OPINIÃO - Folha de Boa Vista
Por Opinião
Em 14/07/2021

O homem do espelho oval

Walber Aguiar*


Quem me dera ao menos uma vez que o mais simples fosse visto como o mais importante.

Renato Russo


Ele vivia naquela casa simples com cadeiras na calçada, com cajueiros no quintal, abacateiros, manguitas, que sempre fazia questão de dar. Passeava quase levitando, na imanência dos dias, com os pés descalços no terreiro cheio de sombra, chicória, cupuaçu, cidreira e capim santo. A casa foi feita para ser o lar de Cazuza e dona Otília. Construída em cima de mirixis e batatas doces que pai-lá plantava, junto com bananeiras; tesouro doce, feito as ingás de dona Inês, bem ali do lado.

Tudo era muito simples, como simples era o homem menino que ali morava. Junto com Joaquim, durante algum tempo, com quem repartiu abrigo e boas palavras, com firmeza e sensibilidade. Um dia vovó partiu, e a casa do bairro de Aparecida ficou ainda maior, pois seu quarto, sempre imexivel, ficou enorme feito sua mala centenária, que testemunhou todos os atos e pessoas que por ali passaram.

Depois foi a vez de Joaquim. Ausente o pescador de peixes e de amizades, o espaço foi crescendo, crescendo, absorvendo a figura cheia de ética e grandeza que ali vivia. Um rapaz que amou poucas mulheres, que fez chorar Eneida e suspirar tantas outras almas femininas. Com uma delas teve um filho, Leonardo, único e intensamente amado, mesmo à distância. Leonardo, que estava com ele na hora final.

Antônio Carlos David. o tio Carlinhos, ou Cazuza, viveu como bem entendeu viver e se vestiu de enorme simplicidade. Pedalava sua monark vermelha, enquanto cruzava a rua Aruaque, na direção da "Folha de Boa Vista", onde apanhava o jornal todos os dias, bem manhãzinha. Levava o periódico religiosamente até a casa da Coronel Mota, onde desfraldava poemas e palavras diante dos olhos atentos de seu Genésio e dona Maria . E fazia isso com orgulho. Aliás, tudo que ele realizava tinha muito de vontade e satisfação.

Cazuza desenhava muito bem e foi tenor no coral da secretaria de educação, com o maestro Dirson Costa e tantos outros. Seus traços viraram ideias, atitudes e a existencialização do que viria a ser. Passou a limpo o borrão da vida e sorriu diante da saudade e da dor. Colecionou amigos e acumulou tesouros no céu, onde a traça não consome e a ferrugem não corrói. Por onde passava, acenava. No bar do Pará, onde tomava uma cervejinha bem gelada, no trabalho, no lugar onde se ergue o busto de Ottomar de Souza Pinto. Ali era respeitado, querido, amado. Sempre levava um sorriso no rosto e um lanche para os que tinham encarado a longa jornada semanal.

Carlinhos era assim, feito à imagem e semelhança do santo cuja igreja frequentava com muita constância, devoção e alegria: São Francisco, amigo dos bichos, das plantas, do sol e da lua; uma figura sedenta por Deus, cheia de intensa espiritualidade no coração. Se "alguém é tanto mais santo quanto mais humano seja", então Cazuza era portador de enorme vida com Deus. Era de uma extrema humanidade, desde o ato de botar comida e água pros passarinhos até o cuidado com as feridas dos cães que nem dele eram.

Um carro, uma moto e uma coleção de amigos. Sidney, Wallace, Carmono, César Baiacu, Raulino, Caboco Clério, Williams, Magno velho e todos os sobrinhos, filhos de tia Zélia, Maria Messias e tia Dica. Também de Francivaldo Galvão, com quem batia longos papos sob as mangueiras mágicas do quintal de dona Otília. sorvendo uma antártica bem gelada. E aqui, peço perdão por não lembrar de todos os amigos, como Índio Bessa, Joãozinho, Eronildes, Patinhas, Cachorrão e toda a gente boa que com ele caminhou na trilha do existir.

