OPINIÃO

De guardiões a viciados: precisamos de contra-educação digital 

por José Magno*

Há ironia cruel no fato de que aqueles que, há uma década, nos repreendiam por passar tempo demais online são hoje os mais cativos aos encantos (e armadilhas) das redes sociais. Se antes eram os jovens os alvos fáceis da distração digital, hoje assistimos um fenômeno perturbador: pais, tios e avós mergulhados no mesmo vórtice de estímulos infinitos, comparações tóxicas e falsas conexões. E o pior? Enquanto os mais novos ao menos começam a desenvolver anticorpos contra esse mal, os mais velhos navegam desprotegidos – e ninguém parece estar prestando atenção.

Não é segredo que plataformas como Instagram, TikTok e Facebook operam sob uma lógica perversa: quanto mais ansiedade, comparação e consumo elas geram, mais tempo (e dados) os usuários doam a elas. Para os jovens, isso se traduz em crises de autoimagem, vício em dopamina rápida e uma incapacidade crescente de lidar com o tédio – o espaço onde a criatividade e a reflexão deveriam habitar.

Mas e quando esse mesmo mecanismo atinge pessoas de 50, 60, 70 anos? Os que cresceram lendo jornais, escrevendo cartas e tendo conversas de verdade com gente de verdade? O resultado é uma regressão digital: adultos que, de repente, agem como adolescentes viciados em likes, incapazes de manter um diálogo sem chegar o celular a cada dois minutos.

“Aham, sim, to ouvindo”

Cena comum: eu ao volante, minha mãe no banco do passageiro, os olhos colados na tela do Facebook. Eu falo, ela responde com um “Aham” automático, um “Sim” vago, um “Tô ouvindo” que soa mais como um reflexo condicionado do que como afirmação sincera. O que mais me intrigou não foi a falta de atenção em si, mas o ritmo quase patológico do consumo: três segundos de vídeo, desliza. Mais três segundos, desliza. Uma busca frenética por algo que nunca chega – e nunca vai chegar.

Quando perguntei, “A senhora tá me ouvindo?”, a resposta foi um silêncio constrangedor. E ali, naquele momento, percebi que o problema não era só dela.

Houve um tempo em que os mais velhos eram os arautos dos perigos da internet. “Cuidado com o que você posta!”, “Não fale com estranhos online!”, “Esse celular vai te deixar doente!”. Hoje são eles que precisam ser lembrados de que memes não substituem memórias, que reações não equivalem a conexões e que um like nunca será um abraço.

Enquanto a Geração Alpha (nascidos a partir de 2010) cresce sem saber o que é uma conversa sem interrupções de notificações, nossos pais e avós estão desaprendendo habilidades sociais que antes dominavam. E o pior: sem nenhum tipo de filtro crítico. Se para nós, jovens, identificar fake news ou perfis falsos já é difícil, para eles é quase impossível.

Se queremos evitar que essa epidemia mental se alastre ainda mais, precisamos agir. E isso significa, ironicamente, educar quem um dia nos educou.

Precisamos ensiná-los que:

O feed não é a realidade. Por trás daquela foto perfeita e photoshopada, há uma vida tão comum (e às vezes tão triste) quanto a deles.

Promoções milagrosas em links coloridos e que piscam, notícias que alegram porque nos convém ou estressam porque não dizem o que queremos ouvir, vídeos sensacionalistas muitas vezes escondem golpes ou manipulação e por aí vai…

A vida real acontece bem longe da tela. Uma tarde de silêncio, uma conversa sem pressa, um pão com manteiga e um copo de Coca-Cola no meio da tarde, sem fotos para o Instagram – são nesses momentos que a nossa existência se faz como realmente é.

Talvez a única saída seja dar alguns (muitos, talvez) passos atrás. Reaprender a ler livros em vez de rolar feeds. Redescobrir o prazer de um jogo de Banco Imobiliário ou Uno em família. Trocar a fofoca virtual pela cadeira na calçada de casa para falar de como a filha da vizinha engravidou cedo.

Sempre detestei o termo “geração nutella”, mas a vida, do jeito que está, não tem sido doce. Estamos todos – jovens e velhos – perdidos em labirintos digitais, esquecendo que o que realmente importa não cabe em 280 caracteres, não ganha likes e não pode ser filtrado.

Que possamos, então, resgatar o que importa. Que minha mãe volte a me ouvir quando falo. E que, no fim das contas, a única rede social que realmente vale a pena seja aquela que não precisa de login – apenas de presença.

*José Magno é jornalista por formação, repórter e produtor na Folha de Boa Vista. Apaixonado por marketing e branding, possui experiência em jornalismo político, cultural, assessoria de imprensa e produção de conteúdo para a geração Z, tendo atuado em diversos órgãos da administração pública e setor privado.

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