CRISE MIGRATÓRIA
Mais de 70 mil venezuelanos entraram em Roraima em 2017
De acordo a Polícia Federal, com a saída de pouco mais de 29 mil, mais 41 mil pessoas permaneceram no Estado
Por Minervaldo Lopes
Em 11/01/2018 às 01:15
Mais de 400 indígenas venezuelanos moram de maneira improvisada no Ginásio do Pintolândia (Foto: Hione Nunes)

Por meio da Lei de Acesso à Informação, a Folha teve acesso aos dados da Polícia Federal (PF) relacionados ao fluxo migratório de estrangeiros em Roraima. O levantamento leva em consideração a evolução dos números de entrada e saída de pessoas no período de três anos.

No que diz respeito ao quantitativo de estrangeiros das mais variadas nacionalidades, o levantamento da PF apontou que Roraima recebeu 42.467 pessoas em 2015. Apesar disso, somente 3.636 permaneceram no Estado.

No ano seguinte, 2016, esse número subiu para 67.601 pessoas. Nesse período, mais 50 mil estrangeiros deixaram o Estado, permanecendo somente 10.119 pessoas. Em 2017, o número de pessoas de outros países foi de 82.067 pessoas, mas 45.221 continuam residindo em Roraima.

Em relação apenas aos venezuelanos, os números são bem mais expressivos. Das 32.294 pessoas que entraram pela fronteira com Pacaraima, em 2015, apenas 3.315 decidiram permanecer no Estado. No ano seguinte, o número de entrada saltou para 57.106 e a permanência para 9.677.

Já em 2017, a quantidade de venezuelanos que buscou apoio no país foi de 70.757 pessoas. Com a saída de pouco mais de 29 mil pessoas, o número daqueles que permaneceram no Estado ficou em 41.755 pessoas.

De acordo com o sociólogo Elói Senhoras, com o agravamento ainda mais forte da crise na Venezuela, a tendência é que mais pessoas do país vizinho entrem no Brasil em busca de socorro, principalmente pela fronteira de Roraima. “Enquanto a crise econômica e política da Venezuela não se resolver, a situação só tende a piorar ainda mais, tendo a Colômbia e o Brasil como as únicas rotas de sobrevivência para aqueles cidadãos”, analisou. (M.L)

Fonte: Polícia Federal

Fonte: Polícia Federal

Mais de 1.200 venezuelanos vivem em abrigos

Outro levantamento obtido pela Folha constatou que 1.293 venezuelanos, entre indígenas e não-indígenas, estão alojados nos quatro abrigos construídos no Estado, sendo três deles montados na capital, Boa Vista, e um na cidade de Pacaraima, na região Norte.

Atualmente, segundo o Governo do Estado, as gestões dos abrigos para imigrantes venezuelanos são realizadas de forma compartilhada entre a Defesa Civil, Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes), Federação Fraternidade, Fraternidade Sem Fronteiras e Prefeitura de Pacaraima.

No primeiro abrigo construído no Estado, localizado no Ginásio de Esportes do bairro Pintolândia, o número de pessoas em determinado período já chegou a 500, mas atualmente, após a separação entre índios e não-índios, conta com 418 estrangeiros.

Por lá, os voluntários da organização Federação Humanitária Internacional Fraternidade ajudam na execução de atendimentos de saúde, por meio de parceria com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), além de aulas de português, oficinas de artesanato e recreação, em parceria com outras entidades.

Entre as mais de 400 pessoas atendidas está Jorge Luiz Zapata, de 45 anos. Natural do Estado de Monagas, o artesão contou que deixou sua terra para fugir da fome e das doenças que assolam o seu povoado. “A crise começou a ficar mais forte em 2014 e, como consequência, começou a faltar comida e os serviços de saúde também foram diminuindo. Como muitas pessoas estavam morrendo de malária, decidi sair de lá e buscar ajuda no Brasil. Para chegar aqui, passei três dias para pegar uma carona até Santa Elena de Uairén e, chegando lá, cumprimos o trajeto novamente a pé até a barreira de Pacaraima”, afirmou.

