ORDEM E DISCIPLINA
Policiais saem da reserva para militarizar Colégios Estaduais
O coronel Adelson Filgueiras estava na reserva remunerada desde 2014, quando foi convidado a participar do projeto de militarização das escolas públicas de Roraima
Por Ana Gabriela Gomes
Em 12/03/2018 às 01:05
Coronel Filgueiras é gestor do Colégio Estadual Professora Elza Breves de Carvalho (Foto: Divulgação)

O coronel da Polícia Militar do Estado de Roraima (PMRR), Adelson Filgueiras, estava na reserva remunerada quando foi convidado a participar do projeto de militarização das escolas públicas de Roraima. Atualmente, o militar é gestor do Colégio Militar Estadual Professora Elza Breves de Carvalho, no bairro Conjunto Cidadão, zona Oeste, que implantou o Ensino Básico Militar em 2016. 

Há quatro anos atuando na militarização das escolas públicas, Filgueiras é um entre as centenas de militares que foram convidados a sair da reserva para atuar nas instituições. Para ele, contribuir na formação de jovens, transformar realidades, quebrar paradigmas, mudar conceitos, orientar, inspirar e valorizar a comunidade escolar tem sido os principais incentivos para o trabalho.

O início da atuação na rede escolar é lembrado com episódios de resistências, tanto de alunos e familiares, como dos profissionais de educação que, no primeiro momento, defendiam seu espaço. Com o passar do tempo, a comunidade entendeu que o propósito dos militares era colaborar com a formação dos alunos, manutenção da disciplina e, consequentemente, com melhores condições para os professores darem aula.

O resultado do esforço é comprovado nos resultados alcançados. “Não vemos mais vandalismo na escola, não vemos mais agressões físicas entre os alunos, entre os alunos e professores e servidores da escola”, informou. A implantação da metodologia militar na instituição também proporcionou avanços no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Em 2015, o índice de aprovação dos alunos era de 85%. No ano passado, o percentual subiu para 96%. Após sair da situação de pior Ideb de Roraima, a Escola Elza Breves é citada como referência escolar, servindo de modelo para outras escolas da rede pública. “O resultado vemos hoje no semblante de alunos, pais e responsáveis por terem um filho sendo homenageado, promovido e servindo de exemplo aos demais”, contou.

De forma geral, a transformação dos estudantes é notada em toda a comunidade escolar. No âmbito familiar, o reflexo do aluno é notável em relação a comportamento, disciplina, organização e compromisso com horários, uma vez que o ensino militar exige estudo e rotina. Fora da escola, a presença e movimentação de militares também resulta na ausência de bocas de fumo e traficantes junto ao bairro.

Ao falar do desafio de atuar no ensino militar, Filgueiras destacou a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento dos jovens. Além disso, reforçou o envolvimento para a formação de caráter e de valores éticos, civil e militar, que são o principal objetivo da doutrina militar nos colégios. “É nosso intuito formar cidadãos responsáveis, conscientes e preparados para as adversidades do mundo que vão enfrentar”, apontou.

Diferencial é a disciplina

Disciplina. Segundo Filgueiras, essa é a diferença primordial entre o colégio militar e a escola comum. Além dos aspectos pedagógicos, o colégio militar trabalha conceitos de respeito mútuo, civismo, urbanidade, orientação de condutas de moral e bons costumes e de convivência salutar entre alunos. Todos os dias, antes do início dos turnos matutino e vespertino, os estudantes realizam o momento cívico, onde são executadas canções cívico-militares e os Hinos Nacional e do Estado. O objetivo é criar laços entre os jovens e desenvolver um espírito de corpo.

A entrega de alamar, que é o reconhecimento aos alunos que tiram notas acima de 85 pontos no bimestre escolar, e as promoções no âmbito do colégio militar são as principais ferramentas de estímulo ao ensino aprendizagem. Pelo desejo de reconhecimento, os alunos buscam se destacar de forma positiva por meio de melhores notas e melhor comportamento. Como consequência, os estudos passam a auxiliar na formação dos demais alunos. (A.G.G)

Gestores militares precisam passar por capacitação

A ampliação do ensino militar em Roraima será fortalecida. No último dia 5 de março, a governadora Suely Campos (PP) criou a Rede de Colégios Estaduais Militarizados de Roraima por meio do Decreto 24.851-E. Ao todo, 18 colégios fazem parte da Rede. Com a mudança, a Secretaria Estadual de Educação e Desporto (Seed) criou uma comissão especial para organizar e determinar critérios para a escolha das escolas. Entre os critérios está a capacitação dos gestores militares.

A diretora do Departamento de Educação Básica da Secretaria de Educação e Desporto (Seed), Graciela Ziebert, explicou que, antes da Rede, apenas três militares atuavam como gestores. Pelo baixo número, os militares eram orientados de forma individual. Agora, as capacitações ocorrem por meio de etapas. “A primeira etapa foi realizada no início do ano, com a presença dos gestores militares e de todo o comando do Corpo de Alunos. A segunda está prevista para o final de março”, disse. Cerca de 100 militares estão participando.

Além da Seed, os gestores também são escolhidos pelos comandos da Polícia Militar do Estado (PM) e do Corpo de Bombeiros Militar (CBM). Conforme Graciela, a capacitação é essencial para que os militares conheçam o sistema educacional, apenas de alguns já terem afinidade com a Educação, seja por formação na área ou experiência em instituições como professores. (A.G.G)

“O ensino militar é fundamental para mim”, diz estudante

Para quem sempre estudou em escolas públicas comuns, se adaptar ao método militar requer paciência. Para a estudante Ana Rita Garcia, de 15 anos, não foi diferente. No 6º ano do Ensino Fundamental, o ingresso no Colégio Militar Estadual de Ensino Fundamental e Médio Coronel PM Derly Luiz Vieira Borges, no bairro Canarinho, zona Leste, mudou a vida da aluna.

O início foi um baque. As regras, a hierarquia e a organização impecável do uniforme e do cabelo assustaram a estudante. No entanto, mesmo com a adaptação complicada, Ana Rita considera que a mudança de colégio foi fundamental para seu desenvolvimento estudantil e pessoal. Após a adaptação, a aula já considera os alunos, monitores, a direção e todo o corpo escolar são vistos como uma família.

Em relação à disciplina, a aluna aponta a mudança que foi sentida pelos familiares. “Eles começam a implantar na escola desde o início. Quando você percebe, já está praticando as ações no dia a dia, em qualquer lugar. Sinto que, praticamente, virei outra pessoa”, disse. A aluna lembra que, no início, a mãe a ajudava na arrumação da roupa e do cabelo padronizado. “Agora já faço sozinha”, destacou.

Assim como em qualquer entidade militar, a rotina no colégio militar também deve ser cumprida com rigor. Todos os dias, às 6h45, Ana Rita precisa estar no colégio para a realização do momento cívico. Em fila, todas as turmas do turno matutino são apresentadas pelos alunos monitores aos comandantes das companhias, para então dar início ao canto dos hinos. Somente após o momento cívico as aulas são iniciadas.

Atualmente, ela cursa o 9º ano do Ensino Fundamental e, para os próximos anos, tem como pretensão continuar na instituição militar até concluir o Ensino Médio. “Quero cursar a faculdade de Direito para ser delegada da Polícia Federal”, concluiu. (A.G.G)

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