Mãe yanomami implora para retornar à comunidade com corpo do filho - Folha de Boa Vista
RITUAL DE LUTO
Mãe yanomami implora para retornar à comunidade com corpo do filho
"Não permita que aumente a minha angústia", diz Lucita Sanumã
Por Paola Carvalho
Em 28/06/2020 às 12:20
Lucita Sanumã pede respostas do paradeiro do corpo do filho (Foto: Reprodução / Vídeo Condisi)

O sumiço de bebês yanomami em Boa Vista causa transtorno às mães indígenas que precisam retornar às comunidades e realizar seu próprio ritual de luto. Em vídeo disponibilizado à FolhaBV neste domingo, 28, Lucita Sanumã, da Comunidade Selipe, implora das autoridades para encontrar o corpo do filho.

As imagens foram disponibilizadas pelo presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) do Distrito Sanitário Especial Yanomami e Ye'kuana (DSEI-Y), Júnior Hekurari Yanomami, que também repassou a tradução do relato da mãe para o português.

No trecho traduzido, Lucita afirma que vai retornar à comunidade no dia 11 de julho e que quer voltar com o corpo do seu filho, cobrando uma resposta das autoridades.

“Eu quero falar com você que é uma autoridade. Preciso que me ajude. Não permita que aumente a minha angústia. No dia 11 quando eu for de volta, não queria voltar sozinha, pois essa questão de voltar sem o corpo é muito difícil. É difícil demais para mim. Eu cheguei aqui com o meu bebê e preciso que você me ajude a levar de volta”, afirma.

Lucita Sanumã e Taisa Sanumã são duas mães yanomami, oriundas de comunidades na fronteira entre Brasil e Venezuela, que perderam seus filhos para o covid-19. Ambas estão alocadas na Casa de Saúde Indígena (Casai), de responsabilidade do Ministério da Saúde. O filho de Lucita nasceu no dia 22 de maio na comunidade de origem venezuelana Selipe, no Pólo Base Awaris. No primeiro momento, a criança foi diagnosticada com pneumonia grave. O relato é que o bebê apresentava cansaço e foi removido para o Hospital Infantil Santo Antônio, de responsabilidade da Prefeitura de Boa Vista, mas veio a falecer no dia 25.

O filho de Taisa nasceu no dia 23 de maio na Comunidade Flexal, Polo Base Koronaú. Pelo estado debilitado da criança, o bebê foi levado ao Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazaré, de responsabilidade do Governo do Estado, mas também veio a falecer no dia 25. 

Cuidado dos corpos dos bebês são de responsabilidade da PMBV e Estado, diz Condisi

O presidente do Condisi, Júnior Hekurari Yanomami, afirmou ainda que a responsabilidade para o translado do corpo dos bebês indígenas é da Casai em casos quando os óbitos são por outras causas e não são de covid-19.  A informação havia sido defendida pela Prefeitura de Boa Vista (PMBV).

“Procede sim, mas os óbitos normais, que não são de covid. Que é de covid, de coronavírus, quando morre é a responsabilidade do Estado e do Município. Que já leva”, declarou.

A liderança indígena informou ainda que já reuniu todos os relatos das mães e que irá protocolar documentos pedindo explicações junto ao Ministério Público Federal em Roraima (MPF-RR), Ministério Público Estadual, Fundação Nacional do Índio e para o Ministério da Saúde. “O Estado reconhece essa cultura diferenciada que o povo yanomami. Que respeite as maẽs, o ritual de luto. Vou mandar o documento para todas as autoridades”, afirmou.

Prefeitura afirma que seguiu protocolo do DSEI

Em nota, a Prefeitura de Boa Vista informou que em caso de morte de indígenas, o DSEI é acionado pelo Hospital e o encaminhamento dos óbitos passa a ser de responsabilidade do órgão Federal, com o acompanhamento dos familiares.

No âmbito municipal foram registradas as mortes de três crianças indígenas, uma da etnia Yanomami, com idade de 2 meses, que veio a óbito dia 25/05/2020 e as demais da etnia Macuxi, com idade de 3 meses, que vieram a óbito dias 24/05/2020 e 05/06/2020.

“Conforme levantamento junto as funerárias de Boa Vista e informações das próprias certidões de óbitos, verificou-se que as duas indígenas Macuxi foram sepultadas no Cemitério Campo da Saudade, em Boa Vista, pela funerária Shallon com acompanhamento da mãe. Já a criança da etnia Yanomami foi sepultada pela funerária Boa Vista na comunidade Xexana, também conforme certidão de óbito”, afirmou a Prefeitura.

A PMBV reforça ainda que todos os procedimentos do Hospital da Criança até a entrega dos corpos à funerária contratada pelo DSEI estão registrados no livro de ocorrência do Serviço Social do Hospital, com assinatura do responsável pelo translado dos corpos. “A Prefeitura de Boa Vista solidariza-se com as famílias e já solicitou ao DSEI e ao Governo Federal que preste todos os esclarecimentos a respeito”, finalizou a nota.

Sesau diz que acompanhamento dos enterros é feito pela Vigilância Sanitária Municipal

A Secretaria Estadual de Saúde (Sesau), por meio da Vigilância Sanitária Estadual, informa que não tem ingerência sobre procedimentos realizados nas unidades municipais de saúde. Comunica que um dos protocolos adotados, após ocorrência de óbitos de indígenas internados em unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), é a notificação imediata aos DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas).

"Ressalta que o acompanhamento dos enterros de pessoas que morreram em consequência da COVID-19, para garantir que sejam seguidas todas as regras de biossegurança neste momento de pandemia, é feito pela Vigilância Sanitária Municipal. Esta é uma ação pactuada e independe de onde o óbito ocorreu, ou seja, se foi em hospital estadual ou municipal", informou.

ENTENDA - Segundo informações do El Pais, três mulheres da etnia Yanomami foram vítimas de descaso na saúde. Com a repercussão da denúncia, o Ministério Público Federal em Roraima (MPF/RR) informou que o caso está sendo apurado por meio de procedimento de investigação. (P.C.)

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