Por Opinião
Em 26/09/2020

PENSAR, CRITICAR E AVALIAR É PERIGOSO PARA QUEM EXERCE DOMÍNIO, POMPA E PODER

Wender de Souza Ciricio*

Se existiu uma civilização acima de seu tempo foi a Grécia Antiga, sobretudo a cidade de Atenas. O mundo antigo foi marcado por civilizações que tiveram em comum o investimento na agricultura e pecuária. Investiram e se desdobraram para se manterem por meio do que plantavam e criavam nos pastos. A Grécia surge nesse contexto com nuances e traços diferenciados. Acabou, por estar situado num ambiente físico e litorâneo, buscando outras formas econômicas como, por exemplo, o comércio marítimo. Nessa conjuntura desatacam-se duas cidades. A primeira Esparta, cidade oligárquica, militarizada e com economia agrícola. A segunda é Atenas que, acima da militarização, se preocupou em pensar, isso mesmo, fazer uso da razão. Essa cidade torna-se no contexto histórico um fascínio, uma cidade a ser apreciada e sugada em meio aos seus desdobramentos, principalmente, quando se discute ideias, inteligência e racionalidade. De Atenas surgiram grandes pensadores que nortearam os debates políticos, morais, estéticos e todos os demais temas que transcorrem nas veias de uma sociedade.

No que tange ao debate político, Atenas se viu encurralada por crises políticas motivadas pelas disparidades sociais em que algumas classes sociais oprimiam e outras eram oprimidas. A percepção dessa desigualdade e opressão se deu porque os habitantes dessa cidade resolveram apostar no debate, na discussão e capacidade de falarem com lógica, coerência e altivez. Estudaram, foram para as academias dos intelectuais como Platão, Xenofonte e Aristóteles e tiveram ousadia para falar e falar alto diante de plateias enormes reunidas em espaços públicos como a “ágora”. Essa cidade primou pela escola, pela faculdade e pelos estudos.

Atenas revela a diferença entre quem pensa e quem é incomodado pelo pensar dos outros. A peneira que se usa para analisar as “entrelinhas” a tentativa de manipulação por parte do outro e sobretudo da classe que domina são os estudos, a leitura dos livros, o sentar numa sala de aula, o ouvir quem fala com a autoridade de alguém que pesquisou e entrou no laboratório da ciência. O mundo tal como ele é só pode ser apalpado por quem paga o preço de estudar, estudar e estudar.

O que tem desmantelado e corroído essa postura e essa gana pelo estudo que conduz a um pensar próprio é a força que os donos do poder e da posse material tem em desqualificar a classe pensante. A classe quem tem o dinheiro, o status e o mando político em suas mãos, principalmente no Brasil, não se sente confortável em ver outros, que estão fora desse círculo ou quadrado, com capacidade de pensar, criticar e avaliar. Tremem em suas poltronas confortáveis e ali mesmo desenvolvem estratégias para desqualificar, diminuir e desmantelar esse lado da sociedade que, por meio dos estudos, podem elucidar e denunciar esses nobres que crescem, desenvolvem em detrimento de uma maioria que morrem sem ver direitos sendo atendidos.

A forma de desqualificar a classe pensante, por parte dos mandatários é diversa. Algumas consistem em criar rótulos, apelidos e nomenclaturas que gerem dúvidas e desconforto em quem se aproxima da classe pensante. No Brasil atual são chamados de doutrinadores, partidaristas e socialistas. Pensar diferente ganha essa sina, pronto e acabou. Depois rastreia os pensantes do passado que influenciaram a classe pensante com suas teses e ideias. No Brasil de alguns Paulo Freire virou monstro. A facada faz mais estragos quando diminuem recursos para educação tirando verbas e deixando de gastar com pesquisas. Congela salários e insistem em delimitar conteúdos que não lhes agrada, tido como nocivo e perigoso. Não admitem que estão apenas mudando a “doutrina”. E como existe uma forte rede social, a classe do domínio, usa e usa com força desmedida para assim ganhar adeptos, fanáticos e aqueles que pensam que ao ler uma página de livro já tem a força e o domínio da sabedoria e que acabam debatendo  com os “doutrinadores” sem considerar que podem estar forçando uma nova doutrina. E assim o poder de mando busca se perpetuar sem incômodos e oposição.

É obvio que não é pecado ter opções sobre quem deve exercer o poder em um país, estado ou cidade. O sujeito pode amar o Y ou X, só não pode esquecer que somos plurais e que temos a necessidade de pensar, criticar e avaliar. Essa coisa de pensar e avaliar é parte do modelo de uma sociedade inteligente, que cresce, que flui, que respeita e valoriza os seus a medida de suas necessidades e direitos.

Historiador, psicopedagogo e teólogo

Email: wenderciricio@gamil.com

OS LUDIBRIADOS

Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Há duas maneiras de perder a liberdade: quando os bobos são ludibriados pelos patifes, e quando os fracos são subjugados pelos fortes.” (Voltaire)

A verdade é que sempre fomos tanto ludibriados quando subjugados. Porque patifes é o que não falta na nossa política. Você não imagina o quando me dói e aborrece, falar dessa maneira. Mas não tem como ser sincero, escondendo a verdade que nos fere, constrange e aborrece. Vivi toda minha juventude no meio político. Convivi com grandes políticos brasileiros e tive grandes amigos entre eles. Mas também tive patifes, com os quais aprendi a ser e ficar mais esperto. E a única maneira de eu me livrar definitivamente deles, foi jogá-los para a lixeira do esquecimento.

Nunca se sinta inferior sempre que for enganado por alguém. Em vez de se aborrecer, olhe-se no seu espelho interior e se pergunte: ele me enganou ou eu me enganei com ele. Eu fiz isso. Concluí que não fui suficientemente esperto enquanto políticos patifes me exploravam, enquanto eu, tolamente não percebia. Faça isso. Seja mais esperto e você se tornará um experto no assunto. E inicie seu trabalho de aprendizado, no exame das urnas.

Veja e analise com maturidade, que tipo de político você está elegendo para melhorar o nosso País. Você, como todos os brasileiros, tem o poder de mudar o rumo do País. E não adianta sair gritando pelas ruas, contra os descontroles vergonhosos que vivemos atualmente, e que vêm de longa data. Só aprendemos com os erros quando somos capaz de analisá-los. Inicie o aprendizado sabendo-se responsável pelo seu voto. E ser responsável é saber o que está fazendo no que faz com o poder de mudar o que está errado.

Que analise você está fazendo no seu candidato para as próximas eleições? Ou você não está sabendo que precisamos aprimorar nossa política? E a verdade é que não conseguiremos melhorar, enquanto não formos um povo realmente educado politicamente. E isso deveria estar nos currículos de nossas escolas. Mas, quem está interessado nisso, dentro da política atual? Nunca vote no candidato que tenha passado pela justiça durante ou fora do sem mandato.

Assuma sua condição de cidadão. Mas não se esqueça de que ainda não somos cidadãos. Ainda não temos a liberdades da cidadania. Ainda somos obrigados a fazer por obrigação, o que deveríamos fazer por dever. A obrigatoriedade no voto não existe numa democracia. Mas para termos o voto facultativo temos que nos educar. Converse sobre isso com seu candidato. Observe a reação dele. A responsabilidade é sua. Tome a decisão certa. O resultado, no futuro será sua responsabilidade. Pense nisso.

*Articulista

Email: afonso_rr@hotmail.com

95-99121-1460

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