
Todas as vezes que ocorrem acidentes de trânsito em que há grande repercussão, o assunto vira pauta de discussão para logo em seguida ser esquecido até que ocorram novas tragédias. É importante ressaltar que não se trata de um desafio apenas de Boa Vista ou do Estado de Roraima em si, mas de muitos países do primeiro mundo, inclusive dos Estados Unidos.
A situação tornou-se tão significativa no país norte-americano que já existem estados adotando medidas além do convencional, que é multar, apreender veículo e suspender a licença para dirigir. Na Virgínia, por exemplo, as autoridades querem adotar um dispositivo limitador de velocidade como forma de evitar que o motorista ultrapassasse os limites de velocidade permitidos na área em que está dirigindo.
Em se tratando de Brasil, é impensável que seja adotada uma medida desse nível como tentativa de reduzir acidentes relacionados ao excesso de velocidade. Então, a única saída é recorrer mesmo à “política do tranca-rua”, ou seja, fazer um cerco aos transgressores com blitz volante rotineiramente, instalação de quebra-molas tradicionais e ampliação de número de radares fixos, os chamados “pardais”.
Está bem evidente que o condutor boa-vistense não liga mais para campanhas educativas e de conscientização, chegando a não respeitar mais faixas de pedestres (o que era motivo de orgulho da população anos atrás) nem os radares que apenas sinalizam o limite de velocidade e alertam sobre o excesso ou parabenizam os que estão dentro do limite. Logo, não resta outra saída senão partir para a repressão.
Com apoio da Polícia Militar, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) realizou uma operação Lei Seca em Boa Vista no fim de semana, o que revelou que a imprudência e a irresponsabilidade imperam, com oito condutores flagrados no bafômetro, além de 11 que se recusaram a fazer o teste. Ações como essa precisam virar rotina, mas acabam esbarrando em outra questão: a pressão por parte de uma elite que se acha acima da lei.
A rigorosidade da lei aplicada nos bairros mais afastados do Centro não é a mesma para os bairros considerados nobres, onde moram as autoridades, o que desagrada os que têm seus filhos abordados no trânsito. Da mesma forma como ocorrem as abordagens durante as operações de segurança noturna, onde os que pertencem às classes mais abastadas dos bairros nobres não são alvos de abordagens policiais, enquanto nos bairros mais pobres a polícia inclusive sente-se livre para parar tudo e colocar todo mundo na parede, ato este que seria impensável nos bares da elite.
Então, há um problema mais além de quando se trata de endurecer a repressão no trânsito na Capital, pois a rigorosidade das leis de trânsito tem restrições dependendo do setor da cidade ou do condutor adepto da lei do “você sabe com quem está falando?”. Significa que esse é mais um impeditivo para que uma ação de tolerância zero seja adotada como instrumento efetivo de combate aos transgressores no trânsito.
Restam outras medidas a serem adotadas, a exemplo do que vem ocorrendo em Fortaleza, que colocou em prática as propostas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para reduzir índice de mortes e lesões no trânsito pela metade até 2020, por meio de medidas simples, como readequar o limite de velocidades na área urbana. Lá, avenidas de grande movimento o limite máximo de velocidade é de 50Km/h, fazendo com que fosse reduzido em até 40% o número de mortes no trânsito.
O apoio das autoridades e da população é fundamental, uma vez que se trata de uma medida antipática à opinião pública acostumada a não respeitar leis. Por aqui, em Boa Vista, quando as autoridades municipais de trânsito começaram a adotar ações e medidas para fiscalizar e multar por excesso de velocidade, com instalação de radares, o que não faltou foi gente fazendo coro na imprensa e redes sociais, inclusive vereadores, de que estaria sendo instalada uma “indústria de multa” ou de “perseguição ao contribuinte”.
Não há outra saída senão este remédio amargo de reduzir o limite de velocidade nas vias de grande movimento, com multa aos transgressores, blitz efetiva em todos os setores da cidade, principalmente à noite, a partir de quinta-feira, e alertas na mídia sobre o endurecimento à repressão no trânsito como forma de avisar aqueles que costumam alegar que estaria havendo perseguições ou injustiças.
Principalmente, a cidade não pode ser elitizada por setores em que bairros nobres se tornam intocáveis e, não menos importante, que não ceda a pressões por parte dos que se acham acima da lei – que é a parte mais complicada de todas as medidas que precisam ser adotadas em Boa Vista.
*Colunista