Por Opinião
Em 18/10/2019

Tratando das cicatrizes

Vera Sábio*

Não aprendi a dizer adeus a tudo que via, mesmo que não convivia.

Porém, tenho que aceitar que as cicatrizes que ficaram, na cegueira adquirida, não são suficientes para que não enxergue mais.

Afinal, tenho paz, sinto cheiro, ouço, experimento e canto. Vivo bem, tenho até mais do que os olhos alcançam e não tocam.

Pois muitos têm a visão externa, mas não conseguem enxergar a beleza da alma, do cheiro e do paladar.

Não conseguem compreender o que realmente é ver, tendo que conviver com uma pessoa cega e experimentar da sua vida, para aí talvez entender.

Sei que não é fácil tratar das cicatrizes, principalmente porque a sociedade cega em seu egoísmo, não enxerga aquele com limitação no olhar, retirando dele a vontade de explicar, de ser livre e sonhar.

Querem que quando estiverem falando tenham olhar fixo no interlocutor para sua voz ter valor, sem enxergar sua alma que clama por amor.

Querem que o cego entenda o gesto e replique, como um cumprimento a distância, um sorriso labial, um movimento sem som, que nem se quer dá condição ao cego saber de onde vem, quanto mais retribuir como aquele que enxerga, pensa que deveria ser.

Mas o que não vejo mesmo, é como deve ser.

Toda forma de amor vale a pena. Isso ultimamente está sendo muito declarado. Aí, quando se trata da pessoa com deficiência, é simplesmente ignorado.

Temos muito mais cicatrizes deixadas pela ignorância a nosso respeito, do que pela ausência de cores, rosto e tudo que os olhos permitem observar.

Então não custa nada a sociedade empática nos fazer enxergar.

Abraço não precisa de olhos, amor não enxerga aparências, solidão nem tudo que enxerga é suficiente para preencher o vazio que ela produz.

É mais fácil retirar as travas dos olhos e assim produzir ao cego nova luz.

Uma luz solidária, com ternura, compreenção e, principalmente, valorizando todo tipo de aptidão.

Desafio agora então a perguntar claramente, quem aqui em Roraima, e talvez no Brasil, sendo um casal cego, foi capaz de adotar uma criança com deficiência.

Não estou com isso me vangloriando, pois a gestação esconde o futuro do filho que virá, da mesma forma a adoção, não sabe quem irá acolher. No entanto nem a biológica ou adotiva, tem o direito de rejeitar.

Acredito tanto nisso que sei que Jesus sempre ajuda a cuidar dos filhos que ele nos dá.

Mas deixo aqui meu testemunho só para mostrar que o cego também é capaz e que a cicatriz do preconceito e inferioridade é a mais difícil de tratar, dependendo de vocês para esta situação transformar.

*Escritora, psicóloga, palestrante, esposa, mãe e cega com grande visão interna.
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Blog enxergandocomosdedos.blogspot.com.br


RELATIVISMO OU VERDADE ABSOLUTA 
 Wender de Souza Ciricio*

Gente, tá tão turbulento essa coisa de dizer quem está certo e quem está errado. Esse século, chamado por muitos de mundo pós-moderno, tem gerado tantas perplexidades no que se refere a valores, ética e moral.

Milhares de encruzilhadas e bifurcações se põe diante da sociedade que acaba confusa, instável e paranoica sobre verdades que para alguns soam universais e absolutas e para outros relativas e subjetivas.

Existe uma âncora, um legítimo discurso em que pessoas possam se apoiar, se segurar e se sentir certo de que esse é o melhor, e talvez único, conceito ético e moral a ser agarrado e praticado? Por quase mil anos, lá no período medieval, a igreja católica, como única voz pensante no mundo ocidental, conseguiu através de suas pregações e homílias universalizar valores que foram absorvidos de forma espontânea por uma maioria e, de modo forçado, por uma minoria que não aceitando eram confinados ao tribunal da inquisição. Porém, hoje não se pode seguir esse modelo, vai contra o palpável individualismo. Nesse terreno contemporâneo o homem cresceu intelectualmente e com essa inteligência veio a reboque uma série de princípios que se chocam e se confrontam entre si.

Essa humanidade que pisa e respira esse período é possuída pelo status da autonomia. Prevalece o individualismo. O narcisismo nos acompanha e o consumismo norteia a vida de quase todos. É a valorização do “aqui e agora”, o “viva o presente”, uma espécie de carpe diem. Nada é concreto e fixo. A ideia que era uma verdade passa a ser interpretada apenas como mais uma no conjunto de hipóteses. Fomos engolidos pela banalização ou ausência de valores. Este mundo tornou-se essencialmente plural, sem verdades singulares e universais. O que vale para um pode ser, naturalmente, rejeitado por uma grande maioria. Defender uma verdade é estacionar no deserto.

A grande bandeira soa em como resolver os males e conseguir satisfação. A moda é amar a comida, mas odiar as indústrias alimentícias; amar a organização, mas odiar a burocracia; falar de Deus, mas fugir da religião, a menos que essa religião apresente um deus subserviente, ou seja, o deus da benção, da recompensa e do benefício, mas nunca o Deus do compromisso e da renúncia. Nesse hoje não cabe debater e gastar tempo com leitura. A família não precisa mais ter como base pai e mãe, porque a fala é: basta amar e já é família, sem importar quem a compõe. 