Meu tio era indescritível. Indignava-se com a injustiça, a corrupção, o saque, a ladroagem, a opressão com que são tratados os que se vendem por cem reais e os que pagam o pato por se manterem bons, éticos e justos. Cazuza nunca deixou de ser menino. Nunca perdeu totalmente seu sorriso maroto, sua inocência bonita, coisa ingênua e morna que muitos deixaram e deixam pelo caminho.

Era uma tarde morna. Nunca ia lá pra passar uma chuva. Sempre demorava duas, três horas, às vezes a tarde inteira. Creyse e Cleres também iam lá. Creyse levava Renato para conhecer e conversar com o tio, a quem ele chamava de "camaradinha legal". Penso que o menino Renato deve ter aprendido um pouco da simplicidade daquele homem, daquele jovem que portava um espelhinho oval no bolso e uma escovinha, chamada por seu Gernésio de pente de malandro.

Oferecia suco, água, manguita, um pouco de peixe que sobrava do almoço. Sei que ele tinha muitos livros e um enorme quadro com Wanda, na parede, do qual tinha muito orgulho, feito no auge da juventude dos dois. Sei que ali estão a TV, companheira da solidão e da insônia, o sofá onde ele deitava, o velho ventilador que girava no ritmo em que Cazuza levava sua vida: devagar e sempre.

Cleres sempre estava lá, na tentativa de compensar a ausência de muitos que partiram para o Eterno e a eternidade. Brincava de ser simples com aquele discípulo de São Francisco, que sempre estava ali, entre cachorros, plantas e passarinhos.

Qualquer dia desses vou passar por ali, na tentativa de reabastecer o espigão de minha alma com as energias da simplicidade e daquilo que se constitui no autêntico existir, no mais amplo significado da verdadeira vida.

Sei que vou lembrar sempre do seu sorriso, do seu olhar franco, como que querendo agradar através de palavras cheias de singeleza e alegria de coração. Lembrarei da bicicleta vermelha, da manga madura, do abacate e, sobretudo, daquele rapaz latino-americano que portava uma escovinha e um espelho oval no bolso...

Adeus menino Cazuza, um dia nos encontraremos nos terreiros celestiais, cheios de sombra, cajueiros frondosos e uma grande revoada de passarinhos...



*Poeta, professor de filosofia, historiador, membro do Conselho de Cultura e membro da Academia Roraimense de Letras

O Estatuto da Criança e do Adolescente comemora 31 anos

Dra Dolane Patrícia*

Criado em 13 de julho de 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente, também conhecido como ECA, traz regras sobre os direitos e deveres de crianças e adolescentes.

Nesse e em outros contextos, nunca é demais levantar temas sobre a proteção da criança e do adolescente. Principalmente quando se fala em proteção da sua dignidade, uma vez que a violência sexual, apesar de ser um crime repugnante, ainda não foi combatido e ainda é um dos maiores problemas enfrentados nos dias atuais.

A violência sexual praticada contra crianças e adolescentes estão entre as situações que mais geram comoção na sociedade. Nos últimos anos, não foram poucos os casos de abuso sexual, exploração sexual, pornografia e outras violações de direitos registrados em todo o país.

Os casos mais frequentes são entre crianças até 9 anos de idade, esse é o segundo principal tipo de violência, ficando pouco atrás apenas para as notificações de negligência e abandono.

É impossível ler, sem que lágrimas brotem dos nossos olhos, notícias de crianças sendo violentadas pelos próprios pais. Sim isso existe!

O site elo.com informa que, “de forma geral, a exploração sexual infantil trata-se do abuso sofrido por uma criança a qual, por vários fatores, como situação de pobreza ou falta de assistência social e psicológica, torna-se fragilizada. Entretanto, para além das possíveis vulnerabilidades decorrentes da situação socioeconômica - estão outros aspectos, fato que explicaria uma maior vulnerabilidade das meninas, tão expostas à violência contra a mulher até mesmo no ambiente familiar. Além destes, existe o vícios das drogas e o chamado turismo sexual, o qual consiste na chegada de vários estrangeiros a regiões como o Nordeste brasileiro em busca de sexo. Todos estes são aspectos importantes para a compreensão da violência contra a criança.”

É dever da família e da sociedade assegurar à criança e ao adolescente, entre outras coisas, o direito à dignidade, a salvo de toda forma de exploração, violência e crueldade.

