JESSÉ SOUZA

Da primeira denúncia sobre corrupção sistêmica até a 11ª nomeação na Sesau

Denúncias na Sesau remontam ao primeiro secretário da atual gestão, que se demitiu em 2019 (Foto: Divulgação)

Quando pacientes renais ficam sem atendimento a partir do anúncio de que a clínica conveniada do Governo do Estado fechou por não receber o pagamento pelos serviços prestados, na segunda semana deste mês de fevereiro, uma família entrou em contato com jornalistas na tentativa de que a imprensa pudesse interceder por uma paciente prejudicada pela falta de hemodiálise.

Não havia mais o que ser feito, além das denúncias que vinham sendo realizadas naquele período. A única saída seria pagar uma clínica particular, algo fora do alcance financeiro daquela família e longe do papel da imprensa. No Hospital Geral de Roraima (HGR), só são atendidos casos considerados “graves” de acordo com a avaliação médica. Resultado: a pessoa faleceu à míngua, sem conseguir atendimento público.

Esse é apenas mais um dos lamentáveis casos que vêm ocorrendo ao longo dos últimos anos de crise na saúde pública estadual, que já vinha de governos anteriores e encrudesceu em abril de 2019, início do primeiro mandato do governador Antonio Denarium, quando o então secretário estadual de Saúde, Ailton Wanderley, se demitiu denunciando a existência de corrupção sistêmica naquela pasta com a existência de esquemas de favorecimento envolvendo políticos, empresas e servidores da Sesau.

De lá para cá, totalizam 11 secretários, todos substituídos após seguidas denúncias, inclusive um deles alvo de operação da Polícia Federal e denunciado por assédio moral e sexual praticado contra servidoras. Nesse ínterim, ocorreu até o caso do dinheiro na cueca durante uma operação da PF para apurar um suposto esquema de desvio de recursos públicos para o combate ao coronavírus. De lá para cá, várias crises surgiram, entre eles o escândalo de mortes de mães e bebês na “maternidade de lona”, como ficou conhecida à época.

Naquele período, um relatório de auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que, de 2020 a 2023, o Estado de Roraima registrou mortes de 90 mães e 714 bebês no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazareth, cujo prédio havia entrado em reforma, por isso a maternidade passou a funcionar debaixo de tendas que abrigaram o Hospital de Campanha que atendeu pacientes durante a pandemia de Covid.

A própria gestão da recém-exonerada secretária de Saúde, Cecília Lorenzon, foi cercada de escândalo, a ponto de ela ser afastada do cargo, há quase um ano, em consequência da Operação Higeia, deflagrada pela Polícia Federal, que teve a residência de Lorenzon como um dos alvos de busca e apreensão dentro da investigação de suspeitas de fraudes em cirurgias ortopédicas no Estado, fato que repercutiu nacionalmente.

Reconduzida após um recurso judicial, Cecília Lorenzon não só retomou a condução da Sesau, apesar das críticas e das seguidas denúncias, como também voltou a ocupar seu cargo na Companhia Energética de Roraima (Cerr), que está em liquidação e onde pesam mais denúncias de irregularidades e muita polêmica, cargo este do qual ela também foi exonerada.

A permanência de Cecília na Sesau ficou insustentável após o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Soldado Sampaio, ter ido à tribuna, no dia 19 passado, para acusar a secretária de cuidar apenas de interesses financeiros, de cobrar propina e de realizar terceirização suspeitas, além de não pagar o salário de médicos, o que impôs dificuldades no atendimento de pacientes.

Os demais fatos que se desenrolaram após a mudança de titular na Sesau são de conhecimento público. E o que importa, a partir de agora, é que todas as graves denúncias sejam devidamente apuradas e esclarecidas, com os responsáveis punidos, uma vez que vem sendo prometido pelos deputados levar ao conhecimento da Polícia Federal e dos órgãos fiscalizadores todas as irregularidades apontadas e que custaram vidas nesses últimos anos. Isso não pode cair no esquecimento, assim como ocorreu nas gestões passadas.    

*Colunista

[email protected]

Compartilhe via WhatsApp.
Compartilhe via Facebook.
Compartilhe via Threads.
Compartilhe via Telegram.
Compartilhe via Linkedin.