem nos damos conta de quando começou.

Não fomos ensinados a observar nossas sensações corpóreas (conforto e desconforto) e compreender que nosso corpo é a nossa própria vida e que possui recursos de alta complexidade para lidar com as adversidades da vida. Só podemos transformar as emoções que nos causam sofrimento se estivermos conscientes da autonomia do nosso corpo.

*Doutora e mestre em Comunicação e Semiótica, coordena e leciona no curso de Relações Públicas da FAAP. Terapeuta em Experiência Somática, é também autora do livro "O corpo como posicionamento da marca na comunicação empresarial".

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