O olhar de um fotógrafo de guerra para operação em terra Yanomami - Folha de Boa Vista
GABRIEL CHAIM
O olhar de um fotógrafo de guerra para operação em terra Yanomami
Gabriel Chaim esteve durante 30 dias fotografando a ação do Exército e da Polícia Federal contra o garimpo ilegal
Por Raisa Carvalho
Em 19/06/2021 às 08:00
O fotógrafo conhecido por seu trabalho “Síria em Fuga”, documentário indicado ao Emmy Internacional desembarcou no norte do país, dessa vez, para acompanhar a realidade do garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami (Foto: Gabriel Chaim)

O fotógrafo Gabriel Chaim passou 30 dias acompanhando a ação do Exército e da Polícia Federal na região do Surucucu e Palimiú, entre a divisa de Roraima e Amazonas.

Conhecido por seu trabalho “Síria em Fuga”, documentário indicado ao Emmy Internacional, Chaim desembarcou no norte do país, dessa vez, para acompanhar a realidade do garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami (TIY).

Em entrevista exclusiva à FolhaBV, ele conta que pela primeira vez, fez imagens de comunidades indígenas brasileiras. 

“Foi uma experiência enriquecedora, é a primeira vez que trabalhei no Brasil, já atuo muitos anos no oriente médio cobrindo conflitos e era um sonho meu de muito tempo fotografar os indígenas da Amazônia. Eu nasci no interior do Pará e tenho isso muito forte dentro de mim. E fico muito feliz de ter começado esse projeto de vida aqui” contou.

Foto: Gabriel Chaim

Segundo ele, as imagens registram povos indígenas completamente isolados que sofrem com o avanço do garimpo ilegal. 

“Infelizmente a situação dos Yanomami e aldeias isoladas chegou a um grau terrível de desnutrição, com indígenas passando fome, sem nenhum tipo de assistência dos órgãos competentes. Com o aumento do garimpo ilegal, as formas de subsistência está acabando. Os animais para a caça estão sumindo. Rios contaminados. Estive em algumas dessas aldeias e o retrato é de fome, miséria e abandono. E não é algo que me contaram, é algo que eu vi” relatou.

Chaim também relata que os profissionais de saúde fazem um trabalho heroico com os indígenas da região, muitas vezes, sem a estrutura correta para levar medicamentos e vacinas aos doentes.

“Os funcionários são praticamente jogados ao “Deus-dará” sem infraestrutura alguma, ou mesmo higiene para com os indígenas. O exército por um outro lado, acaba exercendo um papel de agente humanitário que não estava predestinado a fazer. Mas o faz, por conta da falta de compromisso de outros setores responsáveis pelas tribos isoladas. Parece que toda verba destinada aos Yanomami, não chega até o destino final, os indígenas. Eu estive em várias aldeias, registrando o dia-a-dia dessa comunidade mais afastada” disse. 

Foto: Gabriel Chaim

O fotógrafo também conta que viu o momento em que os garimpeiros abandonaram as sedes para se esconder na mata.

“Quando eu cheguei ali, eu percebi a imensidão gigantesca com uma geografia completamente diferente, os garimpeiros estão em uma localidade de melhor acesso que as forças de segurança, onde é possível ver os helicópteros chegando, e lá de cima é possível ver os garimpeiros fugindo. Lá a gente vê uma devastação muito grande, e isso alimenta uma cadeia muito complexa, por que a devastação vai acontecendo, os indígenas que dependem da caça e do plantio estão completamente ameaçados. Aquela caça que eles tinham antigamente, eles não têm mais. Antes o indígena passava um dia ou dois para conseguir alimento, hoje eles precisam andar até dez dias pela mata para comer” relatou.

Para ele, o papel da Polícia Federal é coibir o garimpo ilegal quebrando essa estrutura financeira, destruindo os maquinários, mas a situação ainda está longe de ter um fim. 

“A gente sabe que as pessoas que estão lá são os “pobres-coitados” vivendo sob uma condição de escravos, escravidão física e emocional por que eles pensam que vão enriquecer um dia. O Exército faz um trabalho bem contundente, e eles abriram a porta pra mim, eles sabem que eu trabalho com crises sociais e me deixaram registrar esse momento” acrescentou.

Gabriel Chaim acumula prêmios em sua carreira como fotógrafo (Foto: Diane Sampaio/FolhaBV)

Gabriel Chaim acumula prêmios em sua carreira como fotógrafo

Gabriel Chaim é fotógrafo, documentarista e cinegrafista independente. É especializado em áreas de conflito, crises humanitárias e outras situações extremas. Têm trabalhos publicados em todo o mundo e contribui regularmente com a CNN, com a Spiegel TV e TV Globo.

Foi duas vezes vencedor do Emmy (2018) e três vezes vencedor no New York Festivals (2016, 2017 e 2018), ganhou a medalha de ouro em Deustschen Fernsehpreis (2018), no Clube de Imprensa Internacional (2018) e Peabody (2018 e 2020). Trabalhou em conjunto com a banda U2, que usou suas imagens feitas com um drone na Síria e no Iraque, em projeções durante os shows de duas turnês mundiais da banda (Innocence and Experience e Joshua Tree).

Desde 2011, Chaim dedica-se a cobrir a guerra na Síria por diferentes pontos de vista. Além de percorrer campos de refugiados em países como Jordânia e Irã, ele foi ver de perto a situação dos que não puderam sair do país e tentam levar a vida, apesar dos tiros e das bombas. Esteve em Aleppo, cidade disputada por rebeldes e soldados do governo, e acompanhou a rotina dos combatentes do exército livre sírio (FSA), testemunhando mortes e destruição.

 

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