Contudo, é nesse balaio que também se avoluma o conflito. Vários defendem a pluralidade de ideias e valores, mas experimente contestar e verá chumbo grosso vindo em sua direção. Falam que não existe “verdade absoluta”, declaração essa que por si só já é uma verdade absoluta. Se toda verdade é relativa, seria essa verdade também relativa? Se não existem absolutos, a pessoa que afirma isso estaria absolutamente correta? Confuso demais.

Os relativistas de qualquer lugar desse mundo são contraditórios. O relativismo, por exemplo, afeta leis morais. Matar ou tirar a vida alheia é errado em qualquer lugar. O pior bandido sabe que é errado matar, e não precisa ler isso em lugar algum, porque essa lei moral está dentro do ser humano. O relativista espera que sua esposa viva como se o adultério fosse absolutamente errado. Se tudo é relativo, não se pode falar que algo é justo ou injusto. Não se pode condenar o ladrão e nem dizer que a segregação racial na África do Sul foi injusta e que o estupro seja crime. Ouvi alguém dizer: Acreditar no relativismo moral é argumentar que não existem diferenças morais verdadeiras entre madre Teresa de Calcutá e Hitler, liberdade e escravidão, igualdade e racismo, cuidado e abuso, amor e ódio, vida e homicídio. Quando não há base moral, o que vale é opinião.

Alguns anos atrás uma pessoa me rotulou de brega por defender que o Deus da Bíblia apresenta para nós uma ética perfeita e infalível. Não me preocupei com o rótulo, mas em dizer: Que prejuízo esse universo teria em seguir os valores descritos na Bíblia? Seguindo a Bíblia teríamos quase sessenta milhões de mortos na segunda guerra mundial? Tantos ricos se matando quando perdem parte de suas posses? Rapazes brigando e se matando nas saídas de festas? Políticos surrupiando cofres públicos e tantas outras maldades praticadas por mim e por você? Se a verdade de Deus fosse nosso norte, tanta coisa não acabaria mal. Porque uma das mais contundentes prerrogativas bíblicas é amor ao próximo. Amar ao próximo gera prejuízo? A verdade não se inventa, se descobre.

*Psicopedagogo, historiador e teólogo
wenderciricio@gmail.com


Batendo na tecla

Afonso Rodrigues de Oliveira*

“No Brasil só há um problema nacional: a educação do povo.” (Miguel Couto)

Um problema que vem se arrastando há séculos. Faz realmente muito tempo que não lidamos, mas sofremos, com as consequências da falta de uma educação de qualidade. Os exemplos mais elementares da deseducação estão no dia a dia, sobretudo nas grandes cidades. Nada é pior do que você ver um “cidadão” jogando um papel sobre a calçada. E isso é mais comum do que se imagina. Ainda insistimos em querer resolver um problema caduco, com protestos baratos, que já indicam falta de educação.

Os movimentos contra o desmatamento, as queimada nas florestas, não são mais do que uma demonstração de falta de conhecimento e educação.

Os gritadores primeiramente escrevem muito sobre seus protestos contra o descaso com a natureza. Só que eles não imaginam, porque não sabem, porque não lhes ensinaram educando-os, que aquele papel que ele usou para escrever o protesto é uma demonstração de desconhecimento. Ele não imagina quantas árvores foram destruídas para a fábrica poder fabricar aquela folha de papel. A Cultura Racional diz: “O ser humano é o único animal sobre a Terra que para construir, tem primeiro que destruir.” Que é o que fazemos para construir, inclusive a Educação. 

Todos os grandes pensadores do nosso mundo versaram sobre o problema com a educação. Até Napoleão Bonaparte disse que: “Devemos construir mais escolas para não termos que construir mais presídios.” Mas como a construção de presídios gera riqueza para os “construtores,” vamos construí-los. E como a Educação inibe o crime, por que educar?

Infelizmente, se você prestar mais atenção a isso, vai ver que ainda não somos cidadãos. Embora continuem nos iludindo, chamando-nos de cidadãos brasileiros, ainda não nos educaram para que saibamos que não há cidadania com obrigatoriedade no voto. Que quando você critica a atriz por ela usar um casaco de pele, está nadando no desconhecimento. Porque logo depois da critica você vai para casa comer uma gostosíssima coxa de frango, bem assadinha. E não imagina que mais de um milhão de frangos, foi morto naquele dia, só pra você comer aquela coxinha gostosa.

Nunca pensou nisso? Então pense para poder pensar com mais maturidade, antes de fazer o protesto. Criticar exige conhecimento e racionalidade. Proteste sempre, mas com racionalidade e educação. Faça tudo que você puder fazer para melhorar a Educação no Brasil. Só com educação teremos um país cidadão. Inicie sua tarefa na educação do seu filho. Porque se você não o educar, ele irá mal educado para a escola atormentar o professor. Pense nisso.

*Articulista
afonsorr@hotmail.com
99121-1460

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