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EDUCAÇÃO
Indígenas ensinam estudantes a cantar e dançar o Parixara
Por Folha Web
Em 10/05/2019 às 02:26
Ensinamentos são passados por estudantes que ainda falam e cantam na língua materna (Foto: Divulgação)

Um trabalho de resgate, que ocorre tanto dentro da escola quanto nas comunidades, envolve a valorização da cultura musical indígena pelos alunos do o Campus Amajari do Instituto Federal de Roraima (CAM-IFRR). 

Realizado desde 2016, o projeto de extensão na área de música reforça o ensinamentos de músicas e danças indígenas.O grupo participante do projeto aprendeu a cantar e dançar o parixara com a ajuda de estudantes que ainda falam e cantam na língua materna. 

Entre as apresentações do grupo de parixara do Campus Amajari estão a que foi realizada no Lago do Caracaranã, no ano passado, durante as comemorações do Dia do Índio, e a que foi feita no próprio campus, durante a Semana do Índio, no fim de abril deste ano. Engana-se quem pensa que as apresentações ficam restritas às comunidades indígenas. Um shopping em Boa Vista e o Campus Boa Vista Zona Oeste já foram locais de apresentações.

A motivação de desenvolver o projeto é relatada pelo professor Lucas Lima como a forma encontrada de contribuir para o resgate e a manutenção da música e da dança dos povos indígenas, as quais, ao longo do tempo, vêm se perdendo. Na etnia macuxi, por exemplo, a maior de Roraima, poucos sabem cantar e dançar o parixara. E, com isso, aos poucos, a cultura ancestral corre o risco de desaparecer. 

Além disso, conforme o professor, em festejos nas comunidades é comum ouvirem músicas dos karaiwa (brancos, não indígenas), como o forró, e não prestigiarem músicas e danças tradicionais, como o parixara, o areruia, o tipiti, o tukúi. “As músicas estão prestes a ser extintas, e da forma mais breve possível. Elas não têm transcrições, não têm gravações, não existe um trabalho de resgate”, analisou o docente.

Observando o grande número de alunos indígenas presentes no CAM e preocupado em desenvolver conteúdo de aprendizagem que pudesse valorizar a cultura local, de modo a contribuir para manutenção das culturas indígenas, o professor começou a desenvolver o projeto de resgate no campus. A experiência também o levou a estudar mais o assunto, o que resultou em uma dissertação de mestrado sobre a valorização da cultura musical indígena tanto dentro do IFRR como no curso superior de Música da Universidade Federal de Roraima. 

Para Lima, compreender e trabalhar a música indígena no Campus Amajari é fazer com que a escola conheça sua própria cultura e crie uma identidade voltada para sua realidade, oferecendo ao aluno condições para estar em contato com as tradições de suas comunidades, buscando sua valorização, promoção e preservação. 

Ele explica que trabalhar com diferentes métodos de ensino não é uma tarefa fácil, mas que o professor tem de se adaptar ao contexto no qual está inserido e transformar alguns conceitos enraizados. No caso dele, a formação acadêmica era a música erudita, mas isso não o impediu de aprender e ensinar a cultura indígena observando o ambiente ao seu redor, não apenas na sala de aula mas também fora dela, por meio de projetos. 

“Quando abordamos o assunto sobre identidade cultural no contexto escolar, estamos envolvendo questões de valores que, para alguns alunos, são importantes e que marcam sua história. E, para muitos, que são fortalecidos pela globalização, trata-se apenas de um assunto passageiro, que não vão absorver. A maneira como será repassado esse conhecimento irá dizer se essa prática educativa deve buscar transformações ou a manutenção do público onde o campus está inserido. Não será apenas um conteúdo que vai determinar a direção, e sim a didática, o modo como o conhecimento é transmitido”, explicou Lima. 

O professor reforça que discutir identidade cultural indígena no CAM ainda deixa muitos estudantes constrangidos ao exporem sua etnia e ao dizerem em que comunidade nasceram. “Muitos têm vergonha, mesmo com todas as características de indígenas. Alguns preferem ainda não se autodeclarar indígena”, disse. No IFRR, em 2018, a quantidade de alunos autodeclarados indígenas chegou a 19% dos 5.786 matriculados na instituição. 

Então, o trabalho que o professor Lucas Lima desenvolve continua, e os alunos que sabem e conhecem a língua materna vão ensinando aos outros. Agora está em andamento o projeto de extensão Socializando com Música, no qual trabalham as músicas tradicionais indígenas e a cultura venezuelana. Outro projeto de extensão é o Registro das Músicas Tradicionais Indígenas por meio dos Saberes dos Alunos do IFRR/CAM.

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