Arquiteto desfaz mito de que Capital foi planejada com inspiração em Paris - Folha de Boa Vista
BOA VISTA CIDADE-JARDIM
Arquiteto desfaz mito de que Capital foi planejada com inspiração em Paris
Filho do engenheiro Darcy Aleixo, que projetou Boa Vista na década de 40, diz que plano urbanístico foi baseado no conceito de cidade-jardim
Por Luan Guilherme Correia
Em 07/12/2016 às 00:26
Arquiteto Darcy Derenusson: “Projeto urbanístico feito na época foi cumprido integralmente”. (Foto: Antônio Diniz)

Quase todo roraimense já ouviu falar que a capital do Estado de Roraima, Boa Vista, possui traçado urbano organizado de forma radial, lembrando um leque, em alusão às ruas de Paris, na França. Mas a inspiração para o plano urbanístico, projetado entre os anos de 1944 e 1946 pelo engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson, na verdade nada tinha a ver com a famosa “cidade luz”, e sim com o conceito de cidade-jardim.

A inspiração, à época, era novidade, apesar de Boa Vista ter sido apenas a terceira capital projetada do Brasil, depois de Belo Horizonte, em Minas Gerais; e Goiânia, em Goiás. A revelação foi feita pelo filho do engenheiro, o arquiteto Darcy Romero Derenusson, 63. “Naquela época, tinham arquitetos que faziam esse desenho, então era baseado no conceito de cidade-jardim, que não é Paris”, frisou.

O carioca veio a Boa Vista, pela segunda vez, para o lançamento do selo e o carimbo comemorativo do centenário do pai, Darcy Aleixo Derenusson, responsável pelo Plano Urbanístico Radial da Capital, na década de 1940. Em entrevista à Folha, o arquiteto contou a história do famoso traçado da cidade que, segundo ele, cresceu da forma que foi planejada.

“Trabalhei a vida inteira com meu pai dando aulas em faculdades e fazendo projetos juntos. Sei muito da história de Boa Vista e da implantação do projeto. É uma história que começou em 1939, quando ele se formou na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, e teve participação em obras de saneamento básico”, relatou.

A experiência do engenheiro em saneamento, de acordo com o filho, foi fundamental para identificação do surto de malária em crianças. “Na época, boa parte das crianças era vítima de malária. Os médicos que foram chamados e fizeram o saneamento, coisa que ele já havia aprendido no Rio de Janeiro, e acabou com todas as poças [de água] em Boa Vista num raio de 800 quilômetros. Feito isso, ele voltou para o Rio e fez o projeto da cidade com o auxílio de 20 profissionais altamente gabaritados. Foram mais de mil plantas desenhadas para a construção da cidade, o que hoje é um leque”, disse.

SEMELHANÇA - Apesar de a capital francesa não ter sido a principal inspiração para o projeto urbanístico de Boa Vista, as semelhanças entre as duas cidades existem. “No planejamento de Paris tem a relação entre a largura da rua com a altura dos edifícios, que não poderia ter mais da metade da largura da rua como altura, o que torna a cidade ventilada. Por conta disso, não há muitos edifícios altos em Boa Vista, pois não havia necessidade de se construir grandes prédios. O que valia mais era o traçado”, explicou Darcy.

Segundo ele, o projeto inicial para a capital roraimense foi feito para durar 25 anos. “A partir disso, teriam de ser feitos outros projetos, o que acabou não ocorrendo. Apesar disso, o projeto urbanístico feito na época foi cumprido integralmente. A infraestrutura, a parte em que a população não vê, estava lá, e isso fez com que Boa Vista crescesse da forma que foi planejada”, destacou.

CIDADE-JARDIM - Para o arquiteto Darcy Derenusson, nem mesmo o crescimento desordenado de Boa Vista tirou o conceito inicial que inspirou os traçados da Capital. “Eu achei a cidade como está muito bonita e bem cuidada, é uma cidade gostosa de andar na rua. A Praça do Ayrton Senna, por exemplo, está fantástica. Você pode andar, ver crianças e idosos, e é uma oportunidade de se ter uma vida de lazer junto com a comunidade”, ressaltou.

Ainda assim, ele criticou as ocupações irregulares em áreas de preservação. “Percebi que muitos mananciais foram ocupados e, quando ocorre isso, se criam zonas onde alagam e proliferam doenças. Por isso o planejamento deve vir sempre antes da ocupação. Todo crescimento deve ser estudado para ver como vai ser a ocupação, vendo a largura das ruas, condição de saneamento para que a cidade se mantenha limpa e bonita”, frisou. (L.G.C)

Foto: Antônio Diniz
Famoso traçado em formato de leque foi criado para que a Capital se tornasse uma cidade arborizada
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Maria Daiane de oliveira ramos disse: Em 23/07/2020 às 18:44:24

"Agora entendi porque a nossa capital quase não têm prédios como outras capitais brasileiras, antes os comentários diziam que era porque o terreno não aquentava estruturas tão altas, e agora na reportagem ele diz a verdadeira história, que é porque foi um planejamento inicial que era pra ter tido duração de apenas 25 anos, projeto este que só teriam prédios com altura com base na metade da largura das ruas, e depois disso como não atualizaram mais o projeto ficou dessa mesma maneira a cidade, como planejada inicialmente. "

O rei do gado disse: Em 27/12/2016 às 17:54:12

"Matéria esclarecedora. Senti-me como um papagaio agora, repetindo coisas só pelo diz-que-diz-que. O poder municipal tem de contar a onda de invasões que se prolifera nas redondezas da cidade. Hoje pode parecer bonito dar terra pra quem não tem em qquer lugar. Amanhã vem as consequências e as exigências. Já teve tentativa de invasão além do Anel Viário. Vai virando bagunça... Faz-se uma invasão na coxinchina e depois vão exigir serviços públicos como água, saneamento básico e eletricidade. "