Zapata relatou ainda o período difícil de adaptação no alojamento, que antes era divido com os não-índios, os chamados “crioulos”. As diferenças entre eles eram visíveis, o que tornava a harmonia complicada. “Quando cheguei a Roraima, há um ano, só tínhamos este abrigo, que era dividido com os não-índios. A convivência não era amistosa, porque eles não nos queriam aqui e isso gerava muito conflito. Com a construção de outro abrigo e com a separação de índios e não-índios, foi que a situação melhorou”, ressaltou.

Já adaptado, o artesão agora procura uma maneira de conseguir ajudar no sustento dele e da família. “Hoje somos gratos por estar aqui, pois não passamos mais fome, e gostaríamos de permanecer aqui. Só preciso de um trabalho para poder sobreviver. Pode ser de marceneiro, carpinteiro ou até de artesão, para poder sustentar minha família”, pontuou.

Já no abrigo do Ginásio do bairro Tancredo Neves, segundo o Governo do Estado, existe 495 pessoas atualmente. O local foi montado aos poucos para receber os imigrantes que estavam acampados na Rodoviária Internacional de Boa Vista, no bairro 13 de Setembro, e os não-indígenas do abrigo do Pintolândia.

Vinda da cidade de Maturin, a comerciante Elizabeth Soares, de 27 anos, está em Roraima desde outubro do ano passado. Ela conta que veio em busca de oportunidade de trabalho para dar uma vida melhor para o filho recém-nascido. “Nunca é fácil deixar a sua cidade natal para se aventurar em uma cidade que você não conhece, principalmente para uma mãe solteira como eu. Infelizmente, tive que fazer isso, pois a crise e a fome estão muito presentes na Venezuela. Era uma questão de sobrevivência”, comentou.

Na barraca doada pela Defesa Civil, ela divide espaço com mais três mulheres e quatro crianças. Esperançosa, ela espera conseguir ajuda para conseguir um emprego. “Qualquer coisa que aparecer, eu faço. Eu sei lavar, passar, cozinhar, mas também trabalhei como comerciante. Preciso apenas de uma oportunidade para conseguir mudar de vida”, completou.

Além dos abrigos dos ginásios do Pintolândia e Tancredo Neves, a Capital possui um terceiro local de abrigo para os imigrantes. Situado no bairro Operário, o local conta atualmente com 163 pessoas, que recebem apoio da ONG Fraternidade Sem Fronteira.

Já o abrigo localizado no Município de Pacaraima conta atualmente com 271 pessoas e é gerenciado em parceria com a Defesa Civil, Prefeitura de Pacaraima e a Federação Fraternidade.

INVESTIMENTOS - Em relação aos investimentos nos abrigos, o Governo do Estado informou, em nota, que até o presente momento, foi realizado um único repasse de R$ 480 mil pelo Ministério de Desenvolvimento Social, para subsidiar as ações junto aos imigrantes venezuelanos no Estado.

“Este recurso foi executado para contratação de 12 profissionais, sendo oito de nível superior (psicólogo, assistente social, antropólogo e coordenador) e quatro de nível médio (agente sócio-instrutor), para atuação nos dois Abrigos Provisórios, conhecidos como Centro de Referência aos Imigrantes em Boa Vista e em Pacaraima. Além disso, distribuição de alimentos e cargas de gás”, ressaltou.

A Administração Estadual destacou ainda que, devido ao grande número de imigrantes venezuelanos que estão chegando ao Estado, houve a necessidade de decretar situação de emergência social, por meio do Decreto 24.469, de 4 de dezembro de 2017. “O Decreto atende a uma solicitação do Governo Federal para subsidiar o envio de recursos ao Estado para atendimento aos venezuelanos em situação de vulnerabilidade social”, concluiu. (M.L)

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rnuj disse: Em 17/01/2018 às 05:40:56

"A gente não se vira com os políticos ruins daqui? Pois eles deveriam se virar com os deles por lá mesmo!!! Como foi dito no filme tropa de elite 2: cada cachorro que lamba sua KCT@! Achavam bom as coisas subsidiadas que o maduro dava? Então resolvam lá com ele agora. "

Manuel disse: Em 16/01/2018 às 13:37:25

"Casa sem dono é assim mesmo entra e sai e ninguém esta nem ai... A Venezuela já deu o cano de 262 milhões de dólares ao Brasil. E ainda tem uns canalhas querendo dar abrigo para este povo... Não aos que querem trabalhas... mas tem muito desocupado e vagabundo usando até crianças para mendigar. Trabalhar mesmo..."