JESSÉ SOUZA

A prática de uma política que vem desde 1.500, distribuindo espelhos e bugigangas

Educação indígena não recebe o tratamento devido, muitas vezes com escolas precárias nas comunidades (Foto: Divulgação)

O acidente com um carro de transporte de escola indígena, com dois mortos, no domingo, serviu para expor não apenas o desconhecimento sobre como atuam esses veículos em áreas de difícil acesso em terra indígena, mas também o preconceito e o racismo que predominam em muitas pessoas que não se intimidam em mostrar a cara nas redes sociais.

Além de a fatalidade de duas vidas ceifadas não ter sensibilizado os internautas, a questão da educação indígena também fica escamoteada nesses discursos de ódio aos povos indígenas, enquanto o governo local adota uma política de desprezo histórico com as políticas públicas sob a alegação de que seria de competência exclusiva do Governo Federal.

No entanto, quando se trata de buscar os votos, as comunidades indígenas são alvos preferenciais de todos os políticos, indo até lá para fazer promessas que nunca serão cumpridas ou simplesmente engabelando com forró, cachaça, cesta básica, torneio de futebol e bugigangas, da mesma forma que os portugueses faziam quando chegaram ao Brasil em 1.500.

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Depois de eleitos, tiram as máscaras e assumem suas identidades anti-indígenas, apoiando todos os tipos de ataques aos direitos indígenas, atentando contra o direito à terra, apoiando o garimpo ilegal, fechando os olhos para a educação e saúde indígenas, além de outras políticas de silenciamento e esquecimento dos povos tradicionais.

Na atualidade, os parlamentares que se colocam como aliados do Governo Federal  trabalham por seus interesses políticos e/ou empresariais, fechando os olhos para a destinação de recursos para educação, que é o principal instrumento para garantir cidadania plena aos povos indígenas. Hoje faz falta um mandato verdadeiramente indígena, a exemplo do que foi a então deputada federal Joenia Wapichana.

Atacada até hoje, Joenia se tornou, de longe, a parlamentar que mais destinou verbas para a educação indígena, quando disponibilizou mais de R$ 49 milhões destinados a estruturar e apoiar a educação indígena em Roraima. Foram R$44 milhões em emendas para melhorar a estrutura de 100 escolas indígenas, beneficiando mais de 18 mil estudantes indígenas e professores que atuam na educação básica e no ensino médio.

Naquele momento, a situação era crítica na maioria das escolas em terras indígenas. Um exemplo ocorria no Município do Amajari, na Comunidade do Cajueiro. A Escola Estadual Indígena Romeu Crispim havia sido construída há 30 anos, ainda no governo do falecido Ottomar Pinto e nunca tinha passado por nenhuma obra de manutenção.

O prédio da escola tinha apenas uma sala, que deveria servir apenas para dar aulas, mas que era utilizado para abrigar de maneira improvisada a Unidade Básica de Saúde (UBS) e ainda tinha que colocar os alunos debaixo do pé de mangueira para estudar no dina que havia ações de saúde na comunidade. Também não tinha carteira escolar para todos, não tinha fogão nem geladeira para atender a merenda escolar. O banheiro era precário, obrigando as crianças a fazerem as necessidades literalmente no mato.

Essa é a realidade omitida por políticos, autoridades educacionais, prefeitos e prefeitas, vereadores e até mesmo os órgãos fiscalizadores. Com nenhum político comprometido em olhar para os direitos indígenas, nem mesmo para destinar emendas, restam a desinformação proposital, o preconceito e o racismo estrutural contra aqueles que vêm recebendo espelhos e bugigangas desde os tempos dos colonizadores, enquanto os detratores dos indígenas sentem-se livres para atacar nas redes sociais por prazer sórdido ou por ódio gratuito.  

*Colunista

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