Por Opinião
Em 15/06/2019

AS ESQUISITICES DO AMOR E OUTRAS TRAGÉDIAS Nº 06 - Hudson Romério

A pipa caia do alto ao sabor do vento...

Tão leve que nem a gravidade parece lhe afetar – sem direção certa, ziguezagueando pelos ares como um Ícaro louco... muitos pés e mãos a lhe perseguir e agarrar... vem caindo das alturas... tão colorida quanto emblemática: não tem asas, mas voa! 

Lá vem o amor em forma de horda! Uma legião de meninos corre atrás de um sonho feito de papel de seda, tala e linha – é a musa alada desses querubins descalços, de todas as cores e tamanhos, mas todos esses infantes têm a fé, a felicidade e a ingenuidade dos que dormem sem a tribulação do amor. 
(Todos numa disparada só! Atrás dos multicoloridos e desvairados papagaios!)

Os amores são assim: uns desejam aprisioná-lo numa linha e outros libertá-lo para os céus!

E lá do alto ela se esquiva... brinca entre as nuvens! Se esconde como o gato de Schroedinger – mesmo que se abra todas as portas, nunca saberemos onde está! Assim acontece com o amor, podemos ter todo o céu a nossa disposição, mas nunca saberemos onde vai estar!  Ele carrega esse estigma... está em todos os lugares ao mesmo tempo... e quando menos se espera, cai dos céus a nossa frente! 

(... porque o azul dos teus olhos, tornava mais azul o céu...)

Nesses ensandecidos verões de sonhos, esses varões que se multiplicam a cada dia, esses brinquedos alados que multicolorizam-se o céu em matizes, tons, semitons, degradês... dos muitos céus que um dia foi meu (quando eu era criança), e hoje, já velho, tão estranho e distante de mim –até hoje aquele garoto corre atrás daquela curica... até hoje ainda sinto a saliva do primeiro beijo. 

Nas minhas correrias de menino de rua, percorria distâncias inimagináveis... o lavrado parecia que não tinha fim – era como se tudo fosse uma coisa só: a cidade, o céu, as pandorgas, eu... e lá estava ela! caindo, caindo... como quem desse de uma escadaria ao encontro do bem-amado. 

(Suave e bela!)

Depois que conheci o amor, perdi de vez a beleza daquele curumim, o sonho de ter uma pipa só minha – o encantado primeiro beijo... que o céu além de azul era o infinito do qual um dia pensei em fugir....

(Porque aquilo que herdamos, não é o que queríamos!)

Com o tempo, ficamos presos às ruinas de nossas casas antigas... não conseguimos nos libertar desses destroços que tanto nos afligem e nos atormentam a vida. Dessas disrupções que nos causam profundas dores, nos marcam profundamente... é o aniquilamento diário de todas as vidas... desde que se nasci, até a eminente morte – acho que morri mais do que se vivi! 

(Pipas, papagaios, pandorgas, curicas... amores – voam pra tão longe! ...)

O que nos resta disso tudo? A resiliente e frágil existência que buscamos todos os dias! Das pipas que não caem mais do céu, dos meninos que se tornaram tristes homens – que nem para o céu olham mais!  Que hoje eu, sentado no meio-fio da rua de minha infância, a via já vazia, sem perspectiva! Hoje observo esse “tempo” como um cenotáfio: mesmo sabendo que não está lá... insisto em pensar...(que mesmo assim...), eu acredito no amor.