De acordo com Renato Eliseu Costa, colaborador da Agencia de Notícias, “o problema da exploração e abuso sexual ainda é um dos grandes problemas relacionados à infância e juventude que precisamos enfrentar em nosso Brasil. No entanto e infelizmente, a grande maioria dos casos não chega ao conhecimento dos órgãos competentes: menos de 20% dos casos são notificados. Isso se deve, principalmente, ao fato de que a grande maioria dos casos de abuso acontece no âmbito familiar, nos quais os agressores são os próprios tios, pais e primos das vítimas, situação que gera receio em realizar a denúncia.”

Infelizmente essa é uma realidade! Grande parte dos casos de abuso sexual ocorre por uma pessoa próxima da vítima ou por um próprio membro da família. Fico imaginando o que seria possível fazer para que crianças indefesas, adolescentes, pessoas com deficiência, não fossem abusadas sexualmente. É um ato de covardia, abusar de pessoas que não tem a menor capacidade de defesa, sendo obrigadas a praticar atos contra sua vontade, sendo muitas vezes ameaçadas e coagidas. Isso interfere no seu desenvolvimento físico e psicológico. É um ato de egoísmo também, deixar de pensar no semelhante. E se fosse um filho seu? Ou uma filha sua?

O site www.elo.com.br traz informações alarmantes sobre o assunto: “Este é um daqueles temas que se ouve muito, mas sabe-se pouco, no entanto tem sido motivo de preocupação do mundo inteiro. A exploração sexual infantil transformou-se no terceiro mais rentável comércio mundial, atrás apenas da indústria de armas e do narcotráfico. Além de ser um dos temas mais constrangedores ao Brasil, essa verdadeira onda de pedofilia está contribuindo para criar uma geração precoce de portadores do vírus da Aids. Dessa forma, a exploração sexual infantil constitui-se numa praga que exige medidas concretas e urgentes. Esta escravidão é inadmissível e incompreensível com a vida num mundo civilizado.”

Nesse ano a Igreja Adventista do 7º Dia, dentro da campanha Quebrando o Silêncio, através do Ministério da Mulher, traz uma inovação: o projeto Chá de bonecas e carrinhos, onde através de palestras em escolas e comunidades, além da própria igreja, crianças, adolescentes e clube de Aventureiros, estarão trabalhando de forma a prevenir esses abusos, orientando crianças e adolescentes a denunciarem, a procurarem alguém de confiança e apresentando casos de crianças que conseguiram se libertar procurando um professor ou alguém de sua confiança.

Musicas como “O meu corpo é um tesourinho” serão cantadas por crianças e adultos para ajudar na prevenção e orientação para que a criança saiba como agir nesse casos. Uma parceria do Ministério da Mulher e Ministério da Criança.

Na igreja Adventista Central de Boa Vista, estaremos trabalhando em conjunto com: Jaqueline Barcelar, Carine Elione, Marlise Menezes e os Pequenos Adoradores, que tem a participação de Hannah Isabelle, apresentadora de TV Infantil que estarão cantando e encenando, empenhados nessa campanha contra a violência sexual infantil. Os uniformes temáticos estão belíssimos.

Se você tiver interesse de ter uma palestra na sua escola ou comunidade do mês de agosto até outubro com a autora do Artigo, basta agendar no número (95)99111-3740.

Estuprar criança é algo doentio, crime de consequências infinitas na vida de uma criança, deixando em suas mentes marcas profundas, que nem mesmo o tempo é capaz de apagar.

Quando se pratica crimes com tamanho requinte de violência, a pessoa perde a noção de sua própria identidade, porque às vezes, crimes como estes são praticados por pessoas que possui família, filhos, mas que não pensam nestes. Se deixam simplesmente levar por um sentimento de posse doentio.

Tratam crianças e adolescentes como se fossem meros objetos, e estragam a vida e os sonhos de pessoas como Edvalda Pereira da Silva: “Ela tem onze anos, mas já aprendeu as manhas da profissão: não entra no motel, ou no carro, sem receber o dinheiro antes, guardado sempre por outra amiga. Não conhece o pai, e sua mãe, que trabalha na zona do meretrício, não se importa com quem e onde ela dorme. Edvalda se acha igual às outras meninas que fazem programa. Com uma diferença: “eu ainda não tenho peito”. (DIMENSTEIN. 1992, p.69).