*Escritor e Cronista
hudsonromerio@gmail.com


A MUTAÇÃO... TERRA E VIDA - Carlos Augusto Matos de Carvalho*

A reflexão sobre as mudanças no mundo, em decorrência das intervenções da humanidade nos seus próprios modos de convivência e sobre a sua interação com o meio ambiente, sempre vêm acompanhadas de dúvidas, constatações, perplexidades, contradições e confluências de opiniões, portanto, de polêmicas. No entanto, não há caminho mais seguro para a maior compreensão dos fenômenos socioculturais, econômicos, institucionais e da natureza, senão por meio da mais ampla e irrestrita discussão. Assistir ao filme Powaqqatsi, de imagens e música, sem diálogos, permite um excelente panorama das transformações na terra. Powaqqatsi é uma palavra originária dos povos hopis, do tronco asteca (família uto-asteca), que pode ser traduzida como "vida em transição". Daí chega-se ao nome do filme “Powaqqatsi – A Vida em Transformação” (1888), do diretor Godfrey Reggio, com música de Philip Glass. O filme denuncia o modus vivendi da sociedade contemporânea e o custo do progresso, cuja abordagem tem a clara intenção de mostrar as contradições das sociedades na história, dentro de cada país e entre os países, sobretudo quanto às desigualdades e supremacia dos países do primeiro mundo às nações terceiro-mundistas. Tais fenômenos se repetem entre os cidadãos de uma mesma sociedade, onde há ricos e pobres, sendo os primeiros mais privilegiados quanto ao acesso aos bens imateriais (educação, saúde e poder) e materiais (dinheiro e propriedades), por exemplo. A civilização e o seu habitat (a terra) sempre sofreram pressões naturais como terremotos, maremotos, colisões com meteoros (vide a extinção dos dinossauros) e intervenções próprias do homem no cenário natural. Nas duas situações os comportamentos, hábitos, perspectivas e ações desses mesmos seres humanos se transformam, criando ciclos virtuosos (melhoria do bem-estar, desenvolvimento tecnológico, crescimento do conhecimento, etc.), mas também externalidades negativas (poluição, desigualdades econômico-sociais, violência, doenças, dentre outros). A tônica do filme é a de que os fenômenos naturais estão perdendo a “naturalidade”, potencializado sem tragédias anunciadas, devido à falta de cuidado e ações predatórias do ser humano para com o meio ambiente, o que agrava as condições de vida. A película que não tem falas, numa atmosfera rítmica intensa e penetrante, ao mesmo tempo tediosa ou triste, traduzida pela junção da música (ou músicas) e imagens, exigindo do expectador concentração, visão holística e imersão cuidadosa na divisão tênue entre o imaginário e a realidade que o filme procura traduzir. Com imagens justapostas, o filme apresenta objetos inertes e pessoas desesperançadas, confundindo-se com a vida frenética das grandes cidades, trabalhos intensos e degradantes, assim como com a própria natureza transformada pelas ações dos seres humanos. E tudo é um caos em aparente equilíbrio, pois não há certeza de que a desesperança cause total falta de esperança, já que as pessoas continuam e continuam a vida. Então, de onde vem a desesperança já que as mazelas vistas diariamente nos centros urbanos tornam-se “invisíveis” aos olhos dos citadinos? Essas disparidades cotidianas se transformam em cenas comuns, em que as pessoas se acostumam como diz Marina Colassanti no poema “A gente se acostuma, mas não devia...”. É possível inferir, numa dimensão ampliada, que os países mais poderosos também não se apercebem dos mais pobres. Em todo caso, os mais fracos sempre são “percebidos” para a exploração, a submissão, ficando eles, cada vez mais, distantes de uma vida digna. A projeção do filme em modo de reverso parece trazer um significado de mea culpa da humanidade, de vontade em voltar atrás, de corrigir os erros do passado. E a vida continua nessa perspectiva, sem muita esperança de que o modo de vida mude, embora seja arriscado asseverar que a humanidade não tenha esperança e que não venha a encontrar uma resposta mais equânime para atender as diferenças entre os homens e a sua relação com a natureza.

*Professor / UFRR; Mestre em Economia / UFRGS; Doutorando em Administração / UFMG

 


A cultura de ponta a ponto - Afonso Rodrigues de Oliveira

“Os pontos de cultura são a bolsa família das entidades, dos valores, dos significados e da imaginação criativa dos que são maioria, mas tinham se tornado minoria silenciada.” (Emir Sader)

Os movimentos da cultura no Brasil, com os trabalhos dignos dos Pontos de Cultura, foi, inegavelmente, uma revolução cultural. Foi um momento em que descobrimos grandes valores da cultura, que viviam escondidos por serem silenciados. Uma pena que a cultura nem sempre é reconhecida pelos que deveriam alimentá-la com a atenção devida, no desenvolvimento da Nação. Todos os que participaram ativamente daquele momento, viveram experiências inesquecíveis. Foram momentos que não deveriam ser esquecidos, mas são.  

Se não fossem os movimentos dos Pontos de Cultura, não teríamos conhecido, em Roraima, o Zé da Viola, por exemplo. Ninguém imaginaria que ele fosse, como tantos outros, pessoa importantíssima na sua simplicidade. Porque a cultura não está na gravata nem nos cabelos despenteados. Ela está na alma do brasileiro, infelizmente ignorado pelos que pensam que somos um povo sem cultura. Vamos em frente. Caminhando, ontem, pelo calçadão da praia, na Avenida Beira Mar, aqui na Ilha Comprida, lembrei-me dos momentos felizes que vivi com pessoas maravilhosas que permanecem e permanecerão na minha memória, no meu coração, e na minha vida. Vamos fazer nossa parte no desenvolvimento da nossa cultura. Não deixemos que os museus, por exemplo, sejam destruídos, pelo descaso dos que deveriam cuidar deles e muito mais. 

Busquemos os valores dos que lutam pela nossa cultura. Eles estão nos livros, nos museus, mas não estão mais na nossa memória. Continuam nos mandando recados para que sejamos mais amantes, do que temos de mais valioso: a nossa cultura. Já tivemos, no início dos anos sessentas, um intelectual que fez uma campanha, pela televisão, para que mudássemos a letra do Hino Nacional Brasileiro. E o argumento do intelectual era que a letra do Hino é clássica, e os jovens não conseguiam entendê-la. E foi na mesma época em que foi eliminado, pelo governo, o hasteamento da Bandeira Nacional nas escolas, porque os jovens modernos estavam se sentindo constrangidos.

A vulgaridade nos meios culturais anda preocupando. Deixando-se de lado os grandes movimentos culturais atuais que merecem todo nosso respeito. Ainda há pouco, sentado aqui, com esse papo, ouvi coisas incríveis ditas por comunicadores, que não deveriam ser ditas, diante de crianças que assistem ao programa. E não se trata de coisas obscenas ou coisa assim, mas coisas assim: “Nós voltamos amanhã.” Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460        

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