*Advogada, juíza arbitral, palestrante, coach, escritora, apresentadora de TV, Mestre em Desenvolvimento Regional da Amazônia, Personalidade da Amazônia e Brasileira. Pós graduada em Direito Processual Civil e Direito de Família, Pós Graduanda em Direito Empresarial e Neurociência. Diretora do Ministério da Criança e criadora do Ministério Pequenos Adoradores, Instagram: dradolane_patricia. #dolanepatricia. Aplicativo Dolane Patricia




Vamos brincar


Afonso Rodrigues de Oliveira


A vida é para quem topa qualquer parada. Não para quem para em qualquer topada”. (Bob Marley)


O Bob Marley sempre teve razão nas suas falas maravilhosas. Por que parar numa topada? Se topou foi porque não olhou para onde estava pisando. Considere a falha e aprenda a olhar sempre para onde pisa. E assim é a vida. Por que ficar o dia todo se martirizando com os acontecimentos maus, se há outros bons para nos aliviar? Não permita que esta crise seja um desastre na sua vida. Ela é igual a tantas outras que já passaram por aqui e nos deixaram manchas, tanto quanto aprendizados. E ainda não aprendemos, porque ficamos de mentes presas às manchas.

Não perca seu precioso tempo parado, ou parada, diante da televisão ouvindo boboquices dos que deveriam estar nos incentivando a vencer os trancos. Enquanto ficarmos dando atenção aos debates vazios sobre vacinas, por exemplo, não podemos fazer nada para eliminar o vírus. Porque o maior vírus está na nossa ignorância. Já dei um toque, por aqui, sobre os problemas de desordens no Rio de Janeiro em 1910, com a criação da vacina contra o vírus da época. O médico Oswaldo Cruz criou a vacina e os cariocas protestaram, alegando a invalidade do produto. E as brigas e revoltas nas ruas não foram diferentes das de hoje. Até bondes foram incendiados, além das destruições, como protestos. Nada diferente de hoje.

Vamos nos civilizar, para que possamos progredir na nossa caminhada para a cidadania. Porque só quando realmente formos cidadãos, seremos realmente felizes. O Rui Barbosa já disse: “As demagogias são cataclismos passageiros”. Então não vamos perder tempo com demagogias e coisas tais. Os demagogos só se afastarão quando formos capazes de expulsá-los, através do voto cidadão. Mas para isso precisamos ser cidadãos.

Novamente vamos citar outra orientação que o Rui Barbosa nos dá: “Só as revoluções do direito são definitivas”. E as revoluções do direito são as mais difíceis de se fazer. Provavelmente somos o país com o maior número de leis ridículas. E não pense que estou sendo um revolucionário, contra as leis. Pelo contrário, as estou defendendo dos seus criadores. Mas, vamos mudar o rumo da prosa. Vamos prestar um pouco de atenção ao Blaise Pascal: “Incapazes de fortalecer a justiça, os homens legalizaram a força”. E legalizaram a força tirando-nos o direito do voto cidadão.

Tá... já observei você torcendo o nariz. Prometo que amanhã mudarei o assunto. Prometo que vou ficar o dia todo sem assistir à televisão. Mas não vou ficar indiferente. Vou fazer minha parte como ela deve ser feita. Nada de ficar no ostracismo. Pense nisso.


afonso_rr@hotmail.com

99121-1460








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Carlos Gomes disse: Em 14/07/2021 às 18:14:49

"Tive a oportunidade em conhecer o "Cazuza" quando eu ainda era adolescente, pelas ruas do bairro de Aparecida, ser humano dotado de simplicidade e de bom coração. Sendo que já na década de 90 me reencontrei com esse cidadão prestando seus serviços na Polícia Militar de Roraima, como funcionário civil, e tive o prazer de trabalhar como seu chefe imediato nos anos de 2015 a 2019 no Quartel do Comando Geral da PMRR. Pessoa prestativa e respeitador. Portanto, após sua partida, ser merecedor de estar ao lado do Pai Celestial em sua eterna morada."

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